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Karina Lemes

KARINA LEMES

 

 

Karina Lemes nasceu em São Paulo, em 1980. Formada em publicidade, trabalhou como redatora por muito tempo e fugiu da profissão duas vezes. Na primeira, foi dançar dança do ventre no Oriente Médio e ganhou algumas histórias para contar. Na segunda, largou o pobre marido no Brasil por três anos e foi cursar um Mestrado em Creative Writing na University of Idaho, EUA. Pulso é seu primeiro livro.



Contatos:






Conheça o texto de apresentação do livro Pulso, de Karina Lemes:

 

As pessoas nas histórias de Karina Lemes lutam contra a solidão, a indiferença e as indignidades da vida moderna, mas raramente são derrotadas. O que amo nesses contos é o espírito de generosidade que eles incorporam e o nível de pena e compaixão que sentimos até pelo mais esquisito desses personagens excêntricos. Como Tchékhov, Karina reconhece o que é cômico e absurdo mesmo nos mais trágicos acontecimentos. E como Calvino, ela nos envolve no puro prazer da narrativa, desdobrando e relevando suas histórias de formas mágicas e inesperadas. Pulse é uma delícia de se ler, uma coleção exuberante, astuta e realmente encantadora.


(Daniel Orozco ensina Creative Writing na Universidade de Idaho. Ele é o autor de Orientation and Other Stories, publicado pela Farrar, Straus & Giroux.)


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Conheça dois contos do livro Pulso, de Karina Lemes:






ORA BALÕES

 

Entre todos os medos que ela poderia ter — medo da morte, da solidão, de compromisso e de ratos e de baratas, medo de altura, de escuro, de testes de matemática e de anões e de falar em público, de injeção, de rejeição — entre os diferentes medos rastejando escondidos por debaixo da pele humana, ela foi escolher balões. Balões de látex, balões metalizados, balões que brilham no escuro, balões-canudo, balões falantes, balões de ar quente, balões publicitários, balões d’água. Podia ser um balão de verdade ou só se parecer com um balão: ela tinha medo.

Infelizmente, balões estavam em todo lugar. Na festa de criança, na festa de despedida, na despedida de solteiro e na formatura e na vendinha da esquina, no casamento, no primeiro dia de aula, na promoção do posto de gasolina, ou cruzando o céu, flutuando no saldão de carros, ou preso lá no teto do metrô ou na praça de alimentação ou no cinema, ou escapulindo pelo bueiro ou pela fenda do caixa eletrônico ou na última gaveta do freezer, ou debaixo da mesa do restaurante. Não importa que ela nunca tivesse visto um balãozinho sequer em alguns desses lugares. Ela sabia que eles podiam estar lá.  Podiam aparecer a qualquer momento, sem avisar. No salão cortando o cabelo, por exemplo: e se de repente um balão surgisse no espelho, flutuando por trás de sua cabeça? E se ela tentasse fugir e se a tesoura escorregasse da mão da cabeleireira e cortasse a ponta da sua orelha? Balões podiam causar acidentes seríssimos.
Balões, além de tudo, eram traiçoeiros. Sempre que via um balão, mesmo que de longe, ela abaixava a cabeça e evitava contato visual. Ainda assim, ficava com aquela sensação de estar sendo encarada, perseguida, como se o balão estivesse só esperando a chance de se aproximar. Se ela se distraísse por um segundo, o balão podia aparecer de surpresa, bem na cara dela. Dissimulado, malicioso. Como uma cobra reconhecendo o medo em sua presa.

Essa noite ela teve o pesadelo de sempre. Seus braços e pernas amarrados na cama, dois balões flutuando em frente ao seu rosto, um azul e outro amarelo. Duas mãos peludas esfregando um balão contra o outro. O barulho agudo de borracha com borracha e ela sem conseguir tapar os ouvidos. Fecha os olhos e se debate. Quando abre de novo, um balão vermelho está sendo inflado a centímetros de seu rosto. Ouve o assovio do ar entrando no balão, que vai ficando cada vez maior, chegando cada vez mais perto. Podia estourar agora, ou agora. Ou já! Mas o látex continua esticando infinitamente, até ficar tão fino que o vermelho vira um rosa pálido, frágil. Quando o balão estoura, ela acorda suando na cama, com a garganta seca e as pernas bambas.

A manhã seguinte poderia ser como qualquer outra. Em vez disso, foi a manhã em que ela pensou pela primeira vez na vida: e se o sol também for um balão? Olhando pela janela do quarto, apertou os olhos e tentou desvendar o círculo amarelo aparecendo entre as nuvens. A ideia não pareceu tão absurda. Vai ver o sol não era o sol. Ele podia ser uma gema de ovo se espalhando pelo céu, um botão amarelo prendendo duas nuvens, um grão de milho jogado do avião, um semáforo para pássaros apressados. Nenhuma das opções parecia tão assustadora quanto a ideia de um balão enorme, amarelo, espiando todo mundo lá de cima.
Dirigiu até o trabalho meio ressabiada. De vez em quando, colocava a cabeça para fora do carro e examinava aquela bola amarela pendurada no céu. O que ela queria mesmo era descobrir se a bola continuava no mesmo lugar, se parecia estar aumentando, se arriscava explodir. Mas a cada quarteirão ia se convencendo de que estava tudo bem, aquilo já era exagero. O sol era o sol e pronto, sempre seria.

