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Antonio Pokrywiecki

ANTONIO POKRYWIECKI

 

 

Antonio Pokrywiecki nasceu em Joinville, Santa Catarina. Tua roupa em outros quartos é sua estreia na literatura.



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Livro: Tua roupa em outros quartos

Autor: Antonio Pokrywiecki

Gênero: Novela

Número de Páginas: 120

Formato: 14x21

Preço: R$ 40,00 + frete (Livro em pré-venda, entrega após o lançamento. Amigos e leitores de todo o país que realizarem a compra antes do lançamento receberão o exemplar autografado após o evento. Imperdível!)

 














Conheça o texto de orelha do livro Tua roupa em outros quartos, de Antonio Pokrywiecki:

 



Tua roupa em outros quartos é um romance sobre distâncias, trânsitos e caminhos que os afetos atravessam para continuar existindo, se transformar ou por fim acabar mesmo. Com o mar entre o Brasil e Portugal, as memórias do narrador vão se formando através de descrições melancólicas, desencontros tensos e diálogos tão oceanicamente turvos como todas as relações familiares.

Aqui, praticamente cada capítulo representa uma travessia: a formatura se junta ao retorno ao Brasil, depois de uma temporada em Portugal, para mostrar que as fases da vida passam com a mesma velocidade das certezas que o narrador tem de suas decisões. Como todos somos mais ou menos assim, o livro parece muito próximo do leitor, construindo uma intimidade típica da literatura portuguesa. Antonio Pokrywiecki é brasileiro, mas tem evidentemente mais que um pé na terra de José Luiz Peixoto e Inês Pedrosa, dois autores que parecem influenciar o atrito lírico que move as páginas de Tua roupa em outros quartos.

O leitor vai perceber que se debruçar em um romance como esse não é apenas atravessar uma boa história. A névoa que escapa no final do livro mostra que se as imagens se formaram com tanta dificuldade, vieram para ficar. Na nossa literatura e na vida das personagens...


Ricardo Lísias



***


Conheça os dois primeiros capítulos do livro Tua roupa em outros quartos, de Antonio Pokrywiecki:


Capítulo 1

 

Os últimos cinco quilômetros são os mais demorados de toda a viagem. As placas contam de trás para frente. É como se eu pudesse ver a mãe torcendo a coluna no banco dianteiro do carro, me puxando o pé para que acordasse e visse o mar surgindo por trás da vegetação. Óculos maiores que o rosto se apoiavam em seu nariz de suíno, enquanto dizia Nando, acorda. Já passamos pelo túnel, ó lá o mar. Lembro também de ter cruzado os braços e fincado o queixo no peito, com as bochechas infladas e a testa franzida. Levou um tempo até que ela percebesse e me perguntasse o que houve. Respondi que queria ter visto o túnel, e ela deu risada, enquanto o pai balançava a cabeça com irritação, as duas mãos coladas no volante. A mãe disse que estava tudo bem, me acordaria para ver o túnel na volta, quando competiríamos para ver quem aguentava mais tempo sem respirar.

O carro desliza por toda a extensão do túnel. Seguro a respiração até chegar ao fim, liberando tudo de uma só vez. Naquela manhã fez sol. De cima do morro, era possível ver toda a extensão da praia e o mar de um azul vivo. Hoje faz noite e a única coisa que se vê são as tartaruguinhas amarelas na borda da rodovia, vindo na minha direção em alta velocidade. Abaixo o vidro, sinto o cheiro do mar. O carro do vô, uma caminhonete branca, é consideravelmente mais alto e mais largo que o Peugeot dos meus pais. Estimo que também custe muito mais, embora meu conhecimento automobilístico seja restrito a eventuais revistas de salas de espera em clínicas médicas. Suas dimensões inibem meus movimentos na direção, e tenho a sensação de estar conduzindo uma máquina da morte. Em compensação, as rodovias federais de Santa Catarina são consideravelmente mais amplas que as ruelas do Porto, onde rodei meus primeiros quilômetros. Meu assento está levemente desajustado, e meus olhos pesam. A bebida no sangue combate minha insegurança, a ansiedade anula o sono.  Sinto que aprendi a dirigir roendo unhas.

