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Maria Fernanda Elias Maglio

MARIA FERNANDA ELIAS MAGLIO

 

 


Maria Fernanda Elias Maglio nasceu em Cajuru-SP e mora em São Paulo há dezoito anos. É defensora pública e atua na defesa das pessoas pobres que estão cumprindo pena. Sempre foi apaixonada por livros e há alguns anos vem inventando suas próprias histórias. Seu livro de contos foi finalista do Prêmio SESC de Literatura em 2016 e 2017.


 

 

 

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Conheça 3 contos do livro Enfim, imperatriz, de Maria Fernanda Elias Maglio:






enfim, imperatriz



Do meu útero todas as sementes escorregaram. A cada vez que ele se aliviava em mim, eu tinha crença de filho. Sete anos e eu infecunda. Médicos de Berlim, Dallas, Copenhague e Dublin me vasculharam. Fotografaram meu interior e me espantei que fosse tão turvo. Eu, de olhos cintilantes e boca de romã, em cuja cabeça aspergiram açúcar no dia do casamento, que era doce, que reluzia, me descobri oca. Dentro de mim só havia escuro. Sete anos de espera, clínicas e injeções. Ele me amava, decerto me amou até o fim. Pensava em mim quando se deitava sobre ela. Ela, cujo avesso foi claro e fecundo. Que pariu quatro filhos, o primeiro deles, homem. Herdeiro da dinastia persa.

Fui embora em uma terça-feira de fevereiro. Eu não era nada, se não podia ser mãe. Nunca voltei ao Irã. Expatriada da terra onde nasci. Eu tinha saudades das tâmaras açucaradas, dos mosaicos de azulejos das paredes, do ar lavado, cheirando a anis e cardamomo. Em todos os lugares do mundo onde estive me faltou oxigênio. Eu respirava chumbo. Ainda assim não voltei. Amei meu marido mais que a atmosfera pura, mais que a mim, que aos filhos que não tive nunca. Testemunhei as novas núpcias com o deleite clandestino de constatar a falta de exuberância da noiva. A beleza dela era a medida justa para se casar com o Xá. Nenhum milímetro a mais. Os olhos eram um par de contas embaçadas, escuros como o meu revés. Não era bonita. Era fértil. Não tinha olhos de esmeraldas, mas o canal que convergia para o útero era um caminho largo e incontroverso.

Todas as vezes em que eles vieram a Paris permaneci abrigada em meu apartamento. Recebi ordens de não me encontrar, nem por acaso, com meu marido e a esposa dele. Gostaria de vê-lo. Gostaria que ela me visse. Todos os dias desejei que ela visse meus olhos contornados de kajal. Pensava nela a cada vez que que pintava a boca de batom, que prendia no pescoço o colar de rubis indianos que meu marido, o marido que ela supunha ser dela, havia me dado. Eu respeitei toda prescrição de clausura. Banida não só do meu país, da cidade em que escolhi viver. Acatei a regra da distância mesmo na morte dele. Eu, viúva, ausente da cerimônia fúnebre de meu marido. Pela televisão assisti a imagem dele deitado no caixão. A cabeça vestida de coroa de ouro e topázios, a farda azul de veludo, a espada de prata trespassada na cintura. Ela vestia preto em fingimento de viuvez. Os cabelos puxados para trás evidenciavam a testa imensa e o pregueado da pele no contorno da boca. Confinada no meu desterro, coloquei meu vestido de casamento (quase trinta quilos de prata, pérolas e seda) e celebrei meu luto. Eu era a viúva. Não precisa de fantasia negra e rosto lacrimoso.

A morte dele pôs fim ao meu degredo. Para mim bastava. Meu marido estava morto. Não devia obediência a mais ninguém. Passei a vestir minhas melhores roupas. Paris havia sido a escolha dela. Um dia nos cruzaríamos. Olhando a vitrine de sapatos, assistindo a um concerto, a estreia de uma ópera. Ostentava minhas joias e esperava que ela reconhecesse o gosto do meu marido nos brincos de jade, no bracelete de águas marinhas, na gargantilha de diamantes e ametistas. Dois anos e o encontro não aconteceu. A enclausurada agora era ela. Precisava encontrá-la. As pedras preciosas, as sedas e a firmeza das minhas coxas não faziam sentido se eu não pudesse exibir. Eu precisava dela. Se ela não renunciava ao recolhimento, eu devassava o esconderijo dela.

Saí de casa em uma manhã de domingo. Era junho. No céu, nenhuma nuvem. Um táxi e uma caminhada de cinco minutos e eu estava em frente ao prédio em que ela morava. Nada da imponência de um palácio persa. Nenhum mármore rosado, estátuas de touros alados, tijolos esmaltados, tapeçarias de fios de prata. Durante quarenta minutos esperei na entrada do prédio. Bastava um morador chegar para franquear meu acesso. Uma senhora de lenço cobrindo os cabelos, carregando uma sacola de compras. Segurei a porta quando ela foi fechar. Talvez tenha sido a riqueza do meu colar ou a certeza da minha mão segurando a porta. Entrei com a velha. Ela no segundo andar, eu no quinto. Toquei a campainha com a impaciência da vingança urgente. A criada atendeu. A casa que se descortinou na porta meio aberta tinha o fastio de quem a habitava. Móveis de madeira escuríssima, um divã de veludo verde, meia dúzia de tulipas mergulhadas em vaso de cristal.

Fui entrando, enquanto a empregada me perguntava da parte de quem. Da minha própria parte. Não represento ninguém. Marido morto, filho nenhum. Eu, a única amostra da minha dinastia. Não fui convidada a sentar. Não me ofereceram chá de menta, nem nozes tostadas. A criada me seguia nervosa, enquanto eu tomava a direção dos quartos, me dizendo que eu não podia entrar ali, a senhora estava repousando. Pois é justamente o repouso da senhora que eu venho interromper. Sou eu quem preciso de descanso.

Ela estava deitada na cama com os olhos abertos. Eram nove horas da manhã. Não se espantou quando me viu. Ela me esperava. Sabia que eu invadiria seu covil de loba enlutada. Com um único movimento de mão acalmou a empregada, ordenando que franzisse as cortinas, saísse e fechasse a porta. A luz da manhã de verão devassou as imperfeições do rosto. O pregueado não era restrito ao redor da boca. Prolongava-se na testa, no contorno dos olhos, na pele do pescoço. Ela era um pedaço vincado de tecido ordinário. Um retalho amarrotado de gorgorão, algodão cru, juta. Eu era cetim. Meu escuro estava bem guardado na profundidade do meu útero. O dela esparramou pela pele.

Foi ela quem falou. Perguntou se eu gostaria de me sentar, me apontado a poltrona vermelha. Como se farejasse minhas digressões, olhou para o próprio colo e disse que o tempo era corrosivo. Contou dos ventos que esculpiam as falésias e roíam o chão. Das ondas que desgastavam as pedras e os morros. Geleiras dissolvidas pelo calor, cascalhos se amontoado nas beiras dos rios. Não em um dia só. Nunca em um só dia. Todo dia um pouco. E mais um pouco e mais e mais e mais. Até que não houvesse pedra, nem morro, nem solo, nem vento, nem mar. Até que não houvesse mundo. Conforme falava ia me mostrando as erosões que os dias e os meses e os filhos promoveram em seu corpo. Subiu a camisola até a altura da cabeça, revelando a barriga malhada de estrias roxas, os seios frouxos, as coxas despencadas. A visão do corpo dela em barrancos provocou alegria no meu. Eu quase falei. A frase já me queimava a boca, quando notei as mãos dela desenrolando a calcinha na descida das pernas. O sexo era enorme. Uma couraça escura e redonda, quase sem pelos. Com a cabeça, fez um movimento para eu me aproximar. Levantei-me da poltrona e contornei a cama até que estivesse de frente pra ela. Eu em pé. Ela deitada. Com o vagar de quem saboreia a detenção de um segredo, foi apartando um joelho do outro diante de mim. Dentro dela morava o sol. Da vagina esguichava um facho brilhante. As palavras, que instantes antes me formigavam os lábios, escaparam garganta abaixo. A luz que ela sonegava era minha. Era eu quem deveria guardá-la. Ela me roubou a claridade, o marido, os filhos, a coroa de imperatriz. Eu estava ali para buscar o que era meu. Não tinha tempo para falésias e geleiras. Não podia esperar a lentidão dos dias que varriam uma pedra de cada vez. Eu tinha a pressa do desmoronar. Eu não era vento. Era terremoto.

