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Natália Zuccala

NATÁLIA ZUCCALA

 

Natália Zuccala é contista, dramaturga e professora. Formada em Letras pela Universidade de São Paulo, dá aulas de Língua Portuguesa e Literatura na Escola da Vila. Suas peças A e Fenda foram montadas pelo coletivo de dramaturgos Antessala, do qual faz parte. Publicou contos na antologia Alguma objeção?, bem como nas revistas impressas e virtuais Raimundo, Jandique, Vigília, Empena, Saúva e Caos Descrito. É curadora da seção de ficções da página de literatura Vigília.


 

 

Contatos:

 

 


Conheça 2 contos do livro Todo mundo quer ver o morto, de Natália Zuccala:







SPERARE

 

 

De manhã bem cedo, antes mesmo de eu acordar e justamente pra eu não assistir sua partida, ela saía. Sabia que eu não gostava de vê-la ir e se adiantava: saia antes do sol. Também por seu ofício, não só por minha angústia. Quando voltava ela, ladaiava eu: hoje, mãe, como foi? E outras frases do cotidiano pra se relacionar bem. Mas antes disso era longo o dia.

Levantava eu então sabendo que a sua ausência seria a primeira existência com a qual me encontraria. Iniciava a senda diária na tarefa de esperar bem. Nada além disso, todo dia, aprendendo a esperá-la bem.

Se por casualidade despertasse antes dela e fosse contemplar seu egresso, doía-me. E ainda me dói, se me puser a pensar demais, dói. A verdade é que todo dia, mesmo no sabendo eu desconfiava, não emprestava certeza, não apostava que ela ia voltar. Tinha medo. Quando calhava essas vezes dela dormir demais, ou dos pesadelos me reterem o sono e eu tinha de vê-la ir, ela me abraçava muito apertado, deixando claro que voltaria, que não havia risco, que a vida se encarregaria sempre de trazê-la de volta. Não acreditava. Separação pra mim sempre fora assim, conjuntura definitiva, aborto, abandono, fim.

Verificava seu quarto e tateava seu colchão pra ter maior certeza, mesmo sabendo que ela não estava. Fazia parte do saber esperar ter esperança. Arrumava então sua cama, depois a minha. A dela era fácil, mal se mexia ao dormir e eu a encontrava quase pronta. A minha não. Ordenava seu quarto, depois o meu. Então a casa, que não era grande. Tudo se ajustava ao nosso tamanho de família: reduzido a duas pessoas. Uma sala, um banheiro, uma cozinha e dois quartos, também pequenos, com duas camas de solteiro, não muito confortáveis.

Começava, na sequência, a cozinhar pro meu almoço sozinho e nosso jantar acompanhado. O primeiro, é claro, refeição mais simples, restos do bom da semana. O jantar, inédito todo dia. Era comum eu cozer o peixe que ela tinha trazido na noite anterior do próprio mar. Se não, os outros d’água: polvo, lula, caranguejo, siri. Quando o mar não estava de pesca, ela ia comerciar na cidade e voltava de lá com legumes e verduras. Sabia prepará-los também.

Eu preparava todo tipo de alimento. Tinha sido ensinada de pequena a manusear os animais já mortos e a matá-los também. Me ensinara não só prevendo minha necessidades, como também as dela própria. Afinal, de partidas e chegadas se emendava nossa história.

Ela regressava sempre na estremadura bonita entre a tarde e a noite. Nunca soube se era o sol que se adequava à sua chegada, ou sua chegada sincronizava com o cessar do sol. Secretamente sempre achei que ele a esperava. Na minha vida miúda, tudo a esperava. Os pratos a esperavam. As cadeiras a esperavam. Os talheres também. O peixe cozido. A porta. Os espelhos. As flores. O jardim. Eu. Meus anseios e minha felicidade. Principalmente meus anseios e minha felicidade. Em devoção. E quando ela vinha, sentávamos todos à mesa a comer. Eu. Ela. Meus anseios. E minha felicidade. Prontos para cenar. Mendicantes, demandávamos, à mesa: hoje, mãe, como foi? Na esperança de uma longa narrativa.

Quão mélicas suas histórias. Faustas e altissonantes. Encontros com grandes polvos e mulheres sereias. Aves e homens. Seu dia adia, ao contrário do meu, era pleno de peripécias. Múltiplo e singular. As muitas ditas e desditas ela resolvia de próprio punho. Fosse ventura com bicho, revés do mar, contingência na terra ou aborrecimento com homem. Ela sempre se solucionava. Dava-se conta e trazia pra mim, sempre, e pra compensar a sua ausência, uns pedaços de suas venturas na palavra. Palavra que sarava a dor de esperar, consertava os buracos da falta e tampava, naquele momento, a fissura que no dia seguinte ia ser aberta novamente, no horizonte da perda definitiva.

