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Carol Miag

CAROL MIAG

 

Carol Miag é tradutora, ilustradora, tatuadora e escritora. Soteropolitana de 13 de agosto de 78, descende de uma longa dança de caruaruenses com paulistanos. Cresceu entre 3 irmãos mais novos e com eles, pelas praias e urbes de Salvador, São Paulo e Fortaleza, aprendeu a compartilhar, brigar, deixar pra lá, rir da vida e criar. De tanto se mudar de cidade, casa, colégio, ideia, perdeu qualquer apego a lugares, pessoas e coisas, mas sempre tem saudade. Bacharelou em Letras e mestrou em Literatura e Cultura na UFBA. Mudou-se com marido e gatos para São Paulo em 2012, onde tem um estúdio de artes e tatuagem. Página: www.miag.ink / Instagram: www.instagram/miaginks2

 

Contatos:

 

 

Conheça 4 poemas do livro Planejo como vou carregar seu corpo, de Carol Miag:





Instruções para dobrar papel

 

Os dedos em oposição,
desnecessários quando se trata
da arte de dobrar a língua

Um papel fácil – obediente - até que
se pegue destreza
um papel nem muito poroso nem muito limpo
nem roubado, nem gasto demais
papel próprio, como se fosse o próprio nariz

Dobra-se papel para
simular/simbolizar/representar
a organização dos pensamentos
a diminuição contumaz dos aperreios
pegar  inimigo
conseguir casório
sair de luto
ganhar pensão
emprenhar
assinar contrato
tirar terçol
alinhar planeta
acalmar possessos
localizar chave
fazer desaparecer pessoa funesta
entre outros interesses

Com os dedos em natural oposição
dobre o papel na firmeza e na certeza
de estar dobrando papel
sem vacilar
nem pensar em outra atividade

Quando as dobras menores
estiverem quase com cara
de dobras maiores
refaça-as
para que aprendam
a lição de ser humilde

Se for para
conseguir/afirmar/reverter
qualquer dos itens supracitados
é recomendado
não olhar diretamente para
as dobras
sempre de canto
ou do jeito que você olha quando diz uma verdade

Finalize colocando o artefato
em qualquer lugar em que
se designe entulho/bagunça/invasão
para que a energia de
posse/sorte/vingança/  
circule/estagne/viceje



***



Tattoo velha e ressecada

 

Poderia ter esse dia
de não morrer
seria o dia além-da-vida
o dia além-da-espera-estranha
que constrói os tecidos entristecidos
de nossas esfinges sozinhas

poderia ter esse dia de não morrer
de você sorrindo para sua verdade aérea
de você pausado em sua própria música
de você não hesitar e apenas saber

que não há mais esse dia de morrer
que tudo persiste numa condição
o fragmento inalterado dos nossos
tempos
2mm impressos em nossas peles



***


Sleepyhollow

 

Para quem dormiu no sofá da Pituba



Essa carta é pra ler quando estiver dormindo,
a hora da sua abertura máxima

Enquanto isso, planejo como vou carregar seu corpo
da sala até o quarto
Se eu fosse uma formiga
Ou um escaravelho
Ou uma pulga

Você está dormindo e vou ter que te carregar,
e me acostumo com sua condição mineral
– sou atraída por seu semblante de esfinge, procuro as melhores perguntas:
“será que você vai vir aqui novamente?
Será que é isso mesmo, a gente vai dar certo,
pela última vez?”

E você, prisioneiro do farol plenilúnico,
deveria me dizer a verdade,
sobre
coisas que me devoram à noite,
enquanto você dorme tropical

Responda de olhos fechados
Enquanto isso, vou tentar te colocar na cama,
deve haver um jeito
de uma pulga carregar um lobo.



***




Secretariat

 

 

Meu cavalo dura muito bem
sob todas as chuvas
de todas as lidas
ele é dissidente dos brutos
mastiga o tenro impossível

meu cavalo passa com fome
é batizado
no mistério imutável
da água do rio avesso
movido pelos esquecidos

meu cavalo sabe durar
sabe escolher
quem
onde levar

meu cavalo é manco
mas sabe cantar baixinho

meu cavalo sabe muitas coisas,
não é burro não,
esse cavalo.

 


 

 

Livro: Planejo como vou carregar seu corpo

Autor: Carol Miag

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 100

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete