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Ana Suy Sesarino Kuss

ANA SUY SESARINO KUSS

 

Ana Suy Sesarino Kuss, psicanalista e professora universitária. Doutoranda em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ, mestre em Psicologia pela UFPR, especialista em Psicologia Clínica - abordagem psicanalítica e graduada em Psicologia pela PUC-PR. Escreve semanalmente às segundas-feiras para o site Confraria dos Trouxas desde 2011. Autora do livro Amor, desejo e psicanálise (Ed. Juruá, 2015).

 

 

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Conheça 5 crônicas-poéticas do livro Não pise no meu vazio, de Ana Suy Sesarino Kuss:

 

 

SILÊNCIO

 

Quando me encaixo no silêncio que mora em mim sou tomada por uma vontade de não mais me mexer. Articulo palavras mudas que caem do lado de dentro de mim direto num abismo do qual retornam pequenas satisfações que me fazem produzir mais palavras mudas. Se eu torço pra palavra escorregar pela minha língua e cair no seu ouvido, torço à toa ou torço pouco. De novo a palavra desliza pro meu abismo e só sei disso porque a cada palavra caída uma pequena marca de uma satisfação esquisita se crava em mim. Não consigo sair desse estado sozinha. Às vezes dura alguns segundos, às vezes algumas semanas. É como um transe, que não deixa nenhuma marca e por isso me faz duvidar de que realmente aconteceu. Só saio disso quando alguém deixa a realidade tão intolerável que sou agressivamente convocada a interagir com ela. E aí tenho que me responsabilizar pelo tempo em que estive ausente de mim, o que me desgasta demasiadamente. É tão quentinho o laço que faço comigo, do qual ninguém mais participa... Mas me sou tão insuficiente.... Ao sair do meu estado pseudo-hipnótico não desejo mais retornar a ele. Mas se a realidade se estabiliza, lá estou eu de novo. Há algo de extremamente sedutor no silêncio. Talvez seja simplesmente a ausência de qualquer coisa. Tal como uma folha em branco contém em si todos os desenhos do mundo, tal como um pedaço de barro contém em si todas as esculturas do mundo, o silêncio carrega consigo todas as palavras do mundo. O silêncio é infinito, o dizer é tão limitado... Digo silêncios para dizer coisas opostas ao mesmo tempo sem me contradizer. Quando digo palavras minhas ambiguidades ficam escancaradas. Preciso me proteger de mim.

 

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CÓCEGAS

 

Sinto apenas cócegas por você. E aí digo que é amor. Cócegas são pequenas angústias. Ou grandes angústias, dependendo da intensidade. Cócegas são a denúncia de que não controlo o meu corpo, de que não controlo os meus movimentos, de que não controlo as minhas sensações.

O amor são apenas cócegas na alma. Por mais que eu saiba que você vai me tocar com uma intensidade que oscila entre leve e agressiva, acima do meu ossinho da bacia, morro de agoniazinhas. Grito como se não acreditasse que sou dona de mim. Faço escândalo como se eu não fosse preocupada com a imagem que passo para as pessoas ao meu redor. Te arranho como se eu não me importasse com o susto que te causo.

E acho que a minha parte que mais se aproxima de mim, é assim mesmo. Machuca, desdenha, escandaliza. A minha parte que mais se aproxima de mim me assusta.

E aí eu me visto em várias camadas, tal como uma cebola.

Me visto de palavras, sapatos, roupas minimamente da moda e de ideias politicamente corretas sobre a minha pessoa. E então acho que sou uma pessoa relativamente normal, relativamente equilibrada, relativamente educada, relativamente bem-adaptada, relativa-mente. Ah, como sou mentirosa!

No fundo sei que sou um poço de loucura, lutando avidamente para me disfarçar sem morrer. Porque se deixo de ser louca, deixo de me ser, e então morro. E se enlouqueço sem amarras, morro ainda assim.

A loucura mata, mas a normalidade mata ainda mais. Prefiro morrer de morte vivida do que morrer de morte morrida. Prefiro morrer de cócegas a morrer de uma angústia sem nome.

Ao menos nas cócegas, há alguém me tocando. (A angústia é a pura solidão)

Vocês sabem, é impossível que façamos cócegas em nós mesmos. As cócegas são a encarnação da falência dos livros de autoajuda. Tem coisas que simplesmente não se pode fazer sozinho. É impossível ser feliz sozinho. E se você for uma mulher, talvez seja ainda mais impossível.

Eu te cócegas, meu amor.