Ali, enredada em suas histórias, era possível esquecer. Não esperar mais e viver, um bocado, no agora. Cessada a refeição, na completude em própria sensação, deixava o gozo do há pouco anestesiar-me. Arrumávamos, juntas, naquela uma vez, a nossa cozinha e íamos nos deitar. Não era raro sonhar com seus relatos. Era mais comum ainda transformá-los em pesadelos. Na boca dela tudo soava sonho, mas no íntimo do meu sono se transformava em susto. E as figuras que frequentavam meu adormecer não se tratavam somente de monstros marinhos. Também a morte como corporatura me visitava. Não a minha, esta não, a dela, me assombrava a perder de vista. O horror enovelava as narrativas belas que desaguavam na morte dela. O grande fim pra mim. Também o mar me apavorava. Os homens. A felicidade. Tudo o que existia, da casa para fora. Tudo o que respirava, da casa para fora. Tudo o que nascia, olhava, andava. Tudo o que não era ela. Me amedrontava.

Havia noites em que o pesadelo era demasiado vívido. Aí também ela percebia e acordava. Ia até meu quarto e comigo se deitava. Criança pequena, ainda cabíamos as duas na mesma cama de solteiro. Sua chegada era o bastante pra conter a aflição que, afinal, consistia, na maior parte das vezes, na possibilidade de perdê-la. Mas eu fui crescendo, me alargando, os ossos, a pele, a musculatura. Então, nessas perturbações noturnas, em vez de deitar-se, sentava-se ao pé da cama, esperando passar. Não era o mesmo. Antes eu me acalmava fazendo coordenar a minha respiração à dela, tranquila. Ali, nos meus pés, não conseguia sentir mais seus batimentos cardíacos e, ao escutar os meus, entender que eu estava bem. Não funcionava estar sentada aos meus pés. Achei por bem dissimular. Fingia que sim. Fazia que dormia, que estava calma, que descansava. Pois assim eu a permitia voltar pro seu sono, bem como eu pros meus pesadelos.

De miúda à adolescência, passei o viver sob tal fortuna. Entre a espera, o deleite e a tormenta. Dentro de mim. E me alargava. Pensava: hei de crescer demais uma hora. Achando que o crescimento não tinha fim. Me preocupava às vezes até com o tamanho da própria casa, caso eu não parasse de aumentar. Se ia haver lã pra tecer tamanhos de roupa. Se ia haver sapato pra tamanho de pé. Se a cama ia se expandir. Que haveria?

É claro que uma hora o crescimento estagnou. Tive medo por um momento que voltasse, mas logo percebi ser definitivo. E ela também. Me observou toda, de corpo inteiro. Achou bonito o tamanho que eu estava. Parou do meu lado e disse: tá maior que eu, filha, maior que eu. Foi desse daí em diante que as coisas mudaram completamente.

Um dia, pouco depois deste último, ela não voltou com a tarde. Esperou amanhecer de novo para retornar para casa. O pesadelo saíra do sono pra ser existência e sua corporificação extinguia qualquer resto de sentido em meu descanso já cansativo: dormir e acordar indistinguiram-se, naquela madrugada. Passei dois dias sem noite, em seguida. Era como se ela dissesse, sem coragem de dizer: enfrenta. Depois duns tempos, passou três dias fora. Voltou encharcada, numa tempestade, como carregada por uma onda pra dentro da porta de casa. Não houve história, nem alegria, nem lágrima. Chegou-se e deitou a dormir. Encharcando também a cama. Passei o dia seguinte secando a casa. Dali cresceu e entendi  algum tipo de gravidade na situação. De três a cinco, dez dias, um mês. Também a essa espera eu me acostumara, como me acostumava ao que quer que fosse. A essa espera sem aguardo. Displicentemente atenta passava meus dias. Não mais cozinhava. Muitas vezes não mais dormia. Não sonhava sequer. Nem pesadelos. Trancava-me em mim a alimentar-me de pensamentos ruins. E só.

De acumulados os pensamentos ruins foi que a casa se tornara pequena, apertada, sem aconchego. Não era eu que crescera demais, mas as desventuras que abarrotavam os espaços. Também o meu peito se estreitara. Sofria agora de uma espera sem jeito de que as coisas voltassem a ser como antes. Mas era definitivo. Ter esperanças não adiantava. Não sabia mais onde pôr meu medo, guardava mal as expectativas, aprendera a chorar de dor.

Então saí, um dia saí eu também, logo de manhã bem cedo, atrás dela. Ao abrir a porta, ela estacou. Se encontrava diante de mim. De costas. Olhou pra trás. Sorriu, como quem já sabia. Em vez de entrar em seu bote, como fazia todos os dias, puxou a mim pela mão, gentilmente, e, sem me ensinar a remar, colocou-me lá. Uma vez lá dentro, ela fora, sussurrou em meu ouvido: sê caronte de si, menina, manda em sua desdita, que isso é o máximo que se pode fazer por si mesmo.

