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Isadora Salazar

ISADORA SALAZAR

 

 

ISADORA SALAZAR ou ISADORA AVERTANO nasceu ISADORA OCTAVIA FREDERICA AUGUSTA AVERTANO-ROCHA, em Belém a 23 de maio de 1974, mas costuma dizer que é filha dos pés de jasmim da Ilha do Mosqueiro. Água de Mortas é seu romance de estreia e foi prêmio Bolsa de Criação Literária do MINC. Em 2017 publicou seu conto MENINO SANTO OU O GALO DO CÉU AZUL na Revista Digital MARINATAMBALO; É autora das cenas teatrais ARAPUCA e O EXERCÍCIO DO DIÁLOGO, dirigida e convidada por LORENNA MESQUITA e FABIO BRANDI TORRES para a leitura dramatizada dessas cenas pelo projeto DRAMA SESSION 2014, São Paulo/SP; Em 2009, foi Bolsa Funarte de Criação Literária, com o romance INVASÃO PRÊT-À-PORTER (inédito). Publicou O PARÁ FAZ MODA -- DE DENER ÀS PASSARELAS DO SÉCULO XXI, em coautoria com FELÍCIA ASSMAR MAIA, -- Editora Ideias & Letras, São Paulo, 2007; seu poema CANÇÃO DO PERDÃO foi musicado por Altino Pimenta e prensado pela SECULT/PA.



Contatos:

 

 

 

 

Conheça o texto de prefácio para o livro Água de mortas escrito por Manoel Herzog:



A voz da narradora desta novela, Marina, brilha numa constelação em franca expansão no universo literário: a dita Literatura Feminina. O momento crucial que o mundo vive, e particularmente o Brasil, acossado por uma justiça corrupta e serviçal do capitalismo, fez com que o movimento feminista experimentasse desde 1968 seu momento mais fulgurante, e a Literatura, a exemplo dos demais meios de expressão artística da Humanidade, registra isso.

Água de Mortas é escrita a partir de um lugar de fala muito peculiar, o da mulher envolvida, a contragosto, no esquema patriarcal, aqui representado por um judiciário venal de um ambiente rural embrutecido. Marina, mar, Maria, princípio feminino, é subjugada por essa força incontornável, mas rebela-se e causa a erosão de todo o sistema. Dr. Prado, o pai freudiano, que tem um envolvimento pra lá de incestuoso com a filha, a mãe, Dona Rosa, expressão de um feminino que compactua com o machismo secular, o desembargador a quem Marina serve num escritório, o marido corrupto que manipula o judiciário através do capital e, por fim, o amante, que na resolução do enlace, se torna, de menino pobre e negro e excluído, um policial ao melhor estilo Laranja Mecânica. Ou seja, um Estado kafkiano onde o jurídico e o policial compõe esta equação cruel que domina o Brasil desde o descobrimento, ou desde o início do romance nacional, com as memórias daquele sargento de milícias que, filho de oficial de justiça, gozava de qualquer prerrogativa mas, apesar de partícipe do judiciário se vê na mão do policialesco representado pelo Vidigal.

O universo de Marina é como a maré de mortas, maré vermelha, um caldo de algas apodrecidas, de mangue, onde a morte exala seu odor mais deletério. É uma espécie de mênstruo caudal, negro e fétido, como o lamaçal sobre o qual as palafitas da pobreza se erguem. Marina vai lá, presencia um crime, negaceia, cala, cede e por fim denuncia: cospe no sistema e, se sucumbe ao fim de tudo, o faz fertilizada pela dor e a delícia de ser o que é. Metáfora do que ocorre em nível federal no presente momento, Água de Mortas nos aponta, com sua escritura singular, da escola das escritoras que aprimoram o caminho pavimentado por Hilda Hilst, que a salvação contra a falência deste Brasil machista, escravagista, latifundiário e branco talvez esteja no poder da mulher.

