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Juliana Maffeis

JULIANA MAFFEIS

 

 

Juliana Maffeis é escritora e arte-educadora. Mora em Porto Alegre, RS. É graduada em Letras pela PUCRS e possui especialização em Formação do Leitor pela UERGS. Trabalha com educação popular ministrando oficinas de Poesia, Artes Visuais, Leitura e Ilustração.



Contatos:

 

 

 

Conheça 5 poemas do livro Solitária companhia de teatro, de Juliana Maffeis:



acidental

 

risco ocidental ornamentado pelo caos
arranco um dente em frente ao espelho
percebo o sangue escorrer: me observo
carranca duplamente estática
até que a boca murche de tédio




***

 

a festa do vizinho

 

o carro de mensagem grita amor bem alto
mosquitos fazem a festa na perna dos convidados
meus pais trocam risadas quinze anos após o divórcio
brinda-se ao bebê que não veio
de boca fechada derrubo o copo
ninguém pode me ver aqui
espio a vida por trás do muro
nada que eu já não tenha visto
deu vontade de ver de novo
toca aquele hit do verão passado
os vizinhos ensaiam passos
ninguém me viu ainda
sigo olhando até cansar
tá demorando pra cansar
dançam e cantam aos berros
continuo atrás do muro
bom lugar pra passar o sábado



***


como nenhuma

 

a mesma disputa
o velho terreno
a massa cinzenta versus o músculo vermelho
a mesma contradição: a mesma fria de sempre
metade uma coisa só e a outra metade milhares de metadinhas

a velha agonia
a mesma impaciência
metade dor nas costas
metade milhares de vontadinhas
a velha cinzenta e o velho rubro musculoso: um casal como nenhum outro
uma dupla como nenhuma outra gostaria de ser



***


cinema

 

numa sala de cinema vazia
choro nua
em frente a imensa tela
sem conter-me despi-me
parecia uma despedida
chorei o filme inteiro
amor que não dá conta de amar
o lugar vazio ao lado
à frente, atrás
dentro
que lado é este?
insistente questão
persiste após os créditos
pessoas entram e limpam
eu ali tão suja
não me enxergam
levam minhas roupas
permaneço estática aos prantos
a interrogação se afirma
finco os dois pés no carpete
passo a mão pelos pelos
pelos cabelos pelos seios
na sala que nada apresenta
sou persona de mim mesma
me represento
apreensiva inofensiva aguada
maquiagem borrada
imersa em minha poltrona
molhada de mágoa
decupada e sem roteiro

 

***

 

solitária companhia de teatro

 

operação de escuta
remanejo na conduta
discorda mas não disputa
palavra bruta vadia covarde
de boca em boca se perde
de bloco em bloco se prende

rumor de eco
tremor na voz
concede a nós
um bafo seco
clamando juras honestas
escorrem por qualquer fresta
quando o assunto é agora
fim de festa

via de sentido único dada como correta
via de sentido trágico seguida em linha reta
morte sorte corte essa parte entregue
repertório à toa entoa repente de óbito
ruído híbrido ressoa fala de neurótico

meu deus do céu deus do céu meu
quando meu pulso vai tocar no radial?
quando meu passo vai assoviar no pantanal?
quando minha cor vai tingir por cima do cal?

firmamento de mentiras corrosivas: a hora histórica
campo pouco amplo de ideias fixas: a hora histórica
encruzilhada de vidas obstruídas: a hora histórica

ao tratar contrato destrato contexto
novela escrita em uma noite em claro não é mais pretexto
teu sonho e tua ilusão a preço de banana
alienação ou perseguição: doenças contemporâneas  
tão simples tão bacana tão sacana
delírio e paranoia a toda crença engana
antagonista projetado em marginal anti-herói
protagonista escarrado na pele do pleiboi
conte sobre sua lei, meu rei

solitária companhia de teatro
veste a plateia máscara de otário
recusa o pensamento em outro plano
segue circular o grito insano, tirano
pondo panos quentes em sangue corrente
espaço urbano hoje zona de conflito
recorta o horizonte e cola por cima um grito

 

 


 

 

Livro: Solitária companhia de teatro

Autor: Juliana Maffeis

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 100

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete