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Jorge Rein

JORGE REIN

 

Jorge Rein, jornalista, dramaturgo, poeta, ficcionista e tradutor. Nascido em Montevidéu, Uruguai (1948), reside em Porto Alegre desde 1971. Possui textos publicados em revistas, cadernos literários, e livros coletivos e individuais, assim como diversas obras de ficção e de teatro premiadas em concursos no Brasil, Uruguai, México e Alemanha. Apesar de ser esta edição sua primeira incursão específica na poesia, a linguagem poética é uma característica permanente e marcante em todos os seus textos, que transitam pelos mais diversos gêneros.

 

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Conheça 4 poemas do livro Grafiteiro do avesso, de Jorge Rein:






ABRE PARÊNTESIS



(hoje me sinto dono da anistia
que me concedo e cedo
antes que seja tarde
às tentações
a profissão do grito está suspensa
e o verso do amador
amadorece
protegido por íntimos parênteses
que dilatam o ventre dos domingos
grávidos de segundas
intenções


***



AVE FÊNIX



coisa feita viramos pirilampos
no artifício dos fogos
que iluminam e anulam
territórios saciados
os anéis de fumaça  se entrelaçam
na provisória aliança em que flutuamos
feito dragões de mútua dependência
mas a trégua é tão frágil
tão ingênua
tão tênue
tão precária
que não resiste ao crime
da mão que arrranha
aranha
tramando novas teias
para prender o fôlego
na transfusão do beijo
no apagar do cigarro
no renascer das cinzas




***





FECHA PARÊNTESIS



aos severos fantasmas que transcrevo
diabos que me carregam
nas tintas panfletárias
dos seus votos secretos
aos veneráveis mortos que interpreto
sonhos e pesadelos de anônimos sepulcros
na transversal dos medos
ecos de cal e canto
gregoriano
sempre na mesma tecla
do piano / piano / piano
das lembranças
martelando textículos
manifestostensivos
participartidários
feito abaixo-assinados
aos entranháveis espectros que me acossam
furúnculos que espremo
nas arestas dos muros
até arrancar-lhes vômitos
de uma cólera branca
leitosalucinada
que escarra nos tijolos
códigos de insurgência
ferozes alfabetos arrrrranhados nas pedras
fundamentais dos templos
no trabalho abraçal das madrugadas
de silício e silêncio em que prospera
minha gritografia verbotrágica
ao pelotão de ausências ditadoras
que me ditam gramáticas
de raiva emparedada
como quem executa na alvorada
as sombras da esperança
a todos meus coautores
cúmplices da palavra
pedi que me deixassem
cair na tentação
um dois e tresloucada
de sussurrografar
apenas o teu nome
junto aos  portões lacrados
das muralhas blindadas


então abracadabra
como se fosse impune
psicografar sir lewis
inconfessável gênio dos desejos
que te encantou menina
dos seus olhos estrábicos
e te conserva lenda na armadilha
de lágrimas e espelhos
como se das cartilhas beababsurdas
tivesse me restado
não mais do que o reflexo
porque toda paixão é um descaminho
em direção ao feto
anal / fabeto
então ensandecido
grafiteiro do avesso
eu te chamei

ALICE!


em cada galeria
dos múltiplos presídios
do meu intrauniverso
consternado e assim
diverso em verso
descândalo em escândalo
escancaramos portas e as muralhas
se jericonsumiram
ao som da nossa orquestra
paris era uma fresta
e a pátria era um mau tango

mas é claro que os seres
ou não seres
oniausentes cadáveres
nos espreitam no escuro
da aventura
cronometrando a trégua
mal & mal temos prazo
o minuto o espaço
que nos foi concedido
para recuperar a própria
intransferível fala
obrigação primeira de um porta-voz em férias
que se esgotam no instante em que se fecham
as tuas pernas
...................os bares
..............................as janelas
..........................................as grades
...................................e os parêntesis)



***



ISSO DE MORRER UM POUCO


o cais é que se afasta
não o navio
só quem fica no porto
é que percebe
por isso há mais silêncio
no seu canto
e mais culpa na voz
por isso é mais sentido
seu adeus


 


 

Livro: Grafiteiro do avesso

Autor: Jorge Rein

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 180

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete