learnex

Camila Serrador

CAMILA SERRADOR

 

Camila Serrador é bibliotecária na Unesp de Araraquara (SP), onde mora. Escritora desde os 12 anos, começou bolando poemas (dos quais tem vergonha), alguns romances (dos quais tem mais vergonha ainda) e, finalmente, contos. Gosta tanto de ler que se lembra do primeiro livro que ganhou na vida e tem pilhas intermináveis deles em casa. Adora Agatha Christie, admira Haruki Murakami, queria escrever como Ian McEwan. Namora um escritor gaúcho, com quem compartilha seu amor pela literatura. Sua noite perfeita envolve livros, gatos, vinho, música e lasanha.
Terra vermelha é seu livro de estreia.



Contatos:






Conheça 2 contos do livro Terra vermelha, de Camila Serrador:






Terra vermelha

 

Fernando Torres era um nome perfeitamente comum. A aparência em nada diferia de qualquer homem de sua idade. Beirando talvez os 30, cabelo curto loiro, pele manchada de sol, olhar no horizonte, perdido em pensamentos e fumaça do cigarro pendente de sua mão. O cheiro de suor se misturava ao próprio perfume e à grama molhada da fazenda. Usava botinas gastas, tinha terminado o trabalho arando os campos e agora descansava aos pés de uma árvore qualquer. Pensou em Cecília em algum momento da tarde. A lembrança fez surgir pequenas bolinhas ao longo de seu braço, algo como uma cócega se apoderou de seu interior e teve uma ligeira vontade de chorar. Tragou mais fundo seu cigarro e jogou-o no chão de terra. Esfregou a sola da botina na bituca demoradamente, sem olhar para o chão. Recostou-se no tronco e suspirou, fechando os olhos e deixando que o invadisse: Cecília.

Era noite de um sábado, muito tempo atrás. Cecília ao seu lado no carro ria, à vontade. Ela gostava de toque nas pernas enquanto dirigia, e, quando ele a tocou, ela olhou em seus olhos com um sentimento palpável, que podia ser amor. Nesse dia, estavam seguindo para fora da cidade em busca de um trechinho de rio onde pudessem se deitar para olhar as estrelas, conversar, se aninhar um no corpo do outro, buscando uma reconciliação quase impossível para aquele relacionamento. Cecília estava estranhamente calma e feliz, parecia ter se disposto realmente a esquecer o passado por algumas horas. O suficiente para que ela se lembre do amor de nós dois, ansiou Fernando. Acharam o rio, quase seco, estenderam uma toalha puída sobre a qual se deitaram e conversaram por horas. No começo se constrangeram pela falta de assunto, mas os tópicos surgiram naturalmente. As estrelas moviam-se devagar e com exatidão e os dois mal poderiam saber que seu tempo juntos ali seria tão efêmero quanto a luz delas, que brilha por algumas horas à noite e logo parece nunca ter existido.

Cecília segurou sua mão e sorriu.

- Vamos nadar?

Os dois tiraram as roupas, encabulados e risonhos, e correram para o riozinho, que batia em seus quadris. A partir daí a noite transformou-se numa mistura de água, riso e sonho. Seguiram para o carro, nus e com os cabelos ensopados. Cecília ficava linda de cabelos molhados e aquele sorriso solto. Mesmo envergonhada de estar sem suas roupas, portava-se com uma elegância que parecia não encaixar na vida que eles levavam na fazenda. Ela parecia tão diferente do que das últimas vezes que a vira, a professora da comunidade rural, a moça bonita, mas simples, de coque no cabelo castanho liso e saias comportadas sem estampa. Sandalinhas baixas, de couro. No começo, ele a observava de longe, e um dia tomou coragem de lhe oferecer um bolo de milho que fizera sozinho, mas que aprendera com a mãe. Ela sorriu, ele nunca a tinha visto sorrir. A partir daí sabia que estaria preso a ela.