A mãe me chacoalhava a perna e o pai dirigia, apesar das inconstantes, porém imprevisíveis, crises de pânico que lhe acometiam. O pai não deixava a mãe dirigir nunca, por isso eram raras as vezes em que socávamos nossas roupas em uma mala individual e viajávamos aonde quer que fosse. Neste verão, o de noventa e sete, estávamos indo para Itapema, onde passaríamos as férias de verão no apartamento do vô, a uma quadra e meia de distância da praia. O Gol verde dos meus tios nos seguiam no nosso encalço, com Bruno, meu primo mais novo, jogando minigame no banco traseiro. Eu e ele éramos razoavelmente compatíveis, levando em conta os dois anos de diferença. De última hora, faltou espaço no carro dos meus tios, fazendo com que o Super Nintendo do Bruno não pudesse vir à praia conosco, o que fez com que nossas férias fossem reduzidas a tevê aberta, jogos de tabuleiro e banhos de mar. Os jogos de tabuleiro não eram tão interessantes de se jogar com o Bruno porque, aos cinco anos, ele tinha alguma dificuldade em assimilar e respeitar as regras do jogo. Ainda que com uma percepção mínima dos mecanismos, Bruno se saía surpreendentemente bem, o que me deixava ainda mais frustrado. Na praia, por sua vez, Bruno logo sentia frio, saía da água e se enrolava em uma toalha de banho para se aquecer. Por isso, eu costumava brincar sozinho a maior parte do tempo, na ponta dos pés para poder ir um pouco mais para o fundo sem infringir a lei mais importante da praia e que meu pai insistia em repetir: água no umbigo, sinal de perigo. No entanto, meu pai ou meu tio também entravam na água algumas vezes, fazendo com que os parâmetros umbilicais, em consequência, se elevassem.

Tomo a marginal e subo até um viaduto de paredes decoradas com grafites encomendados pela própria prefeitura. Bela merda, eu penso, antes de virar à esquerda. Bem-vindo ao município de Itapema, dizem as letras brancas de uma placa azul cravada no chão. Chego à Avenida Nereu Ramos e começo a buscar pelo endereço. Há mais trânsito na cidade que na BR, apesar da madrugada. Itapema é como qualquer cidade média de Santa Catarina, nem parece praia. Prédios altos cercam o mar, enquanto as ruas estão apinhadas de carros guiados por gente bêbada. É alta temporada, e nas calçadas barzinhos e restaurantes disputam o dinheiro dos turistas com camisetas que dizem amar Santa Catarina e cerveja.
Meu senso de localização demora a responder aos estímulos da cidade, e não sei ao certo onde estou, e também não sei aonde vou. 254 é a rua. Por mais que a informação seja bastante exata, dobro a esquina errada e entro na contramão. Por sorte, não vem ninguém no sentido contrário. Preciso contornar a quadra, para daí então acertar a rua do apartamento. É o terceiro edifício da rua, a partir da Nereu Ramos, avenida paralela ao mar. Busco no porta-luvas o controle que aciona o portão elétrico da garagem, fazendo com que o mesmo suba e se deite suspenso. Estaciono o carro, bato a porta e caminho até a recepção do prédio.

A primeira decepção que tive naquelas férias foi o nome do prédio, inscrito em uma pedra no jardim em frente à entrada principal. Se o apartamento era do vô, por que se chamava Edifício Helena? Por que não Edifício Orlando? A segunda decepção veio quando minha mãe perguntou o que eu estava fazendo na hora em que apertei no botão doze do elevador, pressionando o sete logo em seguida. Disse a ela que queria ficar no andar mais alto de todos. Bruno e eu passamos a semana imaginando como seria olhar as pessoas lá de cima, os carros, as bicicletas. Como seria divertido quando a chuva começasse a cair no fim da tarde e os pedestres buscassem abrigo em toldos, guarda-chuvas, sacolas plásticas, cadeiras de praia ou nas próprias mãos. A mãe disse que a gente não podia ficar no doze porque o apartamento do vô era no sete. O apartamento era dele, mas o prédio não. O prédio era de várias pessoas. Algumas delas moravam no um, outras no dois, outras no doze e o vô no sete. A pedra continua no mesmo lugar.

Dou boa noite ao guarda da recepção, desconfiado de mim por chegar a uma hora dessas. Sou neto do Orlando, digo a ele, que resmunga e volta a se acomodar na cadeira de couro sintético. Aperto o botão desgastado do elevador, até a luz vermelha acender. Aguardo, a porta se abre e eu entro. Um, dois, três, quatro, cinco, seis e sete. O elevador para, espera um segundo e abre para uma parede cor de leite da metade para cima e verde escuro da metade para baixo. Ouço a porta se fechar às minhas costas e procuro pelo molho de chaves em meus bolsos. Antes de inserir a primeira na fenda da porta, penso se realmente quero fazer isso. Giro a chave de cima e logo depois a de baixo, cujo cilindro se assemelha a um projétil, e que faz mais barulho que a anterior. Respiro fundo e abro a porta do apartamento.




Capítulo 2



Trancado no meu quarto, com as cortinas fechadas e o ventilador virado em minha direção em sua terceira - e máxima - potência, a tarde se arrasta com um tédio dominical. Leio uma passagem de um livrinho em que um italiano perde 50 mil liras, vai até um bar, pede uma bebida e quase não toca nela. Vai até um café, pede por uma acqua minerale e a deixa esquentar. Tira um bloquinho de papel do bolso do terno e com um lápis desenha uma flor. A vibração do celular sobre o criado-mudo de madeira ao lado da cama me interrompe. É o Leonardo, meu único amigo no Porto. Ô, velho, tá afim de um rolê. Meio que pergunta, meio que afirma. Respondo que sim, e o Leonardo diz que daqui a pouco está saindo para um evento da Faculdade de Belas Artes. O Gallini vai tocar lá, mano, bora.

Conheci Leonardo durante uma partida de pebolim, dois anos antes, em um bar coimbrense. O bar ficava no meio de um morrinho íngreme e arborizado, nas proximidades da Praça da República. Era uma construção de três andares, uma residência antiga transformada em casa noturna. No andar de baixo, um piano desafinado decorava o primeiro cômodo. No segundo andar, uma garota de cabelos curtos e um piercing brilhante no nariz se preparava para discotecar. No piso mais alto, quatro portugueses disputavam, em duplas, uma partida de pebolim. Eu trazia na mão uma garrafa de cerveja, e Leonardo, com as costas escoradas na janela, chacoalhava as pedrinhas de gelo de uma dose whisky. Reconheci seu rosto dos corredores da universidade, e trocamos um cumprimento de cabeça.

Dois dos portugueses, um de cada dupla, desistiram de jogar, fazendo com que os outros dois ficassem olhando para os lados, timidamente procurando novos parceiros. Me aproximei da mesa, fiz sinal para Leonardo e ele ergueu os ombros como quem diz por que não? Brasil contra Portugal. Leonardo detestava futebol. Em outra ocasião, me contou sobre uma fratura no joelho, herança da infância no sítio do vô, em Jundiaí, que o impedia de praticar uma porção de esportes, entre eles, o futebol. A alienação em incontáveis conversas e as constantes provocações questionando sua masculinidade no decorrer da adolescência criaram uma barreira insuperável entre Leonardo e o esporte.
De qualquer forma, o jogo ainda representava uma chance de vingança histórica. Um modesto revide na casa dos portugueses. A chance de impedir que rissem da gente, mais uma vez. Leonardo cochichou que não sabia jogar, e eu assumi a defesa, para evitar que cometêssemos erros na parte defensiva e, consequentemente, sofrêssemos gols desnecessários. Leonardo, por sua vez, ficou responsável pelos jogadores do meio e do ataque. Um dos portugueses soltou a bolinha, que fez tec tec no centro do campo de madeira. Leonardo girou a manopla com toda força, fazendo com que os jogadorezinhos de meio virassem saltos mortais sincronizados. A cena se repetiu durante todo o jogo. Eu mantinha o equilíbrio na parte de trás e arriscava chutes da defesa. Alguns desviavam em jogadores manipulados por Leonardo e entravam nas canaletas da mesa, provocando comemorações efusivas da parte dele. No fim, ganhamos por cinco a três e saímos sem nos despedir dos anfitriões.

