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Rosângela Vieira Rocha

ROSÂNGELA VIEIRA ROCHA

 

 

Rosângela Vieira Rocha nasceu em Inhapim, MG. Tem onze livros publicados, quatro para adultos e sete infantojuvenis. Recebeu vários prêmios literários, entre os quais se destacam o Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG-1988, com o romance Véspera de lua, e a Bolsa Brasília de Produção Literária 2001, com a novela Rio das pedras. Participou de várias coletâneas de contos, entre as quais Mais trinta mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira. Além de escritora, é jornalista, mestre em Comunicação Social, bacharel em Direito e professora aposentada da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília - UnB. É colunista de duas revistas culturais e literárias digitais. Ministra oficinas de textos e de literatura, além de palestras.

 

Contatos:

 

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Rosângela é da estirpe das escritoras que não oferece salvação de natureza alguma a seus leitores. Sem fazer alarde, a cada livro conquista um público leitor mais apaixonado e reafirma o seu talento de investigação com mão firme. Em “O sentido indizível do amor”, ela escava a terra devastada e retira a pedra bruta, apresentando-a já inteiramente lapidada.”

Lima Trindade



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Basta ler a primeira página para saber que estamos diante de uma grande e madura escritora, alguém que conhece e já não teme a força das palavras que podem “fazer vir à tona lodo antigo, tocar em cortes alheios” ou revelar sentidos e, por fim, apaziguar. Mas sabe também que as palavras nem tudo podem traduzir, e o indizível só pode ser adivinhado escutando-se longamente o silêncio.
[...]”

Maria Valéria Rezende






I.


Eu tenho um sonho, um desejo, uma necessidade, uma urgência, quase uma obsessão. Preciso encontrar uma pessoa para eu conseguir terminar essa história, escrita às avessas, de trás para frente. Ou talvez fique melhor assim: preciso encontrar uma pessoa para fechar uma ferida, diminuir esse peso que me dobra os joelhos, retirar esses dedos de ferro que me apertam a nuca, faxinar a minha carne, limar os meus ossos, untar as minhas cartilagens, alvejar a minha alma, alcançar um fiapo de paz.


Adiei o mais que pude esse encontro, pois nunca vi o homem e ele mora em outro país. Hesitei também por constrangimento, medo de não ser bem recebida, receio de invadir sua privacidade, fazer vir à tona lodo antigo, tocar em cortes alheios, de profundidades e extensões ignoradas. Cheguei a desistir da ideia, tentei dar o caso por encerrado, mas ela sempre voltava, sorrateira, minando minha resistência e pondo por terra o pequeno edifício defensivo erguido com diligência e meticulosidade.


O que antes havia sido um segredo resolvi contar aos amigos mais próximos, possivelmente em busca de estímulos. Até que todos começaram a perguntar se eu já tinha comprado as passagens para Portugal e a data da partida. Intencionalmente ou não, eu mesma criei a minha própria armadilha. Agora, é ir ou ir. Sem alternativas.


A hesitação, a pesagem dos prós e contras durou uns dois anos. Fui fazendo o que podia, tentando me convencer de que a viagem não era imprescindível e que eu poderia dar conta, sozinha, de uma interpretação capaz de me apaziguar. Mas depois percebi que não, eu precisava saber a verdade, queria conhecer melhor a juventude de José e o que realmente lhe ocorrera na prisão, durante a ditadura militar. Desejava ter uma imagem mais completa dele mas faltavam-me informações de um tempo em que ainda não o conhecia.


Além disso, descobri que o homem com quem preciso falar está com oitenta e seis anos e tem sérios problemas de saúde. Recentemente fez uma cirurgia e passou meses na UTI, teve septicemia, e se recuperou. Alguém me alertou sobre a urgência da viagem. Ah, o tempo, me disseram, cuidado com ele. E se depois fosse tarde demais?


Comecei a fazer uma contagem regressiva. Percebi que minhas chances de conhecê-lo diminuíam a cada dia que se passava (tenho a mania de riscar os dias no calendário de mesa). A protelação tornou-se cada vez mais difícil, imprudente, quase temerária. Certa madrugada, acordei de um sono horrível, cheio de pesadelos, e obriguei-me a ver os preços das passagens. E então não parei mais - de uma só vez, para não perder a coragem, fiz os contatos necessários, comprei os bilhetes e reservei um hotel em Lisboa.


Cuidei dessa viagem de modo tão ansioso e frenético que parecia nunca ter saído da cidadezinha onde nasci. Olhei dezenas de vezes a previsão do tempo e do clima em Lisboa, arrumei e desarrumei a maleta, amarrotei as roupas e as passei. Rezei o tempo todo, consultei o I Ching diariamente e vários tipos de tarô que tenho em casa. Nenhuma resposta me satisfez por que eu realmente não sabia se devia ir ou não. Pensei seriamente - de novo - em desistir, mesmo depois das providências tomadas. Mas faltou-me a força necessária para tanto.


Durante o voo, não durmo. O homem ao meu lado ronca feio e alto como um rinoceronte. Quase todos dormem, mas a minha é a sina dos insones. Vejo três filminhos medíocres, tento ler mas o roncador acorda e me olha de maneira tão feroz que apago a luz. Esses voos noturnos nas cadeiras apertadas da classe econômica são assim. Ainda bem que meu assento é no corredor e não tenho que saltar o dorminhoco para ir ao lavatório.


Mais cansada que o habitual, chego a Lisboa de manhã bem cedo. O que representa um problema, pois não é possível ocupar o quarto do hotel antes da duas da tarde. Mesmo assim pego um táxi, sem ânimo, carregando uma mala e um notebook - que hesitei em trazer por causa do peso - e espero pacientemente na recepção, sentada numa poltrona. Para minha surpresa, uma funcionária resolve colaborar e surge um quarto vago antes do meio-dia.


Ansiosa por um banho, me atrapalho com as torneiras e acabo inundando o piso do banheiro. Tenho muita dificuldade para entender como abrir e fechar torneiras, fechaduras, portas, janelas, persianas e regular aparelhos de ar-condicionado. Geralmente me atrapalho, machuco os dedos. Na busca pela sofisticação e pela aparência de modernidade, cada canto do amplo apartamento possui um sistema diferente de acender e apagar luzes. O único jeito é chamar a camareira, o que sempre hesito em fazer, por timidez e vergonha da minha ignorância.


Tento esticar o corpo, mas as cãibras nas pernas me incomodam. Abro a janela para ver a paisagem, o céu está escuro, chove e faz frio. Calço meias compridas de lã, me deito de novo e começo a ler. Só depois me lembro de que há horas não como nada. Faço um esforço e me obrigo a vestir roupas de inverno, pego uma sombrinha emprestada na recepção e vou ao shopping vizinho ao hotel, em busca de algo para comer e de um chip de uma empresa local para o telefone celular.


Sinto-me meio desnorteada olhando as vitrines, com a sensação de que ninguém seria capaz de entender a razão de eu estar ali, naquele momento. Compro chocolates, chicletes, ninharias. Não estou interessada em objetos, em nenhum objeto. Nem mesmo livros, que sempre foram a minha paixão, me atraem. Folheio o último lançamento de um autor português de quem gosto muito, mas o recoloco na estante. Entro e saio de duas livrarias como se nada ali me dissesse respeito.


A temperatura cai alguns graus e volto ao hotel. Por causa do ar-condicionado indecifrável, cujo funcionamento não consegui entender nem mesmo com a explicação da camareira, rápida demais para os meus neurônios, o quarto está gelado. Desligo o aparelho e calço mais um par de meias. Está quase anoitecendo e simplesmente não descansei nada.