 

 

 


 

 

Conheça alguns trechos do romance Água de mortas, de Isadora Salazar:








O EPÍLOGO DE MARINA


São raízes retorcidas os caminhos de mangue que me levam até essa maré.
Ex-voto,
Aguardo Benício.






CAPÍTULO I
LANÇOS




I


Nasci assim, água de mortas. Dona Rosa, minha babá de tantos anos, bem me advertiu isso no dia do meu noivado com Amir. E justo ela, dona Rosa, justo ela que fechou sua janela para a luz do foco da lanterna de Benício.  E Benício, esse sim, minha lanterna.
Afogados.
Nasci assim. Água de mortas, essa maré. Dona Rosa bem me advertiu isso — porta do meu banheiro adentro, no dia do meu noivado com Amir. Benício mimetizado no meu quarto aquela tarde. Maquiagem desfeita pelo segredo recém interrompido — paredes de espelho de policial barato.
Pouco importa.  
Fodo com Amir, meu noivo de diamantes duplos, mas faço amor com Benício. Fodo com Amir regularmente. Três vezes por semana como convém a uma boa noiva cristã. Gozo pouquíssimo. Exatamente como convém a uma boa noiva cristã de um noivo muçulmano.
Aguardo.
Daqui a poucos dias serei outra. E como outra, mal torcer para que as sacanagens jurídicas comprovadas aqui sejam conhecidas pelos sapientes corregedores desse tempo.   
Três vezes por semana? Pergunta-me Benício puto de ciúmes.
Pouco importa.
Pau dentro.  


***


II

Encaro São João da Ponta como se fosse Paris.
Pego um ônibus na rodoviária — há muito descobri a importância de comprar passagem na janela do intermunicipal. Não tenho carro. Jamais o tive. Quando necessário, um grande evento ou almoço com as amigas da minha mãe, encaro um aluguel e posso usá-lo por mais um tempo ou dois. Assim, vestida de sonhos, circulo nas tardes de chá e compras com minhas amigas de faculdade. Nessas tardes, e para os blindados que adornam minha garagem, uso o cartão de crédito de Amir e conquisto meu status de fachada.
Benício toma banho. Farda de sargento da PM suada perto da bica do jardim.
Quando menina, passeávamos na praça e cheirávamos a churros de doce de leite aguado ou a pizza mista com suco de bacuri azedo. Hoje, Benício toma banho e cheira a perfume de catálogo, escapamento de moto e vela de citronela das noites de concurseiro no pátio sem luz da casa de meus pais em São João da Ponta. Pouco importa: fodo com o cheiro do homem, gozo com a porrada que levo e o amo em seguida. Amo Benício. E, quando menina, passeávamos na praça e cheirávamos a churros de doce de leite aguado ou a pizza mista servida com suco de bacuri azedo. E éramos felizes.
Hoje dona Rosa teme o filho — Benício não é para ti, menina. Em Belém, olho os degraus desgastados de antiga pompa das escadarias do casarão da minha família e sigo em frente. Sei exatamente o que dona Rosa quer dizer. Desço princesa. Aliança no dedo, acompanho Amir, meu noivo, a mais um casamento de mentiras.


***



III


O carro estacionado a nossa frente arrancou um grunhido de freios contrafeitos à hora do abandono.
Agora, os amigos de Benício se riam já ao longe das pilhas de latas de cerveja vazias que deixaram próximas a nós.
Agora, os amigos de Benício se riam, margeavam a orla, corriam no cantar de seus pneus vazios e viviam ainda sob a crosta de escuridão que os perseguia.
(Seu Abildenor, o padrasto de Benício, próximo demais que estava da antiga arrebentação do rio, também).  
Com eles, sumiu-se a noite. Comigo, ficou o dia.

[...]

 

 


 

 

 

Livro: Água de mortas

Autor: Isadora Salazar

Gênero: Romance

Número de Páginas: 100

Formato: 14x21

Preço: R$ 40,00 + frete