Ela estava encharcada do esperma dele. Vinte e um anos escarrando nela o que deveria ser jorrado em mim. Os filhos que a vida me saqueou estavam confinados naquele aquário de luz. Inclinei o corpo para frente, me abaixando um pouco para me aproximar. Ela levantou o quadril. Meu nariz quase tocava o sexo e eu podia sentir o hálito de amônia e sabonete. Ela tinha expectativa de toque. Queria que eu a tocasse. Com os dedos, a ponta da língua, com meu corpo de tecido passado a ferro. Eu toquei. Com o canto do indicador e a cautela de quem rela na brasa. Para meu espanto não fervia, a luz era morna. Ela se contraiu um pouco, em seguida se dilatando, como se corrigisse o espasmo, para que não houvesse dúvidas de que queria mais. Toquei de novo. Desta vez não com a ponta do dedo. Minha mão espalmada agarrou o sexo dela. Era um coração. Pulsava como um organismo vivo e autônomo. A vagina dela poderia sobreviver fora do corpo. Um ouriço solitário em uma fossa abissal. Enfiei a mão no buraco de onde vinha luz. A mão e metade do antebraço. Meu punho articulava dentro dela e ela sentia dor. Não me retirei dela, enquanto não encontrei o que procurava. Ela me comprimia o pescoço, enfiava as unhas na carne do meu rosto e me pedia para parar. O sangue escorria pelo meu braço enterrado. A porta continuava fechada. A criada não interveio. Decerto achou que a patroa se divertia. Eu me divertia. Quando arranquei minha mão, ela estava quase desfalecida. Um animal machucado demais para reagir. Minha pele estava pintada do sangue dela. Brilhava. Na pinça dos meu dedos eu segurava o que extirpei. Uma minúscula pedra luzente. Uma estrela quase microscópica. O buraco do sexo, alargado pela violência do meu braço, estava escuro. Eu tinha desligado a luz. Agora era minha. Talvez eu mandasse fazer um pingente, um anel, incrustasse a pedra em uma pulseira de prata. Quem sabe faria uma coroa? Uma belíssima coroa de ouro escovado, a pedra reluzindo no centro, enfeitada de diamantes, brilhando mais que os diamantes. Enfim, imperatriz.



***



Flor azul

 

O coração, trazia embalado à vácuo. A minha cara era cimento, argamassa sólida, rosto de concreto, que anda sem ver o musgo silencioso arrebentando o firme do chão para nascer. Eu nem enxergava o lodo nos esfolados das casas. O meu esforço de esquecer, me fez esquecer. Cimentar minha cara, nunca mais me lembrar do úmido do mato, da serrinha perto de casa coalhada de cupinzeiros gigantes, parecendo bicho pré-histórico.

A cidade me bastava. As gentes de dizeres bonitos, que deixam fora das frases deus-nossasenhora-jesuscristo, a salvo das conversas de chuva, de estio, de geada. Nem é assunto de cidade, esses teores do tempo. Ninguém se preocupando se verte água do céu ou se o sol torra o roçado. Ninguém. Eu, no arremedo das gentes de concreto, cimentei minha cara. Desejo de esquecer para sempre da minha natureza de semente, de que não nasci plástico, argamassa. De que fui broto guardado na terra, esperando o encharcar do chão para germinar. Que lá embaixo, no subterrâneo, o que se ouvia era só a lida da terra. O pelejar. As raízes se alongando no infinito na tentativa de um gole de água. As minhocas espichando os corpinhos anelados, sem buraco de olho, boca, sexo, ânus, um só orifício para todas as matérias.

Tantos anos tentando esquecer e eu me esqueci. As matérias esquecidas viram plástico, o deslembrar é plástico. Fino e mole. Que derrete com o fogo e arrebenta com a queda. A gente segue esquecendo. Súbito, a lembrança esquecida ilumina fluorescente. Material radiativo que é bonito e mata. Um tombo, um dia de caldeira e o plástico dissolve. A carne manifesta, rubra, inchada de sangue novo, esperançosa como um coração recém transplantado.

Num repente meu plástico rebentou para sempre. Uma baque e um meio dia de fogo. O que bastou. Rompeu sem perigo de remendo. Plástico derretido recua as beiradas, para que elas nunca mais se juntem, igual cratera de terremoto. Na dureza do chão, meus joelhos magoados pela rispidez da calçada, senti minha alma liberta da embalagem que a sufocava. Eu, semente há tanto brotada, vegetação estéril, com sede primitiva de chuva e de sol. Arregacei as mangas da blusa, ergui a saia na altura dos quadris. Eu tinha precisão de luz, tinha sede. No ridico do céu de estio que não mandava chuva, sai em busca de água. Foram quatro litros, bebidos nos gargalos das garrafas. Água que conheceu o subterrâneo do mundo, envasada em plástico que nunca foi vida.  Conforme bebia, chorava.

Em casa, meu filho veio a meu encontro. Estreitei o corpinho dele no meu e pude sentir o embrulho dele, ainda amolecido pelo breve existir. Ele era morno e úmido, como se ainda se lembrasse de que veio de barriga de carne, do escuro do debaixo da terra, onde tudo é mudez e pelejar de raízes. Tive pena do meu menino, domesticado para a ignorância, adestrado a cimentar a cara, no igual do mundo. Tive pena de mim, mãe de plástico, que ama porque dizem que é bom amar. Eu que me esqueci que o amor é premência, que se ama porque a vida não tem remédio. Apertei meu menino até que o calor do meu corpo recém derretido dissolvesse o plástico que embalava o dele. Afogado no meu abraço, o menino chorou.

Fui embora com o menino. Deixei tudo: a casa, as taças de cristal do casamento, os móveis laqueados, as roupas, o marido, que dormia o sono plastificado dos que não tem angústia. Peguei o menino e só. Nada mais era carne, tudo ali carecia de verdade.

O menino acordou quando a gente chegava. O carro passando pela estradinha de terra, o dia rebentando laranja, detrás da serrinha encaroçada, clarejando o bicho pré-histórico que ainda dormia, que dormia para sempre, desde sempre. O menino, no raso da sua idade, sabia que não era caso de falar. Só pediu água. Eu me alegrei. O coração dele devia bater desobrigado, sem a asfixia do embrulho.

A casa do meu pai era só desamparo. Casebre baldio, morada de deserção. As paredes rompidas em frestas, o telhado de folhas de flandres castigado pelas chuvas de tantos janeiros, pela brasa de todo domingo, de tanto dia santo, de toda quaresma. Sol que não gasta, não se põe, arde de dia e de noite arrefecendo a espera das gentes esperançosas.