Ela era uma das poucas na comunidade que sabiam ler. Ensinava seus alunos e eles ensinavam seus pais. Fernando não tinha aprendido a ler, desde cedo trabalhava nos campos com o pai. Às vezes, à noite, ainda sonhava com ele, o via sentado na beira da estrada de terra mascando um pedaço de cana, esperando o horário de voltar para casa e jantar. Quando ele morreu por envenenamento por herbicida, Fernando ficou órfão, pois sua mãe morreu de tristeza poucos meses depois. E, com pouca idade, já alimentava a si próprio com o trabalho pesado rural. Nunca fora à escola.

Cecília lia para ele vários livros. Fernando repousava a cabeça no colo da moça e enxergava apenas a capa, não o rosto. Quando ela abaixava o livro, olhava para ele sorrindo. Ele apenas a observava, sem sorriso e sem palavras.
Aprendeu a ler. Começou a ler para ela. Cecília não se incomodava com a demora e com as hesitações, e estudava com ele até tarde todas as noites. Às vezes dormia em sua casinha, e de manhã cedo ele pegava a enxada e ela os cadernos, e os dois seguiam para suas rotinas. À noite, tudo se repetia.

Cecília. Fernando esticou as pernas, nervoso. Acendeu outro cigarro, mas dessa vez tirou o chapéu, que fez vez de travesseiro, e se deitou em meio à raiz da árvore. Via as folhas balançando suavemente com a brisa, o azul do céu ao fundo, algum pássaro cantando na mangueira do sítio vizinho. Fumar deitado era ruim. As lembranças também eram.
Quando Cecília se mudou da comunidade para uma cidade distante, Fernando não soube como agir. Pegou o carro velho e levou-a até a rodoviária da vila e ela beijou-lhe os lábios suavemente, enquanto mantinha os olhos vermelhos, mas sem deixar cair uma lágrima sequer. Fernando tinha o rosto endurecido.

- Não é tanto tempo. Eu volto. Você me espera?

Ele tocou seu rosto, se virou e foi. Já tinha se despedido de seus pais, e a vida que descobria a cada dia mostrava ser cada vez mais solitária. Ele aprenderia então.

Não havia como enviar cartas para a faculdade de Cecília. Ele não sabia o endereço e não tinha dinheiro para o correio. A cidade era longe e ele não podia desperdiçar um dia de trabalho. Em poucos meses, se engraçou com outra moça e ela frequentava sua casa e sua cama. Fernando lia para ela, mas ela frequentemente caía no sono e lhe pedia para parar. Ele achava melhor, nunca tinha percebido como sua voz soava monótona se não era para Cecília que ele lia.

Um ano depois Cecília voltou para ficar, e encontrou a moça na casa de Fernando. Não chegaram a brigar, ela apenas se afastou e os dois pararam de se falar. Fernando contentava-se em vê-la de longe, na sala de aula da comunidade. Junto com o diploma, Cecília trouxe diversos livros que passou para seus alunos se prepararem para uma vida melhor, um vestibular, um futuro. Fernando nunca mais viu a outra mulher.

Não via mais o sorriso de Cecília.

Após meses sentindo falta dela, procurou-a. Decidiram por tentar reaver o relacionamento, passar um tempo juntos, ver o que tinha mudado nesses quase dois anos de separação. Foi aí que pegaram o carro velho dele e foi aí que nadaram nus no rio e foi aí que ela segurou sua mão e beijou sua boca e disse que o amava, mas era impossível que voltassem a ficar juntos.
Vestiram-se. Fernando entrou no carro em silêncio, ela voltou dirigindo. Ele não tocou suas pernas dessa vez. Se soubesse do que estava para acontecer, a teria beijado, pedido para reconsiderar, voltado dirigindo ele mesmo. Mas ficou olhando para a paisagem lá fora e não notou a aproximação de um caminhão com o farol apagado. Tampouco Cecília, que disfarçava os soluços de um choro silencioso. Bateram. Cecília se foi.

- - -

Fernando Torres era mesmo um nome comum. Mas ele deixou de ser um homem comum quando conheceu sua professora, amiga, amante. Ele agora sabia ler. Ele sabia lidar com a perda das pessoas que amava.

Nunca mais esteve com outra mulher desde a morte de Cecília. Vinha-lhe a visão do corpo ensanguentado e da súplica no olhar, o último olhar. Ela apertou sua mão. Se tudo tivesse transcorrido bem naquela viagem de volta, provavelmente eles dois não se falariam mais. Em pouco tempo, Cecília se mudaria para a cidade grande e se casaria com outro homem, mas ainda daria aulas. Viveria uma vida que não permitiria lembranças de uma comunidade que fervia ao sol e à terra vermelha. O amor deles seria esquecido, obliterado.

Mas a interrupção dessa história deixava uma pendência, uma esperança. Fernando poderia passar as tardes imaginando que eles ficariam, indubitavelmente, juntos. Que ele faria tudo ao seu alcance, mesmo sabendo que na verdade não teria forças para vê-la afastar-se ou renegá-lo. Ele provavelmente não faria nada para tê-la de volta. Cecília morreu, mas parece que algo continua vivo.
Fernando jogou longe o cigarro e suspirou. Amores interrompidos são eternos.



***



Bicho morto

 

Limpei o sangue do carro por quase três horas. Ele estava trancado na garagem, e mesmo se alguém espiasse pela fresta do portão mal conseguiria ver o amassado frontal causado pelo impacto.

Joguei água oxigenada e, para minha surpresa, o vermelho saiu facilmente, a demora foi devido à quantidade. Cada mínima partícula deveria ser eliminada. Para a funilaria eu poderia dizer que acertei um animal grande na estrada. Seria possível um cervo? Um alce? Existem alces no Brasil? Vou fazer uma pesquisa para não acabar falando besteira e ser descoberto.

Tirei minha bicicleta dos fundos da garagem, cobri o carro e saí para dar uma volta e me livrar do cheiro de produto químico. As pontas dos meus dedos gelaram e embranqueceram devido à pressão no guidão. Tomei o mesmo caminho que costumava fazer quando criança, descer a ladeira da rua dos tios, levantar os braços e fechar os olhos, pensando que cair ou não cair, me estrebuchar ou não me estrebuchar, morrer ou não, faria pouca diferença. Era o vento que eu gostava, a liberdade, era sentir que a única coisa que me prendia à Terra era o traseiro no assento duro, enquanto os pés vacilavam no pedal.

Parei em frente à antiga casa dos falecidos tios, e na varanda estava um casal lendo jornal e dividindo um copo de cerveja. O sol se punha e era possível ver seus raios através das folhas da árvore no quintal. Tive vontade de tirá-los de sua calmaria, de dizer a eles que a casa era velha demais, que tinha um gato morto enterrado perto daquela árvore lá no fundo e que eu o matara. Tinha arrancado uma das tábuas do degrau da varanda e meti na cabeça dele até ver uma coisa cinza escorrendo pelas fendas do nariz. Quando a tia perguntou do bichano, disse que provavelmente tinha fugido para morrer em paz, afinal o tio chutava ele quando bebia pinga além da conta. Reparei que até hoje a tábua estava faltando.

Quando era criança costumava me sentar no colo gordo do tio, naquela mesma varanda. Cuidando para não despencar de suas curtas pernas, eu bicava sua caipirinha, que ele, com os olhos desfocados e sorriso mole, me oferecia sem se atentar à minha idade. Um dia tomei metade dela e vomitei na pança do tio, que imediatamente me empurrou e me chutou umas duas vezes na costela. Rasgou a blusa para tirá-la e nunca mais me botou no colo. O cheiro de pinga ainda me enoja.

A tia era boa e burra. Cozinhava frango frito com polenta todo dia, mesmo naqueles que eu não estava lá. Se não estava nos tios, estava na casa da mãe. Um dia ouvi a tia dizendo pro tio que minha mãe só prestava pra dar por aí, que não tinha capacidade de cuidar de mim. Por isso eu passava a maior parte do tempo na casa rosinha dos dois, não no casebre da mãe. Quando eu ia para lá visitá-la, ela me atendia de roupão semiaberto, cigarro pendente na boca e olhar perdido pro outro lado da rua. Era só eu dizer "Oi, mamãe" para ela tragar fundo e soltar uma baforada para cima. Dava espaço para eu entrar e jogava a bituca no chão, sem pisar em cima. Na minha cabeça infantil achava que um dia a casa poderia pegar fogo por causa disso, e sempre pensei que ela não faria falta nenhuma. Nem a casa, nem a mãe.