E agora estava tudo bem, tamborilava os dedos no volante, aliviada em ver cada uma das coisas achatadas ao seu redor: a rua por onde ela dirigia, a placa de “vende-se” no portão, a vitrine da loja, a gravata do executivo atravessando na faixa, o CD que ela tirava do som.

Ligou o rádio. Uma voz animada demais para aquela hora da manhã anunciou uma viagem ao redor do mundo: “A maior aventura de sua vida! Américas, Europa, Ásia, África, Oceania! Percorra milhares de quilômetros em alguns meses!”
A luz do sol batia no para-brisa e ela pensava nos lugares de nome estranho que ela nunca tinha visitado. Ilhas Seychelles. Guam. Laos. Estônia. Fiji. Belize. Por um momento, sentiu toda a giganteza do mundo e pensou no mistério dos oceanos, na brutalidade dos solos, na eternidade do horizonte — tudo contido pelos limites do que acreditamos ser um planeta azul, redondo, flutuando no espaço.
O mundo é um enorme balão. O pensamento surgiu como as primeiras gotas de uma chuva qualquer — no início casual e descomprometido, mas de repente ganhou força e virou uma tempestade. O medo transbordou de sua mente para seus braços, para suas pernas. Até que ela ficou paralisada. E se o próprio mundo era o maior balão do mundo? Milhões e milhões de quilômetros de tudo só esperando a hora de explodir?

Empacada no semáforo, ela olhava em volta. Eram tantas as ameaças: o salto alto pisando na calçada, a bengala encostando no asfalto, o cabo do guarda-chuva cutucando o chão, a tesourinha caindo da mão do camelô. Motoristas gritavam, buzinavam, xingavam: “Anda logo!” e “Só podia ser mulher!” e “Sai da frente!”

Então esse povo todo não sabia do perigo? Um furinho na superfície da Terra e PUF! A humanidade já era!

Do outro lado da rua, cones laranjas cercavam o canteiro de obras. Um homem forte e sujo puxou a corda da britadeira e a broca rugiu nervosa. É agora que o planeta explode! Pisou com tudo no acelerador e avançou rua acima, gritando, chorando, rezando — Que se fosse para morrer, que a explosão viesse logo! Que ela desaparecesse de uma vez!

Mas surgiu um poste no meio caminho. Bateu o carro. Desmaiou. Quando acordou, seu rosto estava esmagado contra um balão branco.



***



SUCRILHOS COM AVEIA, MEL E LEITE DESNATADO

 

Dona Vera gosta de sucrilhos com aveia, mel e leite desnatado. Na embalagem do leite tem que estar escrito em letras bem grandes: DESNATADO. Nada de semidesnatado ou 1% de gordura ou 0% de gordura. Ela não acredita em números. Números não dizem nada. Dona Vera abre a porta da geladeira e examina cada uma das prateleiras. Não encontra o leite desnatado.

Por outro lado, banana tem em tudo que é lugar. Didi, o moleque de dez anos que trabalha na quitanda, traz uma penca de bananas toda semana. Isso desde o dia em que Dona Vera pediu para ele entrar e por favor guardar as coisas na geladeira. Era uma tarde quente de rachar asfalto e, quando o moleque terminou, Dona Vera ofereceu um copo de Coca-Cola. O moleque virou o refrigerante na guela como se o mundo fosse acabar, dando uns tapinhas no fundo do copo para resgatar as últimas gotas. Depois perguntou por que é que Dona Vera não tinha banana nenhuma na geladeira. Disse que a vó dele comia banana todo dia porque faz bem para os ossos. O médico que falou.

Desde então, a geladeira de Dona Vera nunca mais ficou sem bananas. O moleque traz bananas e mais bananas, que vão se acumulando e ele ajeita tudo como pode nas prateleiras, nas gavetas, nas portas. Dona Vera está tão acostumada a ver bananas que às vezes esquece que elas são de comer. Parecem ter virado parte da geladeira.

Mas hoje Dona Vera não quer bananas. Ela só quer seu sucrilhos com aveia, mel e leite desnatado. Mas onde foi parar o leite desnatado? Dona Vera se abaixa para checar a prateleira do meio e sente o estalo na costela. A prateleira do meio tem dois potes plásticos de comida: um azul, com arroz de uma semana atrás, e outro amarelo, com uma sopa de feijão tão grossa que nem se mexe. No fundo da prateleira, Dona Vera encontra uma lata de chá verde pela metade, um pires com queijo fatiado, um pedaço de gengibre enrolado em papel alumínio, um frasco de soro fisiológico e um cacho de uvas verdes murchas de dar dó. Nada do leite desnatado.