Toda sorte de bicho fazendo a casa de morada. Morcegos recém nascidos, colados nas tetas das mães, baratas de couro rosado e asas cintilantes. Uma infinidade de cobras, enroladas umas nas outras, feito uma trama de palha em forma de cesto. Urutu, capitã do mato, coral verdadeira, pico-de-jaca. Mantas de teias de aranha envolvendo moscas, besouros, até um rato pequeno. Uma jaguatirica filhote, os olhos de candeia alumbrando a escuridão da casa fechada. Dois dias de luta com os bichos. Meu menino seguro em cima do cajá-manga. Eu na contenda com a natureza. A força ancestral de todas as coisas que brotam da terra, que comem da terra. A natureza vence porque carece de culpa, não sente culpa de nada. A gente segue culpado, culpando, desculpando. Desculpado nunca.

Espantei os bichos com uma fogueirinha na sala. O talhe em forma de roda ficou no chão de terra para sempre. Eu e o menino dormindo no canto onde dormiam as cobras. De móvel, só o sofá de palhinha limado pelas traças. Conservei por apego ao pai.

Atrás da casa fiz horta. Almeirão, couve, batata. Afora isso a gente comia as frutas que a terra dava, uma abastança de carambola, abiu, macaúba, jabuticaba do mato. Na pobreza da nossa dieta de ave, o menino nem crescia mais, ficou para sempre pequeno. Arfava quando andava, depois quase não andava. Tive tentação de médico, hospital, remédio. Resisti. Fervi carqueja, cavalinha, alecrim do campo, avenca. O menino, cada vez mais magro, cada vez mais amarelo, os olhos eram duas gemas aguadas, a pele adquiriu o tom mofado das coisas doentes. Uma noite me pediu um carneirinho. Queria abraçar, ser uma mãezinha de um bichinho sem mãe. A gente não tinha criação, tudo ali era bicho sem mando, natureza arisca. Fiz um carneirinho de chuchu, esculpi a cabeça com canivete, colei paina no corpinho e enfiei gravetos para fazer de patinhas. O menino cuidou do carneirinho. Com o dedo, desenhava minúsculos círculos na cabecinha dele, um dentro do outro. Com a boca colada onde seria a orelha, cantava música para o ouvido mouco do carneirinho, surdo para sempre, morto para sempre, cuja natureza de chuchu, o impedia de ter coração. Músculo que sofre e sangra, se retrai aflito e se alarga renovado de esperanças.

Tentando alvorecer a força do meu menino, falei da primavera que iria povoar de flores o manacá. Que as flores tinham o cheiro açucarado da natureza generosa e que para ver a primavera era preciso resistir à brasa do verão, às ventanias ensandecidas do outono e à água de gelo do riacho no inverno. Que viver era resistir. A vida é batalha de sangue. Gente morta, ferida, ventre aberto, barrigada pra fora. A vida é crueza.

A primavera arrebentou. O pessegueiro infestado de flores, a fileira de dorme-joão acordada, esperando um tocar de mão para dormir, gérberas laranjas, vermelhas, roxas. Meu menino era quase semente. Cada vez menor, cada vez mais quieto. Não carecia de saúde. Conservava a vitalidade das coisas da terra. Um tubérculo. Passava muitas horas com as pernas enterradas na horta. Pedia que eu regasse, entornasse o regador na cabeça dele. Quando chovia, deitava na terra com o umbigo olhando o céu que escarrava água. Não usava roupa. Deixava o corpinho queimar de sol e esfriar de relento. Nem enrolado comigo no lugar das cobras dormia mais. Ficava no sereno, vez em quando trepado no pé de cajá-manga. Os bichos não faziam caso dele. Passavam sem ver, como se meu menino, nascido gente, fosse bicho também. Não era. A natureza dele era vegetal. Ele tinha reclamar de subterrâneo, pretendia o profundo, o miolo do chão.

Perdeu os pés, as mãos, os cabelos. De primeiro as extremidades, as bordas do corpo. Depois abortou pernas, cotovelos. Amanheceu só coração. Um redondo de carne bem debaixo do manacá. Sacudia as florzinhas roxas que cobriam o chão, contraindo e dilatando, feito uma vagina em gozo. Aguei o tantinho que restou dele, um naco de músculo vermelho. Meu filho. Depois minguou, que nem lua que se apequena depois de muito se alargar. Do coração, restou só a cor. Meu menino tornado semente vermelho-sangue. Enterrei no chão macio da horta, bem no lugar onde ele costumava afundar as pernas. Não chorei. Não enterrava filho morto.

