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Janaína Calaça
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JANAÍNA CALAÇA

 

Autora do livro Obs(cena)s nasceu em 1982, em Salvador, Bahia. Em 2007, trocou o colorido das tardes quentes no Solar do Unhão pelo p&b de São Paulo e hoje anda com a cara para cima, tonta com os arranha-céus, à procura de um horizonte impossível. É graduada em Letras pela UFBA e hoje dedica-se a por o pé na estrada, escrevendo sobre viagens para o Jeguiando (http://jeguiando.com), sem abandonar, no entanto, seu amor pela literatura. Obs(cena)s é uma reunião de contos sobre o cotidiano, recortes de vida, cenas de bastidores, o que está por trás das cortinas e da sujeira debaixo dos tapetes desbotados.

Confira a entrevista de Janaína Calaça ao blog GiroLetra!

 

Contato:

Skook de Algarobas Urbanas

 

 

3 trechos dos contos de Janaína Calaça

 

 

O Elevador

 

Ele chega em casa. O nome não importa. Dar nome individualiza demais e ele era apenas mais um que chegava em casa à noite, fatigado, estropiado, com os dedos latejando, depois do aperto no metrô e dos seios de uma mulher peituda roçando suas costas (ele até gostaria, se não ficasse de pau duro e se o pau dele não tivesse se encaixado perfeitamente na bunda de um rapaz invocado. Sabe como é né? Algo como brincar de Lego). Mas como dizia, o nome não importa. Ele é só mais um. É como gado para abate. Não importa se ele se chama Mimoso, o que importa é a carne que ele tem para oferecer.

 

[...]

 

O Domador

 

O cheiro doce permaneceu escondido nas reentrâncias do assoalho úmido, alimentado pela pouca luz e pela ausência de mãos a movimentar os pontos finos de poeira. Donato não lembra quando e como saiu de lá, mas sabia quanto dele ficou naquele assoalho, naquelas paredes e nos dedos do outro. Agora queria tudo de volta e por isso retornava ao cômodo, àquele dia e aos sons agudos e espaçados que riscavam o silêncio.

 

[...]

 

O tempo e as botas

 

Um corpo miúdo caminha em minha direção como se fosse me perguntar algo e realmente pergunta no final das contas. “Que horas são, minha filha?” Tenho sérios problemas quando alguém me pergunta as horas e ainda mais se o relógio for de ponteiro. Entro em um pânico interno, enxergo os números embaralhados e, só depois de muito olhar, consigo entender o que o tempo aprisionado no meu relógio de pulso me diz. “São onze e quarenta e cinco”. “Obrigada, minha filha”. “De nada”. Olho novamente para o relógio e sei que mesmo que o tempo esteja escravizado debaixo do vidro transparente, ele só caminha na direção que quer caminhar, sempre pra frente, firme, sem olhar para trás. O tempo não tem passado, nós é que temos, por isso ele não se compadece, não envelhece, não quer saber. O tempo lava as mãos. Uma vez, quando eu era menina, meu relógio, presente de aniversário de dez anos, quebrou. O vidro se partiu, mas os ponteiros continuaram a marcar o tic tac insistente. Coloquei o dedo no lugar onde havia antes o vidro e mexi o ponteiro para trás, como se quisesse ganhar mais uma hora no meu dia. Eu dormiria mais tarde, veria cenas proibidas da novela escondida atrás do sofá, mas só mexi no meu relógio, o tempo de meu pai e de minha mãe continuava intacto e eu não deixei de envelhecer. Não ganhei mais uma hora na vida, nem menos rugas nos olhos, nem menos veias nas mãos, saltando para serem vistas.

 

[...]

 

 


 

Livro: Obs(cena)s

Autor: Janaína Calaça

Gênero: Contos

ISBN: 978-85-64308-12-1

Número de páginas: 124

Formato: 12x18

Preço: R$ 25,00 - Frete Grátis, Aproveite!