Disse meu nome ao Leonardo e ele me disse o seu. Bebemos mais um pouco e Leonardo tocou melodias improvisadas no piano desafinado do andar inferior. Trocamos nossos números e nos despedimos. Após alguns meses, Leonardo se mudou para o Porto. Me mudei também, um tempo depois.
Troco de roupas, penteio o cabelo e me dirijo até a estação. Um homem dorme ao meu lado, abraçando um jornal, e um velho anda de um canto a outro da plataforma, beliscando um pacote de amendoins salgados, quando o metrô abre suas portas e o Leonardo sai lá de dentro. Nos abraçamos de lado e pergunto como ele está. Ele responde que tudo certo, tira um maço de cigarros da camiseta por debaixo da camisa xadrez vermelha e preta e me oferece um. Faço que não, com o dedo. Ele acende o cigarro enquanto subimos as escadas rolantes até o piso superior da estação da Trindade. Caminhamos até o fim do corredor, e o Leonardo reclama da quantidade de moedas que carrega no bolso. Tudo troco do metrô, essa bosta. Ouvimos o trem se aproximando, por isso Leonardo dá uma tragada mais forte no cigarro e desce as escadas para a linha verde tossindo como um cão. Aceleramos, e eu desvio de uma senhora que varre as escadas, degrau por degrau, e entramos no vagão sem validar nossas passagens, segundos antes da porta se fechar e o trem dar a partida.

Desvio o olhar do mapa do metrô, estampado sobre a porta do vagão por receio de que o indiano pense que estou lhe encarando. Leonardo é um fumante compulsivo e experiente. O cheiro de tabaco que empesteia o vagão é todo dele. Quando não fuma, tem o hábito de coçar o queixo e massagear o pescoço. Não conversamos até o fim do trajeto, quando descemos na estação 24 de Agosto. A Rua Morgado de Mateus passa por reformas, criando grandes vãos arenosos no asfalto que nos obrigam a caminhar com maior cautela pela calçada, para não cair em nenhum buraco, e para não sujarmos nossos sapatos. Caminhamos por três ou quatro quadras até alcançarmos a Visconde. Quase faz calor. Desviamos do caminho propositalmente, e vamos até o mercado, a duas quadras de distância. Passo um vinho do Porto no caixa, mas é o Leonardo quem dá o dinheiro.

Por baixo de uma grande porta de madeira, entramos no pátio da Universidade. Provavelmente, somos as únicas pessoas que trazem o que beber. A maior parte decide por comprar na hora, com os estudantes que oferecem, além da bebida, maconha e cocaína em uma banquinha formada com carteiras escolares onde repousam um isopor, garrafas de refrigerante, e caixinhas repletas de salgadinhos de frango, carne e também vegetarianos. Os melhores lugares do gramadinho da Universidade, onde havia grama e não se tinha que se sentar diretamente no barro, já estão ocupados. Leonardo e eu esperamos alguns minutos de pé. Encosto meu ombro contra a parede do lado de fora do auditório, enquanto ele se mantém sem apoio algum. Um palco é improvisado junto a uma parede de cimento que espeta, e amplificadores diversos rodeiam uma cadeira escolar onde repousa, imprudentemente, o violão Hofner do Gallini. Com a camisa xadrez sobre o ombro, Leonardo acende um novo cigarro. Decidimos por nos sentar mais próximos do palco.
Então a vejo pela primeira vez, e eu não sei bem o que fazer com as mãos. Estou sentado, protegido do sol pela copa de uma ou duas árvores. Mais adiante, ela apoia os cotovelos e o peso do dorso sobre as pernas dobradas. Cruzo os braços. Gallini traz na mão uma máscara de galinha e no ombro uma mochila. Leonardo o cumprimenta com entusiasmo, e eu aperto sua mão sem me levantar. O reflexo nos óculos escuros que ela leva no rosto não me permite saber para onde olha. Meus olhos estão grudados nela, talvez tenha percebido. O clipe ficou muito fixe, o Leonardo diz ao Gallini. Incrível a parte da cabra. Se a meia-roda de amigos em que a garota se encontra fosse um relógio, ela marcaria duas horas. Conversam, mas ela é quem menos fala. O vestido amarelo vem até a coxa, e um passarinho azul voa estático em seu ombro esquerdo.