 

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DIVIDINDO O MEU CORPO

 

Eu achei que o amor ia passar, que depois de um tempo eu seria insensível a você. Vamos deixar a hipocrisia e o amor idealizado de lado, e admitir que muitas vezes, sou sim. Por vezes te olho e você não me diz nada, é só uma pessoa nesse mundo. Não te amo o tempo todo. De vez em quando, acontece ainda de eu te odiar (em silêncio, porque procuro te poupar da minha gangorra existencial). Aliás, muitas vezes eu te amo como nunca nenhuma mulher aguentou amar nesse mundo, e você nem tem notícias disso. Me arrebento de amor e de ódio por você, e você nem sabe. É que eu sei que se você me conhecesse mesmo, eu te seria insuportável. Forjo um certo equilíbrio nas minhas palavras, e eu sei que muitas vezes você acredita nelas. Forjo tão bem, que por vezes eu mesma acredito. Teve um dia dessa semana que eu me peguei insone. Não podia dormir porque o toque da sua pele na minha berrava nos meus ouvidos de um jeito irritante. Não sou dona de mim, é verdade, mas quando você me toca, eu desisto de me ser. E depois de duas décadas juntos você ainda tira o meu sono. Você tem noção do quão ridículo é isso? Me sinto encabulada de escrever isso, mas o faço porque me reconheço no seu olhar que, ao ler meus pedaços de verdade cuspidos em bilhetes que volta e meia deixo espalhados pela casa, balança a cabeça, me chama de louca e diz que não entende. Que bom que você não me entende, eu não suportaria dividir a minha vida e o meu corpo com alguém que me entendesse. É, amar é dividir o corpo com alguém. Enfim, meu amor por ti já passou e todos os dias sou visitada por um novo amor. As variações do amor parecem ser infinitas. Cada "te amo" fala de um amor que é único. Eu nunca repeti um "te amo". Sabe o "te amo" que eu te disse da última vez? Não existe mais.


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JOGO DE FRAQUEZAS

 

Para algumas pessoas, escrever é terapêutico, é um modo de extravasar em letras aquilo que se sente. Eu escrevo para sentir. Tenho uma tendência a morrer que me mata. E quando escrevo me sinto viva. Não enquanto escrevo, mas depois que escrevo. É como se eu cutucasse uma ferida em mim, como se eu ligasse algum botão que acende a vida. É que viver dói em mim. Escrevo por masoquismo e não por terapia. Quando não escrevo me sinto meio zumbi, quer dizer, não me sinto, e por isso estou zumbi. Escrevendo, viver dói. É como aquela sensação do dia seguinte ao começo da academia em que por via da dor, a gente descobre partes nossas, que sequer sabíamos que existia. Escrever é a minha musculação da alma. Quando escrevo descubro partes minhas – pela dor - que eu não sabia que existiam. Confundo dor com vida. Tudo aquilo que sinto pela primeira vez, chamo de dor. Mas nem tudo é dor. É como um bebê, que chora porque sente um incômodo que não sabe o que é, e descobre que é fome porque sua mãe lhe enfia o peito, vazando leite, goela abaixo. É como uma pré-adolescente, que descobre que seu paquera está a fim da sua amiga peituda. Dói. Dói porque não se sabe o que está acontecendo. É angústia. Não sei nomear. Nunca senti antes. Isso vai me matar. Mas aí passa. Sobrevivi. Sei que isso não mata. É um perigo descobrir que determinadas coisas não nos matam, por isso as pessoas que sofreram são perigosas. Elas se sabem fortes. Eu sofro de amor correspondido. Sei que disso não morro, mas nem por isso dói menos. É difícil ser amada de um jeito diferente do qual a gente ama. Suportar que o amor do outro por nós é diferente arranha o peito. Amar e ser amada é esbarrar nas próprias fraquezas numa parte do tempo e atropelar as fraquezas alheias noutra parte do tempo. O amor é uma conversa de fraquezas e de franquezas. Mas dizem que o amor é para os corajosos. Há que ter muita coragem pra entrar num jogo de fraquezas, onde quem perde é que ganha.

 

***

 

QUANDO ELE DORME

 

 

Quando ele me toca fico sabendo de coisas que não sei. Pela temperatura que sinto na pele dele, sei se a pele dele está ou não está interessada na minha. Há dias em que fazemos amor com cada pedaço nosso: barriga, sexo, intestinos, cabelos, baços, têmporas, fêmures, pescoços. Há dias em que a pele dele só sabe me esfriar. É quando ele está frio por dentro. Não se trata de ser carinhoso ou rude, mas de uma disposição para a vida. Quando ele gosta de viver, minha pele o deseja ardentemente e bebe do desejo dele de sair de dentro de si e se relacionar com o mundo. Quando ele não gosta de viver, pode até querer a junção da carne, pode até estar quente, pode até me despertar o desejo de conversar com ele pela palavra, mas jamais pelo corpo.
Mas quando ele dorme tudo se modifica. O desejo de estar junto se transforma em desejo de estar ainda mais junto, de me cobrir com a pele dele, de respirar com os pulmões dele, de sonhar com o inconsciente dele. Meu corpo acorda o desejando no instante em que ele dorme. Olho sua barriga subindo e descendo, escuto a vida passar silenciosamente pela respiração dele e por alguns barulhos que sua barriga faz e sou tomada por uma paz assustadora. Todo erro será perdoado quando ele estiver dormindo. O amor que tenho por ele, quando ele dorme, é assustador.

 

 


 

 

Livro: Não pise no meu vazio

Autor: Ana Suy Sesarino Kuss

Gênero: Crônicas poéticas

Número de Páginas: 150

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete