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Anderson Lucarezi

ANDERSON LUCAREZI

 

Autor dos livros de poemas Constelário (Patuá, 2016) e Réquiem (Patuá, 2012), Anderson Lucarezi nasceu em São Paulo em 1987. Passou 14 anos sob educação religiosa que desembocou na descrença. Em 2007, ingressou na Universidade de São Paulo, onde está terminando a graduação em Letras. Trabalha como professor de Ensino Médio e como pesquisador na área de literatura. Interessa-se, também, por tradução, principalmente de poesia norte-americana. Tem alguns poemas publicados na antologia do III Festival de Literatura da Letras / USP. Lança, agora, Réquiem, livro que contém textos datados do período entre 2006 e 2012 e que, em sua primeira versão, foi vencedor, na categoria texto, do Projeto Nascente USP 2011.

 

 

Skook do livro Incensário


Conheça 05 poemas do livro Constelário, de Anderson Lucarezi:

 

 

a descoberta de planetas no papel
– legítima logopéia, móbiles em órbita –
há tantos séculos, por homens inventivos,
soubessem de hoje, de agora,
a roda da sonda no marrom do planeta dito vermelho,
olha que há água numa lua de saturno!
onisciente, meu olhar pelo telescópio
o intui do observatório, tanta luz!
zune, do mesmo prédio, a TV em corrente elétrica
a captar, por satélite, também do espaço sideral,
lágrimas: o tiro transmitido ao vivo, alojado em crânio sírio:
o irmão inerte; será assim também,
me digam, em outras zonas habitáveis do universo,
ou será o reverso?
ou será só nesta nossa casa azul,
blue, marejada de água salgada?

 

***

o amor anti(antes)natural: nas asas da mitologia,
decola, estratosférico, e rima com nomes da astronomia.


preso nas garras da águia olímpica que desceu sobre Tróia,
seduzido – êxtase e glória – cedendo à dança das esferas,


Ganímedes, elevado a lua predileta, orbita Júpiter.
quem diria: o próprio céu encena o desejo atribuído a Lúcifer.

 

***

F _ _ _ _ _

 

num jogo de forca com o espaço
formo caracteres ao ligar estrelas.
vasto, o céu, mas é tanto que erro,
que se vão as chances pelo constelário,
e ao me envolver nas letras do teu nome,
teia de tarântula que ataranta,
se apronta a corda, se prepara o laço,
a ponto de, quando menos espero,
furado, meu papo de amor liberado,
se gerarruínar uma quase esperança,
que me embarga a voz, que me consome,
conforme me rouba o chão, como ao enforcado.

 

***

 

um polvo tinta o buraco da fechadura.
da nuvem escura floresce um universo:
ainda que mais explorado que o oceano,
é nele – sua profundeza – que – sidérico –
o olho d’água desse mistério se espelha.


olha se não é um rio leitoso que murmura,
apenas afluente nesta hidrografia,
intrincadas linhas da palma de uma mão,
como a minha, como achar tua companhia
naquele allegro de agranulados de estrelas?


restou, no vácuo do espaço, outro molusco,
fonte da minha tinta pro registro em sépia,
na fotografia, caco de paisagem,
e o mero memento, como não poderia,
no vão, meu coração esplender em poinsétia?

 

***

eu, a La Lucien, na corte aos astros
literários, de fato, dizem,
são os poucos que se fixam,
perenes, na cúpula de cristal;
por vezes, entre tais mestres, no firmamento,
um cometa itinerante, um texto em jornal
a cada cinco anos,
concessão da confraria celeste,
no fim, só aberta
aos de coluna vertebral bastante flexível;


no barco furado das ilusões perdidas,
sob o pulsar dos dentes do céu de escárnio,
caninos por triturar os cosmonautas,
o fosco brilho final, submarino, a se ver:
houvesse esperança,
talvez fosse Absinto a cariar o constelário,
mas não:
a estrela abissal dos últimos dias da assassina fome.


***


Conheça 04 poemas do livro Réquiem, de Anderson Lucarezi:

 

marrom.


o castanho ocular
de expressão retorcida
-a dureza da vida-
tempestuoso, triste,
revolto em cor diáfana;
amargo olhar insiste
e incide em minha pele
-pálida, nua, nada.
e  eu digo a tal sargaço:
erga esse seu braço,
aperte a minha mão.
o nosso gesto, unido,
tatua nesse chão
sombra de mesma cor.

***

sumo.



vou chupar – rara sincronia – desse
(o sumo) átimo – entre vontade e fato –
entreato da rotina – estima – : o que vale
a via. – consumada por ouvido, tato
olfato, língua e vista: memória da pele.

que o momento é vago que o intento
é ato que o que segue é lapso que à
manhã vem a lida e o embargo e o
cancro e o atrocaducapacausti etc

sem: tempo perdido louvando o apogeu.
deixar para o depois, hora triste
quando, passado o brilho – Halley –
de estar com quem se quer,
só o que houver for: escrever

***

sertão.


a paz do som quase ausente
a cadente madrugada,
no verão, candente
saudade reticente
o sertão

eu

 

***

antes que o dia acabe.



antes que (se houver depois)
tornemo- nos fogos- fátuos
a girar no ar, perdidos,
e esbarremos um no outro,
sem matéria, sem memória,
pura energia da terra,
sem mais ser mesmo,
mero pó do pó do cosmos,
te digo : venha, e já.

 

 


 

 

Livro: Constelário

Autor: Anderson Lucarezi

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 80

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + Frete

 




 

Livro: Réquiem

Autor: Anderson Lucarezi

Gênero: Poesia

ISBN: 978-85-64308-25-1

Número de Páginas: 88

Formato: 12x18

Preço: R$ 30,00 + Frete