Dois invernos e eu imaginando ele na treva do solo, na teima do desabotoar. Meu coração emagrecia, no temor de que meu filho estivesse para sempre clandestino na vereda do subterrâneo. Estirou a cara para fora da terra em uma manhã de setembro. Um broto verde clarinho. Depois flor azul, dessas que nunca se vê em nenhum lugar. Coisa de estrangeiro, terra de contos de fadas. Não era azul cor de céu, de mar tão-pouco. Era azul da cor da pena das araras que faziam arruaça no pessegueiro. O miolo era bem vermelho. Memória do coração que amanheceu semente. Três luas, eu tive meu menino. Dormia do lado dele, cariciando as pétalas no devagar do dedo. Um fim de tarde, desmaiou. Pus água, cantei música, chorei lágrimas. Meu menino estava morto. Nem tempo de abelha ciscar teve. Polinizar meu filho na largueza do mundo.  Guardei comigo a flor. A tirania do tempo ressecou as pétalas. Conservou o azul das araras arruaceiras. O corpo do menino para sempre comigo, que nem bicho empalhado. Amor que se solidifica, coagula. Não morre nunca, não apodrece nunca. Flor seca. Morta para viver para sempre. Flor azul.




***




VIVA em Maputo
(Viva no Rio de Janeiro)


“Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu”


(Chico Buarque)

 

 

 

Eu frentista
Ela gasolineira

Eu preta
Ela preta

Eu favela
Ela caniço

Eu pobre
Ela pobre

Eu ônibus
Ela machimbombo

Eu violada
Ela violada

Eu Rio de Janeiro
Ela Maputo

Eu viva
Ela viva

Eu ela
Ela eu



A foto eu vi no posto de gasolina. O jornal de um dia que não era o hoje daquele dia, aberto para receber os pingos do diesel que vazava da bomba. A foto dela preta, os pingos pretos de um óleo preto, os olhos dela, que deviam ser pretos, estavam fechados de uma morte que era pra sempre. O vestido era vermelho. Não na foto. Na foto tudo era preto, cinza e branco. Era vermelho. Eu só sabia. Um seio esperneado pra fora do rasgo do decote. No seio cinza, um retângulo preto. O seio morto censurado. Da boca meio rachada descia uma baba. A boca estava morta também. No baixo do ventre, no território entre o umbigo e o sexo, um buraco. Um rasgo no vestido vermelho, expunha a carne vermelha, o vermelho do sangue, o vermelho da morte que ainda era recente. Não do hoje daquele dia. Do hoje daquela foto. Não se via o vermelho do vestido. Nem do sangue. Nem da morte. Na fotografia tudo era cinza. Como deve ser a morte limpa. Cinza e limpa. Morte de gente velha e caduca em cama de hospital. A morte do jornal era vermelha. E era eu. Não, eu não estava morta. Viva como toda a gente viva, fazendo bico de frentista no posto do Seu Leomar. Velho porco que mantinha na minha bunda os olhos, e às vezes as mãos. A foto estava morta. A foto era eu. A legenda contava, jovem estuprada e morta em Maputo. Não sabia o que era Maputo. Despreguei o jornal colado no chão pelo grude do diesel e dobrei pequeno, enfiando no sutiã. Nem me importei quando seu Leomar passou raspando o pau na minha barriga. Sempre os caminhos apertados. O pau duro fazendo relevo na calça jeans de cintura alta. A língua mascada no meio dos dentes. As mãos fedendo a cigarro, gasolina, dinheiro e punheta.