Fui-me embora acenando pra ela.

Aceno pra ela até hoje.



***



O TAXIDERMISTA

 

Aproveita-se, na verdade, muito pouco do animal. Há pouco vi. É difícil tirar-lhe a pele. Não sei por onde se começa. Ao certo. Não consegui ver por onde começa a tirar a pele do animal. Como se me arrancassem os olhos. Creio que o vi arrancando os olhos do animal primeiro, porque queria que aproveitassem os olhos dele. Que fizessem alguma coisa com os olhos dele. Já não sei. Acho que se fazem novos olhos. Falsos olhos pra colocar no lugar. Porque os olhos originais não podem ser aproveitados. Gostaria que aproveitassem melhor os olhos. Sei é que tiram toda a pele intacta e assim gostaria que fosse pelos furos dos olhos. Pelos furos dos olhos que começassem a arrancar-lhe a pele, entende? Num primeiro através. Desejaria que começassem pelos olhos.

Vê como a pele sai perfeita. O amor que ele tem por esta sala branca aqui. Ele pendura o bicho naqueles ganchos de açougue ali. Pela cabeça. Começa por aí mesmo. Você sabe que bicho é esse? Ele faz um pequeno corte com um bisturi delicado por onde começa a separar a pele da gordura. Gordura que prende a carne aos ossos e é branca, por isso combina com esta sala. É delicado o bisturi que rompe as ligações. Não se deve ameaçar a pele dele. A parte mais importante do animal para esse processo. Seria interessante que se aproveitasse da carne dos animais mortos. Não sei se a comem. Eu gostaria de comê-la. Para que a pele saia intacta e bonita. Para vestir assim o novo esqueleto falso mas perfeito. O falso esqueleto é a roupa que imortalizará os falsos olhos. Aqueles. Já não sei o que fiz com os olhos verdadeiros, se os escondi debaixo da manga da minha camisa para roubá-los. Olha, aqui embaixo da manga da minha camisa. Branca. Escorre um pouco de sangue, é verdade. Mas eu escondo bem. Não. O taxidermista vê e prefere que fique aqui mesmo. Não é verdade que ele se comove? Olha pros olhos dele. Se apieda de mim? Também posso te ensinar a ver os olhos dos outros. Este homem que ama a pele de todos os animais não ama a carne mais do que eu. Assim como você, ele consegue também ver o sangue que escorre das mangas da minha camisa e compreende que se trata de um pequeno furto, fruto da minha admiração por ele, e se apieda de mim. Ele não demorou pra entender o que aconteceu, você percebe? Logo viu meu gesto infantil de roubar os restos de seu trabalho, como você lambia escondido os restos de comida da colher que sua mãe usava pra cozinhar. Se apiedou de mim e talvez tenha se amigado da minha vergonha. Percebe nos olhos dele como ele me compreende?

No meio da operação assim como estamos, haja visto que já escalpelou metade do animal e sua pele se encontra pela barriga, você é capaz de ver os músculos, as fibras que compõem esses músculos e as gorduras que os ligam. Pequenos filetes brancos. Vejo eu agora que você não consegue esconder mais uma certa simpatia pelo animal. Assim metade da carne exposta, metade vida. Peço desculpas a você pelo ato infantil de tirar os olhos do bicho. Se não os tivesse tirado, mais vivo ainda estaria. Não lhe recomendo que chore e, por isso, aconselho também que não pense nele a correr ou a brincar, que não o imagine a amar outros animais, ou às sombras, que não o veja a descansar no pomar, a comer frutas. Mas que perceba neste animal tudo o que você não é. Que o compreenda em sua brutalidade e lembre-se da violência de que ele é capaz. Contraponha esta violência à delicadeza deste taxidermista. Olhe como esculpe enquanto escalpela. O quanto revela, no que era revestido de vida, a morte que sempre estivera ali. A pele esconde a morte, ele diz. Está te lembrando quanto ela esteve presente quando você sangrou ao se machucar e evidenciando por que você chorou.

Acho que você percebe como ele tem de violar o corpo com gentileza, ou então não saberá usufruir bem do animal. Você viu como teve de romper-lhe os ossos finos das pernas devagar, a fim de não lastimar a veste que lhe guarda a vida, mesmo depois da morte, e que vai servir pra guardá-lo no seu quarto depois.

 

 


 

Livro: Todo mundo quer ver o morto

Autor: Natália Zuccala

Gênero: Contos

Número de Páginas: 152

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete (Livro em pré-venda, entrega após o lançamento. Amigos e leitores de todo o país que realizarem a compra antes do lançamento receberão o exemplar autografado após o evento. Imperdível!)