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Santiago Santos

SANTIAGO SANTOS

 

Santiago Santos [1987] é escritor, tradutor, jornalista e tereréficionado. Mora em Cuiabá desde moleque, desenvolvendo constantes táticas pra fugir do sol e do mormaço. Publica drops semanalmente no flashfiction.com.br e lançou em 2016 o livro de contos Na Eternidade Sempre é Domingo, uma aventura pé na estrada que mergulha na história e na mitologia dos incas. Já publicou ficção em diversas antologias, blogs, jornais e revistas. Algazarra é seu segundo livro.


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Olhos emprestados

Eu tinha 11 anos quando perdi os olhos.

Foi na praça Alencastro, no centro de Cuiabá, esperando o ônibus. Um grupo tocava flauta e violão no ponto. Papai disse que eram hippies, mas achei que eram do circo porque um palhaço fazia graça junto. Uma mulher bem gorda me chamou enquanto papai comprava pipoca. Puxou do carrinho um espelho. Falou que eu tinha olhos muitos bonitos e perguntou se podia emprestar eles. Eu disse que sim. Vi meu rosto por uns três segundos no reflexo e não vi mais nada.

Fiquei parado até meu pai me pegar pelo ombro e começar a gritar. Ele enfiou o dedo nos buracos pra saber se tava ficando louco. Não tava. Foi difícil me acostumar com a cegueira e nem chorar eu conseguia, por motivos óbvios. Aprendi a ouvir as coisas de verdade, fazer tudo com calma, pedir ajuda. Meu pai bebia pra engolir a culpa, justo no minuto em que virou as costas.

Esperando o ônibus na praça, ouvi a voz daquela mulher de novo. Dois anos haviam se passado. Ela agradeceu. Fez o que precisava e queria devolver os olhos. Pisquei e enxerguei. Tavam diferentes. Agora eles avançavam e voltavam no tempo. Papai mandou guardar segredo, falou que a gente ia fazer aposta, ficar rico.

Na escola, todo mundo quis saber como consegui os olhos de volta. Obediente, disse que não sabia. Insistiram e virou coisa de Deus. Quando o negócio sossegou, Marquinhos pediu um lápis.

Falei não. Nunca mais empresto nada.



***


A Ordem das Fatalidades Pneumáticas

 

Nossa Ordem é meticulosa. Dos inscritos, uma média de 8% é aprovada na bateria de exames. Desses, 5,4% estão aptos a concorrer a alguma vaga de comando. Desses, 0% chega ao cargo máximo. A diretriz precede a própria Ordem: o grande mestre sempre é, sempre foi e sempre será o que muitos tomam como um ser onisciente, onipotente e onipresente, embora não passe de um cálculo impiedoso.

O termo técnico é “assassinos das câmaras pressurizadas veiculares”. Refutamos o termo popular “estouradores de pneu”, pois a simplificação nos reduz a arruaceiros descontrolados, servos de males aleatórios, quando na verdade somos treinados para agir em concordância com o destino, para operar neste mapa complexo colocado sobre ruas e rodovias e estradas e trilhas e pontes e florestas; onde quer que veículos veiculem. E somos preparados para “estourar o pneu”, como se fosse assim fácil, nos momentos mais propícios, de acordo com as leis cármicas de todos os envolvidos, do motorista ao carona aos eventuais azarados atravancados num congestionamento, ao ciclista que desvia pela calçada, ao pedestre que assiste o pobre coitado tirando estepe e chave de roda e triângulo do porta-malas e agradece por não estar na sua pele.

Nossa atuação consiste em navegar pelas vias transitáveis aproveitando nossas vantagens corpóreas: somos maleáveis, invisíveis e translúcidos; manipulamos a atração gravitacional; nosso movimento é tão fluido quanto o ar; sensores biológicos nos direcionam de uma tarefa a outra.

A Ordem é vinculada ao Ministério do Asfalto, ao Ministério das Ruas de Terra, ao Ministério dos Viadutos, Túneis e Pontes, ao Ministério das Balsas, ao Ministério das Vagas de Garagem e ao Ministério das Calçadas. Embora a burocracia seja críptica e assustadora, somos a organização extra-humana que mais acumula prêmios e atestados de eficiência na história catalogada, resultado conjunto de nossa preparadíssima equipe administrativa e dos agentes de campo.

Este depoimento foi originalmente concebido como propaganda para contratação de novo efetivo, uma vez que o número de câmaras pressurizadas no planeta só aumenta, mas um memorando do supervisor nos autorizou a escolher entre publicar o edital ou aumentar a atual carga de trabalho. Ficamos com a segunda opção, afinal, somos apaixonados pelo que fazemos. O índice de desistência no meio é 0%. O de insatisfação também é 0%. Os psicólogos do departamento de RH emitiram seu parecer há alguns dias: somos obcecados. Curta vida aos pneus.



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Da imensidão da terra

 

E a árvore, sensei?

Está aqui há incontáveis eras. Não há nenhuma outra árvore cuja largura do tronco supere a desta, nem mesmo os robustos pés plantados pelo imperador Chiui no bosque da primavera depois da morte do seu pai.

As raízes são enormes.

De fato. Elas se estendem em todas as direções antes de mergulhar no chão, e é possível notar onde voltam a buscar o sol na superfície. São lombadas que brotam com violência, não importa o que esteja no caminho. Há uma delas nos fundos do nosso templo. Há delas nos campos ao norte e no palácio, o piso aberto no dormitório dos serviçais. Há delas nas terras a oeste, entre as casas dos campesinos e no solar de um guerreiro. Há delas ao sul até as fronteiras do império e além, sedentas entre os milharais e os campos de trigo, dourando sob a bandeira fincada no término da última guerra. Há delas ao leste até o mar, e segundo as histórias dos antigos, quando ainda era possível ver parte da terra hoje banhada pela água, mais delas mar adentro.

Como é possível, sensei, que as raízes de uma única árvore se estendam por dias de viagem, vencendo qualquer obstáculo?

É um atestado da velhice e da sabedoria do mundo. Calcule os anos que leva qualquer árvore para nascer, vicejar e dar frutos, e calcule quantas vidas foram necessárias para que essas raízes chegassem onde chegaram. Imagine o quanto se retorceram e serpentearam sob nossos pés para contornar formações rochosas, para mergulhar sob leitos de água, para vencer a escassez sob as montanhas e beber no solo rico das florestas. É uma obstinação colossal, incomparável com a do homem em seus projetos miúdos, um marco plantado aqui em tempos esquecidos para evidenciar a força da natureza.

Ela dá frutos, sensei?

Muitos teorizam a esse respeito. Um botânico de um continente além-mar sugere que a árvore ainda não alcançou o estágio de maturação, e que eventualmente flores do tamanho de nuvens se abrirão e frutos gigantescos cairão no solo e arrasarão cidades. Outros já afirmaram que o estágio de maturação ocorreu há muito e vemos hoje seu lento declínio rumo à morte.

E o que o senhor acha?

Creio que o importante não é a resposta, mas as perguntas. As perguntas que ainda não fizemos, ou que esquecemos, ou que pensaram antes de nosso tempo e se esvaíram na fumaça do passado. Não sei dizer como, mas suspeito que o comportamento errático do segundo sol esteja relacionado a ela.
Falando em segundo sol, sensei, cuidado. Ele se aproxima. Aqui, embaixo dessa raiz, rápido.
No jardim, Joana busca a bola amarela chutada perto do cajueiro.

 

 


 

 

Livro: Algazarra

Autor: Santiago Santos

Gênero: Contos

Número de Páginas: 224

Formato: 14x21

Preço: R$ 40,00 + frete (Livro em pré-venda. Amigos e leitores que realizarem a compra antes do lançamento receberão o livro autografado após o evento. Imperdível!)