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Alessandro Romio

ALESSANDRO ROMIO

 

Autor do livro O Jardim Nunca Foi Tão Bonito Quanto Agora (Patuá, 2017), Alessandro Romio nasceu em setembro de 1975. Virginiano sinistro, desses que escrevem e desenham com a mão esquerda. Formou-se em produção editorial no século passado e desde então trabalha com publicidade, ilustração e design gráfico. Escreveu fanzines que não foram publicados, foi blogueiro nos primórdios da internet e letrista de uma banda de rock que não aconteceu. Mora no centro de São Paulo desde 1999, vindo de Osasco. O Jardim Nunca Foi Tão Bonito Quanto Agora é seu livro de estreia.

 

 


Conheça 5 poemas do livro O jardim nunca foi tão bonito quanto agora, de Alessandro Romio:

 

o fantasma do teu nome incompleto
naufraga na ponta da língua
o desembrulhar do papel de bala quase um trovão
a estrela negra absinto um terço de saliva amarga
é o que cola uma palavra em outra você pensa
sorrir deve ser mais do que enfileirar os dentes
na ordem correta você pensa
não quebra nem dissolve
uma ilha dentro de uma caverna
e uma garganta capaz de engolir um abismo
o papel de bala é um pedaço de sol amassado
e o que eu quero lhe dizer
é quase o fim do mundo
feito sobrenome

 

***

 

chegou minha vez finalmente finalmente
digo adeus aos podres dentes chegou minha vez
de usar a dentadura do destino
o sorriso há de ser mais que bonito divino
iluminado lustroso cativante
de agora em diante vou tomar a sopa das galáxias
de uma só colherada o turvo caldo estrelado
há de me deixar aquecido há de me deixar animado
o hálito do verdadeiro mister universo será o meu
o sorriso definitivo será finalmente o meu
agora que eu tenho a derradeira dentadura do destino
e posso saborear a sopa das galáxias que esses dentes
foram feitos para mastigar planetas constelações supernovas
e os pedaços de estrelas que ficarem nos vãos dos dentes
hão de abrilhantar o sorriso e mentem os invejosos
afirmo não haver nenhuma cárie no sorriso imaculado
o pontinho preto é apenas um burac• negro
e há de sugar toda luz do ambiente
quando eu definitivamente sorrir

 

***

 

gosto da luz do sol pela janela ao amanhecer
mas prefiro a tempestade lá fora enquanto durmo
o cinzeiro ultimamente anda tão vazio
não sei se a gasolina vai dar para chegar
e espero que não seja minha culpa
gosto de apostar em cavalos
mas prefiro não apostar em cavalos
passo por um novo trânsito astrológico
perco as coisas pela casa
perco teu nome nos lábios de outro
e espero que não seja minha culpa
gosto quando deus estende a mão
e me guia até o outro lado da rua
mas prefiro quando o diabo estende a mão
e me tira para dançar girando e girando  
no sentido contrário ao do mundo  
(...)
e espero que não



***

 

o sol depois de morto posto à mesa
como uma fruta em decomposição
não parece tão grande agora tão iluminado agora
e tudo se despede
em um abraço gelado agora
é o último dia é a última ceia
o anfitrião parte o sol ao meio
e os convidados se debruçam
sobre o cadáver da estrela
todos curiosos para enxergar
o avesso daquilo que cega
e eu não consigo deixar de reparar
nas unhas sujas anoitecidas
as mãos sujas a despedaçar
o último astro que reinou no céu
alguém comenta que a causa
provável da morte foi o silêncio
que existia antes de tudo
e por um instante eu me pergunto
se o sol está morto como estamos nós
mas é o último dia a última ceia
e ninguém recusa um pedaço
da estrela morta todos querem provar
o gosto do sol depois de morto
(...)
e no jardim do necrotério
a serpente desenha um círculo
e a última árvore em chamas
se apaga

 

***

 

quem guia tuas noites
de cavalos a relinchar atrás da cortina
do quarto do quarto que se afasta
da janela onde o sol encarcerado emudece
quem guia teu quarto cama barco
quem responde tua prece
é o lobo a uivar na esquina
ou o diabo a pesar no teu ventre
quem guia tuas noites minha menina
do quarto do quarto que naufraga
na turva água onde o tempo é outro
quem responde tua prece
se o silêncio de deus é muito
e o que o diabo oferece
é pouco

 

 


 

 

Livro: O jardim nunca foi tão bonito quanto agora

Autor: Alessandro Romio

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 76

Formato: 14x21

Preço: R$ 30,00 + frete