Li a notícia no ônibus, trepidando preta e pobre, com a gente toda preta e pobre, no trajeto Méier/Morro do Fubá. A notícia não dizia nada. Nada sobre mim e minha morte. Dizia que a morta tinha vinte e seis anos. Eu tinha vinte e seis anos. Que se chamava J. M. L. Eu era Joseli Maria de Lima. Foi estuprada e assassinada no posto de gasolina onde trabalhava. Maputo. Que porra era essa de Maputo?

Em casa, olhei a foto bem de pertinho com a luz do abajur quase encostando no jornal. Era eu. Até a mancha marrom que eu carregava no lábio. Tudo era cinza. A trama dos cabelos, o preto da pele, os olhos dormidos pra sempre, a boca, a mancha da boca, os dentes em ordem. Cinza. Mas eu via. O roxo dos lábios, o marrom da mancha, o escuro da pele, a nicotina amarela nos dentes em ordem. Era eu. Acendi um cigarro em pesar da minha morte e em louvor à minha vida. Estava morta em Maputo. Onde quer que fosse isso. Um pau gigante havia me arrebentado o ventre, esporreando sementes destinadas a morte no colo do meu útero.

Eu estava morta no instante em que ele gozou? O monstro? Primeiro me abriu a barriga com a lâmina da faca e depois empalou meu corpo morto? Ou gozou no meu útero vivo, jorrou esperma vivo nos meus óvulos vivos, prometendo descendentes da minha miséria? Torceu a faca na minha barriga no momento em que a genética dele se misturava com a minha (preta, pobre, frentista, mulher), abortando meu filho quase concebido? Se tivesse me deixado viva, se tivesse deixado vivo o quase filho, eu estaria estuprada pra sempre. Estuprada quando o filho dilatasse meu canal da vagina, me esfarrapasse as entranhas, no desespero de nascer. Como se o pai deixasse o estupro dormindo em mim, repousando em minha barriga, para que nove meses depois me violentasse de novo, por meio do filho. De dentro pra fora. Eu engordando do estupro e depois estuprada. O pai ensinando ao meu filho, seu filho, ainda no ventre, como se viola, dilacera, rasga, arrebenta. Outro cigarro. E eu olhando a foto. Se isso era o passado, eu deveria estar morta. Deveria estar soterrada em um lugar chamado Maputo, com os buracos da minha barriga e do meu sexo, ambos arrombados, lotados de terra e flor de defunto. Eu estava viva. Se não era passado, eu temia que fosse futuro. Que o destino sacana pudesse estar me designando barriga aberta e sexo transgredido. Se o monstro ainda não tinha me matado e empalado, eu matava e empalava o monstro.

Dia seguinte o seu Leomar. Todo o dia, o seu Leomar. O pau saliente na calça. As mãos de fumo, de porra, de nota dez. E eu preta. E eu viva. A mancha na boca. A mancha nos dentes. O macacão alagado de suor e gasolina. Pronta para entrar em combustão. Explodir tudo. Antes que o monstro me arrancasse os intestinos, rebentasse meu sexo, estourasse minhas tubas uterinas.

Ele veio. O dinheiro, o suor, a gasolina, o gozo, o cigarro. Eu fui.  A faca, a boca, os dentes, o sexo íntegro, a barriga fechada. A lâmina da faca atochada no ventre do porco. O porco guinchando, como guincha um porco na vizinhança da morte. O pau amolecendo. Na marra, na faca, na força. Ele morto. Eu viva. No Rio de Janeiro. No diabo de um lugar chamado Maputo. Eu viva pra sempre. De mancha na boca e amarelo nos dentes. Viva.  Sem filho no útero, sem terra, nem flor de defunto. Se eu estava viva, ela não estava morta. Poderia se levantar no sono cinza do jornal e desencardir o sangue do vestido vermelho. Viva em Maputo. Eu era ela. Ela era eu.

 


 

 

Livro: Enfim, imperatriz

Autor:
Maria Fernanda Elias Maglio

Gênero:
Contos

Número de Páginas:
150

Formato:
14x21

Preço:
R$ 40,00 + frete