Foda-se, os gajos não vêm, o Gallini diz após uma olhada no celular. Terá de tocar sozinho, por isso dá um longo gole no vinho e se apressa em direção ao palco. Saca da mochila um suporte de gaita de boca e um chocalho de pé. Ajusta o chocalho em volta da perna direita, acopla a gaita no suporte e o regula sobre os ombros. Sentando na cadeira ao centro do palco, rodeado por amplificadores, guitarras e teclados, improvisa acordes e aquece a voz. É quase fim de tarde e, se desvio os olhos dela, é para disfarçar minha afetação. Leonardo fala sobre os exames da faculdade, que acontecem na próxima semana, e eu respondo no modo automático. Um rapaz se senta ao lado da garota e lhe oferece um gole da cerveja que segura pelo pescoço. Agora, se a meia-roda de amigos fosse um relógio, ela marcaria duas horas, e ele três.

Meu semblante não disfarça o embaraço. Abraço meus joelhos e invisto o olhar a outros cantos, buscando outros rostos, ou simplesmente para demonstrar indiferença. Leonardo continua falando embora eu já não preste atenção alguma. Gallini dá três batidinhas com a palheta nas cordas mais graves e dá boa noite a todos. Com o chacoalho dos pés, marca a batida e brande o violão, alternando em três acordes simples. A máscara de galinha o faz parecer um idiota, ainda que na música isso não seja, necessariamente, algo lamentável. Leva a boca à gaita e franze o cenho, ao mesmo tempo em que ergue uma das sobrancelhas. O passarinho azul que voava no ombro da menina some por debaixo da jaqueta jeans que agora cobre seu vestido amarelo. Leonardo saca um novo cigarro do bolso da camisa, leva-o até a boca e tenta cantar enquanto acende. Digo que vou ao banheiro, e me levanto pedindo desculpas com as mãos a quem tenta assistir ao show atrás de mim.

Desço as escadas sem pressa e mijo sem vontade na calha de metal. Fecho o zíper, arrumo o cabelo no banheiro e volto ao gramadinho. Nosso lugar foi tomado por outros estudantes, e Leonardo está sentado junto ao grupo da menina. Se a meia-roda de amigos fosse um relógio, ela marcaria duas horas, o rapaz ao seu lado, por sua vez, seria o marcador das três. Ainda há uma garota às oito, um rapaz às dez, e também um casalzinho, desses que deixam qualquer pessoa minimamente sensível deprimida, devido ao quão bem esteticamente representados eles estão, o que envolve não somente a aparência física, ou o estado das roupas. Está mais relacionado à leitura que o modo como se vestem e se parecem, o desenho da barba dele, a franja negra bem retinha na testa dela, o modelo dos seus sapatos, e os óculos de grau sobre o nariz da moça, permite que se faça deles. Estes dois, que se chamavam Nina e Lauro, e se abraçam ao meio-dia, ou à meia-noite, quase uma hora, ela com a cabeça apoiada sobre o ombro dele. Leonardo às sete, eu às cinco. Eu digo olá, e sou apresentado pelo Leonardo. Esse é o meu amigo Fernando, mas podem chamar de Nando.

Margarida, é o nome dela. Margarida e Rui. Rui é o filho da puta que trouxe pelo pescoço uma cerveja suada, sentou-se ao lado da Margarida e lhe ofereceu um gole. Margarida, que havia acabado de guardar seu passarinho azul gravado na pele pra dentro da jaqueta jeans, aceitou e virou a garrafa contra a própria boca, contraindo os músculos de sua garganta magra. Encontro dificuldades para me incluir no grupo, que também não demonstra fazer grande questão em interagir comigo. Respeitam o Leonardo por ser amigo de Lauro. Já eu sou o Fernando, amigo brasileiro do Leonardo, amigo brasileiro do Lauro, português e namorado da Nina.

