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Lia Testa

LIA TESTA

 

 

Lia Testa gosta de palavras que se encontram em permanente estado encantatório e de envolvimento. busca ritos degustativos de salivas que molham a linguagem numa fala erótica e de erotização. acredita que a poesia está em todos os espaços para recodificar o corpo. tenta viver/estabelecer uma íntima relação de atravessamento com a palavra, pelo desejo/sonho de encontrar seu intenso e incessante tecido (palpável ou impalpável), para chegar a um estado poético possível. toma a sua produção como um “work in process”, impelida de desdobramentos múltiplos, de energias moventes e de imersões. Além de se dedicar à produção poética e à produção de obras-colagens (feitas à mão), é professora de Literatura Portuguesa da UFT, Mestre em Letras e Doutora em Comunicação e Semiótica. Tem trabalhos publicados em revistas acadêmicas e literárias, participa de algumas antologias poéticas e é autora do livro guizos da carne: pelos decibéis do corpo (Poesia Menor, 2014).

Contatos:

 

 

 

Conheça 4 poemas e 3 colagens do livro Sanguínea até os dentes, de Lia Testa:






encarar o difícil do branco
a coluna vertebral do branco
aos poucos entrar em suas camadas
saber da sua vasta temperatura
escutar suas nascentes sentindo
a erupção lançada o quente o vapor
o ar cravando a língua e verbar
o jorro do negro do nanquim
requerente de uma hidrogeologia
de subducção deslizável para iniciar
o alastramento oceânico fraturar-se
desaparecendo em todas as direções
opostas antepostas afastando-se
na vizinha da superfície jaz morta
branca e bramindo de uma outra crosta
nem sempre linear escarpar os vales
ativar os pontos os açores as cristas
o grande rio o mar vermelho
vertendo focos sísmicos choque
nas fissuras lavas vulcânicas
elevar a pressão e ver a subida de
um jato violento atingindo os buracos
negros as caixas pretas os espaços de
um camaleão bombeado pela expansão
do universo de um desce-sobe
um Big Rip ou grande rasgo no tecido
ex-branco uma quinta-força dentro
dos aglomerados das letras
a esparramar as micros-ondinas
solares que empurram o poeta e o leitor



***


olhar górgono
transforma o
corpo ctônico
pedra perigo
contempla o
dissimétrico
a noite densa
a agressiva luz
a retina queimada
a baça boca oca
aberta sobre as
cabeças sobre os
elos dos olhos  
impiedosos no
desferido olhar
que de cabo-a-
rabo & sem-fim
atira a fera em
fúria na beira do
terrível encanto
do encontro no
terreno pouco
conhecido que
se chama abismo



***




découper o sinal de fogo no fumo
na casa dissonante da vespa-mestre
religar o vespeiro nas picadelas infladas
das flores-abelhas que afloram un coup de fúria
imbeles mãos rugem na errância cosmótica das faias
de sol [em lugar do espinheiro crescerá a faia, e em lugar da sarça crescerá a murta]
da flora-potência crescente até mesmo no deserto
contra risos sinistros e venenos sem antídotos
olhai a zona baixa-quente em contra-plongéé
ler o manifesto 343 a livre notação das falas
sem crime nem culpa atentai para as claves da
machine à écrire nas dobras do corpo-tempo:
esse templo carregado de variadas temperaturas




***



ataque de ícaro | na escada rolante | só
ventosas na goela | goela abaixo | só
pedrada na carne | o voo do mundo | só
abaixo do equador | pena fora do ovo | só
sóis órbitas celebram | o olho do vulcão | o grão | só
o mareado espinho | o chão | o vão | de | sol | só
a espinha dorsal | o dorso do peixe | a ponta | só
concêntrica | espetada no ouvido | o ar da água | só
o radar da antena | atenta ao sopro | desafina | só
a estricnina | na língua | o soco | no estômago | só
o saco do som | na bagagem babilônica | silva | só
os fungos sabem a | coreografia do pulo | pula | só
o íntimo andar | nada se diz | já disse: | radiação | só
tudo fronteira | o longo dervixe | deve evoé | vish! | só
de vir aqui | digere | dirige | o fim | . | o começo | só
o eco | a eco | na caverna | saída | do capim santo | só
o resto todo | todo o resto | sabre ensaboado | s.o.s | só
os goles desfibrilados | o nervo | retido na retina | só
o abismo não basta | bastardo olheiro | nuances | só
alcança disfarce | nunca descansa | a mão do poeta | só

 

 


 

 

Livro: Sanguínea até os dentes

Autor: Lia Testa

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 120

Formato: 16x23

Preço: R$ 40,00 + frete