A última prateleira fica tão longe que Dona Vera deixa para lá. Ela sabe o que guarda ali: alface americana, tomate, cenoura e quatro latas de Coca-Cola para quando os netos aparecerem. Marcelo diz para ela não gastar seu dinheiro com essas besteiras. Ela responde: por que não? Dinheiro é só um punhado de números.

No topo da geladeira, mora um pinguim gordo de cerâmica. Ele usa um cachecol vermelho e um gorro da mesma cor, com a ponta quebrada. Dona Vera sente calor só de olhar para aquele pinguim encapuzado, ainda mais com o solão entrando pelas frestas da cortina.
Ela pergunta ao pinguim: mas o que é que tem de errado com o dia de hoje? Se hoje é só mais um dia, mais um número no calendário. Mas alguma coisa parece diferente. Está faltando alguma coisa. Quando criança, ela ia para a escola com uma sensação esquisita e chegando na sala via que tinha esquecido a borracha. Chamavam de intuição. Pressentimento. Era o mesmo agora? O pinguim chega a asa no bico, quer sussurrar um segredo para Dona Vera. Ela tenta, mas não escuta nada.

Dona Vera fecha a porta da geladeira e examina o calendário pendurado na parede. De vez em quando ela passa semanas sem virar suas folhas, sem ler as mensagens. Mas hoje ela vira uma, duas, três, quatro páginas, até parar na imagem de um gato cinza brincando com um novelo de lã. É dia 8. Vai fazer vinte e três semanas que seu filho e seus netos apareceram a última vez. Mensagem do dia:
Olhe à sua volta. Você está exatamente onde deveria estar.

As palavras ganham vida em frente às lentes do óculos e Dona Vera faz o que o calendário pede: olha à sua volta. Então vê as paredes amareladas da cozinha, o fogãozinho azul de quatro bocas que ela já usa há trinta anos, a toalha de mesa verde com um buraco no meio (que ela esconde com a caneca de café). Vê a vassoura encostada no canto, a piaçava cheia de cabelos brancos que ela arrasta pela casa toda, da cozinha para a sala para o banheiro para o quintal. Quando Dona Vera não sabe mais para onde olhar, encosta os olhos em si mesma. Vê as próprias mãos com rugas largas e veias azuis tão grossas que parecem troncos de árvores. Vira a palma esquerda para cima e corre os dedos da mão direita naquilo que as pessoas chamam de linha da vida, do coração, da mente. Nada daquilo faz sentido. Sua vida, seu coração e sua mente nunca caberiam na palma da mão. Aquelas linhas são só mais rugas — mais rugas do que ela imaginava ter, mais velhas do que ela se lembrava de ser.
Conversa com o pinguim: quer saber, gordito?

Dona Vera larga os óculos na pia. Acaba de decidir que não precisa mais de óculos para ver esse outro mundo, esse mundo além daquela geladeira de bananas, daquela vassoura de cabelos brancos, daquele pinguim usando gorro em pleno verão. Abre a porta para a rua.

Quando dá o primeiro passo do lado de fora, a luz do dia é tão forte que Dona Vera cobre os olhos com as mãos. A pele de seu rosto é quente, pelada, e aos poucos ela consegue desgrudar dedo por dedo e enxergar o que está à sua frente. Agora a grama é um emaranhado verde, o céu uma imensidão azul, o sol um borrão amarelo. Chove, a chuva é prateada e brilhante e tão bonita. Dona Vera estica os braços para sentir as gotas de chuva e vê os pedacinhos de papel prateado se juntando nas palmas de suas mãos. Os troncos de árvores têm laços vermelhos, bexigas de todas as cores pendendo dos galhos. Só então Dona Vera vê os dentes brancos de um sorriso que ela reconhece. Um sorriso que a faz sorrir de volta. Sente os lábios ressecados esticando mais e mais, até que explodem em uma risada aguda, escandalosa.

E ouve: feliz aniversário, Dona Vera!

Didi, o moleque das entregas. Dona Vera esfrega os olhos e tenta enxergar o bolo que ele segura nas mãos. Parece que o topo tem uma linha de morangos formando um sorriso torto.

Quantos anos a senhora está fazendo? Vou buscar a vela para cantar parabéns!

Esquece o número, menino. Esquece a vela.

Dona Vera chega mais perto. Passa o dedo indicador na cobertura do bolo e meleca o nariz do garoto com chantilly.

Eu quero mesmo é um litro de leite desnatado, tem como buscar?

 

 


 

 

Livro: Pulso

Autor: Karina Lemes

Gênero: Contos

Número de Páginas:
152

Formato: 14x21

Preço: R$ 40,00 + frete (Livro em pré-venda, entrega após o lançamento. Amigos e leitores de todo o país que realizarem a compra antes do lançamento receberão o exemplar autografado após o evento. Imperdível!)