Não sei bem o que fazer com as mãos, então dobro os joelhos e agarro o peito dos pés, trazendo os calcanhares até a parte de trás das coxas. A pele da Margarida é um tanto amarelada, como da grande maioria das portuguesas, e sua alpargata está suja de tinta. Rui também fala pouco, e dedica a maior parte do seu tempo e esforço à cerveja. Viro mais um gole de vinho do Porto e começo a me sentir um pouco tonto, a língua embola na boca e os olhos ficam pesados. Ao fim da segunda música, Gallini toma um copo de água, tira a máscara de galinha rapidamente, colocando-a de volta logo após utilizar o antebraço para secar a testa, e reajusta o chocalho da perna, que se soltou durante a apresentação. Seu cabelo está bagunçado e a correia do violão emaranha sua camiseta.

Leonardo traga o quinto, ou sexto, cigarro da tarde. Está de pé, ao meu lado, conversando com um francês. Rui se levanta para flertar com outra garota e não volta mais. Os óculos escuros de Margarida agora repousam sobre a gola de sua blusa. Eu e ela estamos relativamente sozinhos. Lauro e Nina, assim como a menina das oito horas e o cara das dez, são irrelevantes neste contexto, uma vez que ninguém puxa assunto com a menina. É bastante provável que este seja o grau máximo de privacidade que teremos até o fim da noite. Balanço a cabeça ao ritmo da música. Ela repete e bate os pés de leve no chão. Eu danço meio que por gostar da música, meio que para me ocupar de algo. O caminho está aberto, a garota está ali, sozinha, abraçando os joelhos e curtindo um som, e eu não faço a menor ideia do que dizer a ela.

Pergunto se posso me sentar ao seu lado. Estou com a bunda no barro, e uso isso como pretexto para dividirmos o pedaço de papelão que ela havia trazido. De todas abordagens que idealizei, escolho a pior, a menos convincente, a mais pretensiosa, falsa, esquisita. Tudo bem, claro!, ela responde, abrindo espaço para que eu me aproxime. Eu me levanto, e dou uma olhadela no Leonardo, que devolve um sorrisinho de quem entende tudo que está se passando. Com alguns tapinhas, retiro o excesso de barro que se acumula na parte de trás da calça e me sento ao seu lado.

Alguns minutos se passam sem que ninguém diga nada. Estendo a mão com a garrafa de vinho em sua direção e ela aceita. Estou imitando tudo que o Rui fez. Agora ele está lá, flertando com outras garotas. Entre todas as alternativas de aproximação e flerte, opto pelas mais previsíveis. Seu perfume lembra o cheiro do hidratante que a minha avó passava em minha cabeça antes de cortar meus cabelos, quando era criança, mas não digo isso a ela. Também não comento a respeito da tatuagem, com medo que perceba que prestei tanta atenção nela, e também não menciono a tinta em seus sapatos.

Tomo coragem e estufo o peito. Olho para o céu e permito que o ar escape dos meus pulmões. Repito o ritual, inflo meu peito com a boca, seguro e digo a primeira coisa que vem à cabeça, como se não tivesse planejado a fala trinta vezes em minha mente. Estudas aqui?, pergunto a ela. Toda a hesitação, o medo, o frio na barriga, se mostram absolutamente desnecessários. Margarida estuda na Faculdade de Belas Artes. De tão simpática, sorri até mesmo quando digo que abandonei Letras. Via de regra, as pessoas consideram uma informação a se lamentar, um fracasso. E não deixa de ser. Me mudei pro Porto por causa do preço do aluguel em Coimbra, conto a ela, e também para ficar próximo dos meus pais. Além disso, a dinâmica da cidade até permitia que se fizesse amigos, mas não por muito tempo. Margarida também se mudou para cá não tem muito tempo, e divide um apartamento nos Aliados com uma prima, que passa a maior parte do tempo na casa do namorado. Seus pais vivem na Vila do Conde. Digo a ela que nunca estive lá. É uma cidadezinha mais ao norte. O pai trabalha nas docas e a mãe é sua esposa.