Entrar lá era sempre uma surpresa; poderia me deparar a qualquer momento com pênis moles deitados no sofá ou andando calmamente pela pequena cozinha. Os homens entravam e saíam com tal frequência que eu nunca fui permitido ali por mais de algumas horas. Quando por vezes os mirava horrorizado, a mãe soltava um grunhido que parecia ser uma risada e dizia que Paulo era a favor do nu ou que Jonas tinha esquecido onde tinha enfiado as roupas de baixo.

Eu nunca tive pai. Minha mãe gostava de frisar isso quando eventualmente nos encontrávamos. Cresci sem saber por que deveria ter uma presença masculina em minha vida, e o tio não serviu pra mudar essa ideia. Se pai era pra mostrar pau e beber pinga, eu queria mais mulheres. Pensando agora, minha mãe tinha um quê de sensualidade em seu roupão leve, no jeito que parecia depender do cigarro que sempre levava na mão, no ar misterioso que exalava enquanto puxava fumaça pra dentro. Tinha o cabelo crespo e curto, que fazia os cachos não obedecerem à lei da gravidade. Pareciam flutuar no ar e, quando criança, tive vontade de mexer neles, apesar de parecerem sujos e fedorentos. Acho que minha mãe toda fedia, cheirava a homem.

Passei tanto tempo encarando os dois velhos na varanda que eles levantaram e entraram rapidamente na casa. Talvez estivessem ligando para a polícia. Pedalei de volta pra casa, pensando no que faria de janta pra mãe velha e acamada. Pensei em quando consertaria o carro, e se minha mãe me perguntaria sobre o encontro arranjado com meu pai. Ao chegar, fui ao banheiro lavar a mão antes de fazer a sopa, mas o cheiro da água oxigenada continuava forte. De relance olhei no espelho e vi a barba branca por fazer, a calvície que aparecia e as olheiras sob os olhos caídos. Um idiota, e pior de tudo, um idiota assassino.

Fiz a sopa e levei pra mãe. O quarto, que fedia a mijo e soro, me repugnava. Ela ainda mantinha aquele olhar libertino que sempre teve, mas seu cabelo agora era murcho e branco, corpo flácido e inútil. Homens não apareciam mais há muitos anos, a velha era agora inválida. Sorriu quando viu o prato. Quando abriu a boca para falar, eu sabia o que viria:

- Como foi o encontro ontem? Como seu pai estava?

Não respondi, mas compensei o silêncio depositando a tigela fumegante no criado-mudo com um barulho seco. Ela continuou:

- Não acredito que ele voltou... Depois de 40 anos, você finalmente tendo a chance de conhecê-lo. – Segurou minha mão. Tive que olhar pra ela – Nem acredito. É sua chance de ter uma relação normal, de pai e filho...

Respirei calmamente, mal deixei que ela notasse a hesitação. Imagens do dia anterior pipocaram na minha visão, coisas que não queria lembrar. Um velho barrigudo da porra, o bafo quente de cachaça velha, o simples fato de ser um homem. Tudo me enojava sobremaneira. Conseguimos conversar por alguns minutos numa praça deserta. Aleguei um compromisso e ofereci uma carona de volta para o hotel de beira da estrada em que ele estava hospedado, exclusivamente para me conhecer pela primeira vez.

Ele não chegou a entrar no banco do passageiro. Só no porta-malas.

- Está bem, mãe. Foi tudo bem.

Ela morreu antes que eu consertasse o carro.

 


 

 

Livro: Terra vermelha

Autor:
Camila Serrador

Gênero:
Contos

Número de Páginas:
150

Formato:
14x21

Preço:
R$ 40,00 + frete