learnex

Sofia Mariutti
Imprimir

SOFIA MARIUTTI

 

Sofia Mariutti nasceu em São Paulo em 1987. Formou-se em letras-alemão pela USP e trabalhou até 2016 como editora da Companhia das Letras, onde foi responsável pela reedição das obras de Paulo Leminski, Ana Cristina Cesar e Waly Salomão, entre outros livros. Organizou antologia comemorativa dos trinta anos da editora, O livro é um poema (2016) e O livro das listas: Referências musicais, culturais e sentimentais, de Renato Russo (2017). Para a Companhia das Letrinhas, traduziu do alemão os livros A orquestra da lua cheia (2010), A visita (2016) e Os voos de Thiago (2016). A orca no avião é seu primeiro livro.

 

 

 

Contatos:

 

 


Conheça 5 poemas do livro A orca no avião, de Sofia Mariutti:

 

 

questões gramaticais

 

você disse porque você não me dá um beijo eu disse
esse porquê é separado você disse eu já sei é por
que você não gosta de mim eu disse esse porquê é junto
porque você não responde a minha pergunta você disse
se fosse uma pergunta seria por
que você não me dá um beijo? dou sim não eu não
estava perguntando eu só estava te editando
eu não pedi pra ser editado eu só pedi um beijo
se você me beijasse em vez de ficar perguntando eu te
beijaria e depois diria que gosto sim e muito por
quê?
você perguntou e eu não saberia responder

 

***

 

doencinha

 

diz que eu sou o mais bonito
diz que desde que me viu soube
que eu era o mais bonito
diz que eu sou o homem
da sua vida que eu sou o mais
alto que o meu pau é o maior
diz que já sabia desde antes
de me ver que todo o seu passado
não valia nada diz que você não vale nada
olha bem como você é vulgar

olha bem no fundo dos meus olhos
e pergunta onde é que eu estava ontem
à noite com quem voltei que horas
essas coisas da sua cabecinha de menina
que finge que acredita nas minhas mentiras
adoro quando você faz cara de boba

seu rosto esconde uma verdade
virginal uma pureza
que só eu sei ver

agora levanta
e pega meu celular
faz o que quiser com ele
é todinho seu

isso
mostra pra mim essa sua doencinha
vamos discutir por seis horas
em cima dessa cama
adoro quando você chora

brinca que vai se jogar da janela
suspira no meu ouvido que já tomou
a caixa inteira de antidepressivos

vai, pega essa sua doencinha
e esfrega na minha

vamos fazer um ménage à trois
no consultório do meu analista
vamos fazer terapia
de casal vamos visitar
o hospício da cidade
deve ser demais

pega essa sua doencinha
e deságua na minha

deixa meu corpo marcado
que tal extinguir esse
limite entre você e eu?

 

***

 

trama

 

toada da vida é temor:
tremo de medo da morte
tomada de trauma, sou outra:
faço da morte meu mote
e o medo da vida me doma

 

***

 

setembro soturno

 

outubro horrendo
novembro me rendo
dezembro desmembro
janeiro berreiro
fevereiro aguaceiro
março embaraço
abril
ruiu
maio desmaio
junho redemunho
julho engulho
agosto desgosto

 

***

 

réquiem para o alto rio negro

nos aguaçais os aguapés
— cruz, canhoto! —
bolem... peraus dos japurás
de assombramentos e de
[espantos!...

manuel bandeira


nos igarapés do rio uaupés
cada igreja erguida é um túmulo
cabari japú tiquié timbó
riachos não ainda desenhados
nos mapas de navegação virtual

nas margens do rio içana
cruzes foram içadas
e fincadas com empáfia
no topo de templos cristãos
atestando “aqui jaz o povo tal”
hupda tukano siriano baniwa
pira-tapuya todos enterrados
sob os internatos salesianos

desana não é decano
dow não é deão
não há missão sincera que ensine
casamento camiseta de algodão
culpa plástico perdão
triquíase tracomatosa

os shorts jeans quando se molham
ficam pesados e atrapalham
o movimento das pernas
das mulheres do alto rio negro

essa igrejinha de fachada
tão charmosa azul e branca
está vendo? tome tento
é um túmulo

sobre as sobras de uma noite de festa
resta apenas um demônio
sombra negra
justificando o que ninguém entende:

o suicídio de duas jovens indías
cada uma em um canto da aldeia
batizada pela igreja
santa cruz do cabaré

a corda que sustenta os sonhos numa rede
quando amarrada no pescoço
inaugura um sono profundo
que as livrará de todo o mal

sucumbir ao abismo da existência
esse modo tão branco de morrer
a palavra de cristo não sei mas
a questão de camus
chegou até lá

nos igarapés do rio uaupés
nas margens do rio içana
quinhentos anos de cortejo
e os índios seguem carregando as cruzes
do seu próprio funeral

nos igarapés do rio uaupés
nas margens do rio içana
hoje todos os afluentes do alto rio negro
vestiram preto

 


 

 

 

Livro: A orca no avião

Autor:
Sofia Mariutti

Gênero:
Poesia

Número de Páginas:
100

Formato:
13x19

Preço:
R$ 38,00 + frete (Livro em pré-venda, entrega após o lançamento. Amigos e leitores de todo o país que realizarem a compra antes do lançamento receberão o exemplar autografado após o evento. Imperdível!)