Margarida é caloura e tem dezoito anos. Gosta dos quadros de Van Gogh, dos livros de Bukowski, e das músicas do Arctic Monkeys. Não é como se eu não gostasse de tudo isso, mas conversar com uma menina oito anos mais nova permite que seja levemente arrogante e assuma uma condição de educador na conversa. Por isso, eu pergunto se ela conhece as pinturas de William Turner, os livros de Gaddis e as músicas de Mihály Vig. Funciona quase sempre. Já sem a máscara, Gallini finaliza sua apresentação sob aplausos, larga o violão e vai de encontro ao Leonardo, que lhe cede um cigarro e acende. Tais com fome?, pergunto à Margarida, e ela responde que um pouco. Tem uma lanchonete. Fica aqui perto, queres ir lá? A resposta dela vem com um impulso para se levantar, ajustando a bolsa debaixo do braço. Vamos.

Deixo o que restou do vinho com o Leonardo, e digo que não volto, vou direto para casa. Não esquece a camisinha, ele sussurra no meu ouvido e me dá um abraço forte, acompanhado de um cascudo. Meu bigode bagunça em sua camisa  e eu tento consertar no caminho até a porta da Universidade, onde Margarida me espera sozinha. Tais bem?, pergunto a ela, que diz que sim. Já é escuro quando tomamos a rua, e a lanchonete não é tão perto assim. Subimos e descemos alguns morrinhos, e nos perdemos. Margarida conhece a cidade tão mal quanto eu. Ela não perde a calma, se mantém confiante, sugere que peçamos orientações. Digo que daremos um jeito. Andamos por algo em torno de vinte minutos, quando chegamos a uma lanchonete. Não é a lanchonete que procurávamos e esperávamos encontrar, mas entramos da mesma forma.

Pedimos nossos lanches e comemos sem pressa. Margarida começa pelas beiradas, distribuindo suas mordidas pela borda do pão. A cada dentada, gira um pouco o lanche e repete o procedimento. Na tevê, fala-se sobre um homem que roubou um caminhão e atropelou mais de vinte pessoas na França. Margarida acha que é terrorismo, e eu pergunto que diferença faz. Ela gira o pão finca os dentes mais uma vez. Seus olhões castanhos me assistem morder o lanche, com vontade, como se tivesse dentes de cavalo. Olho para ela, levanto a sobrancelha e dou um risinho, como se desafiasse. Margarida concorda que não faz diferença se é terrorismo ou não. Acho engraçado esses terroristas, ela diz, quando não estão se matando, estão matando os outros. É um hobby nada convencional. Eu dou risada e ela também. O que será que um terrorista faz, sei lá, num domingo?

Sobre a mesa, o celular de Margarida treme e interrompe a conversa. Duas, três vezes. É sua prima quem liga. Vem lhe buscar de carro e quer saber onde está. Nem havíamos percebido a chuva que começara a cair. Vou até a porta e consigo ler o nome da rua em que estamos, digo à Margarida e ela passa as coordenadas pelo telefone. Aguarda em silêncio a resposta da prima e desliga dizendo tá bem, te espero. Beijinhos. Deixa o celular sobre a mesa e fala que a prima chega logo. Já terminou seu sanduíche, enquanto eu ainda estou pela metade. A enquete com a audiência atesta: a maior parte da população portuguesa que assiste ao noticiário concorda com Margarida e interpreta o ocorrido como um ataque terrorista. De todo modo, ela não se gaba, mas diz ah!, como quem esquece de dizer algo importante e se lembra a tempo. Levanta-se da cadeira, vai até o balcão e volta de lá com uma caneta azul. Escreve algo num guardanapo limpo, sem permitir que eu espie. Guarda-o num dos bolsos, devolve a caneta ao funcionário vesgo da lanchonete e se senta novamente. Agora como apressado, enquanto um policial francês é entrevistado na televisão. Se parece demais com um porco de bigode.

Um carro prateado reduz em frente à lanchonete, para e buzina. Margarida captura a fatia de tomate que saquei do lanche e deixei sobre a bandeira, mete-o todo de uma vez dentro da boca e mastiga. Pega a bolsa e dá a volta na mesa. Dá um beijo no rosto, deixa o guardanapo dobrado sobre a mesa e se vai. Obrigado pela companhia no dia de hoje. Beijinhos, Margarida. Na bordinha do papel, seu número de telefone.