Ligo para a casa do homem que preciso encontrar. Não consigo falar e deixo recado na secretária eletrônica. Ainda bem que levei o notebook, mas a única tomada onde posso ligá-lo fica no cantinho do quarto e tenho de me sentar de lado, numa posição incômoda. Resolvo digitar o nome dele no Google, o que nunca tinha feito no Brasil. Há uma série de matérias jornalísticas e vídeos de entrevistas. Começo a ler o material, assisto a alguns vídeos. Ele é português, mas fala muito de sua experiência como militante político no Brasil, onde chegou como padre católico, em 1957. No Maranhão, foi professor universitário, além de vigário de subúrbio. Ajudou a organizar o movimento camponês do Norte e Nordeste. Em 1962, por questões ideológicas, desligou-se da Igreja. Preso pela ditadura em um subúrbio carioca em 1970, ficou nove anos em seis cadeias diferentes. Passou por torturas indescritíveis no DOI-CODI, DOPS e em todas as prisões onde esteve.


Li há anos "Resistir é preciso", livro de sua autoria publicado no Brasil em 1981, prefaciado pelo jornalista Barbosa Lima Sobrinho, em que ele narra suas experiências dessa época. Mas as matérias que encontro em Portugal são mais recentes e muito mais vivas. Ouço a música feita em sua homenagem por Zeca Afonso - compositor popular, grande nome da resistência portuguesa, morto há duas décadas e ainda hoje muito querido no país.


Não percebo a passagem das horas, entretida com a riqueza do material encontrado. Como trouxe o exemplar do livro, releio o capítulo dedicado à Colônia Penal ou Ilha Grande, também chamada naquele tempo de "Ilha do Diabo", onde o nome de José é mencionado algumas vezes.


E de repente, tudo se encaixa. O que tinha sido uma suspeita vai se metamorfoseando em certeza. Só consigo pensar em José. Como até hoje não tinha entendido?


Exausta, tento dormir um pouco e sonho com José amarrado na "cadeira do dragão", nome criado pela tortura institucionalizada para denominar uma "técnica" em que a vítima era obrigada a se sentar numa dessas cadeiras grandes de ferro usadas em jardins e, depois de amarrá-la, jogavam-lhe água por cima. Os fios eram ligados ao corpo e à cadeira. Os choques elétricos a atingiam de todos os lados e não se sabia de onde vinham, se da cadeira ou dos fios ligados ao corpo. Desesperada, ela queria jogar longe a cadeira, mas era impossível. Depois levam José para o "pau-de-arara", com as mãos e os pés amarrados, e a sessão de eletrochoques continua. Ele desmaia e é jogado no corredor, entre as celas. Em seguida o reanimam com baldes de água gelada, colocam-no de pé à força e tem início o que cinicamente eles denominavam de "roda de caratê", em que vários torturadores o jogam de um lado para o outro desferindo-lhe golpes e pontapés. José desfalece novamente.


Acordo gritando e chorando alto, sentindo um horror e uma tristeza tão imensos que me encolho na cama tremendo, em posição fetal, e choro durante horas. Finalmente sei o que aconteceu com José, a revelação inunda de uma só vez a minha consciência. Como a verdade não me ocorreu antes, com essa clareza tão certa? Por que esse sonho demorou tanto?


Antes das nove da noite a mulher me telefona, convidando-me a almoçar com eles no dia seguinte. Ainda estou meio perplexa, mas me esforço para parecer normal. A conversa é rápida, falamos apenas do endereço do restaurante e do horário.

Engulo um calmante sem água mesmo mas não consigo dormir, pela segunda noite consecutiva. Acendo a luz e percebo, consternada, que nada pode iluminar esse quarto, mergulhado na mais funda escuridão. Só consigo enxergar o horror, é como se eu estivesse assistindo às sessões de tortura, posso ver tudo de uma só vez, acontecendo ali, naquele momento e na minha frente, tudo que esteve tão presente o tempo todo e só eu parecia não me dar conta. É impossível parar de chorar diante de algo tão brutal.

 

Amanhece e tento despistar as marcas no rosto com chumaços de algodão embebidos em água gelada, deixo-os alguns minutos nas pálpebras, mas não surtem nenhum efeito. Tomo um banho morno, lavo os cabelos, me ajeito da melhor maneira possível. Desço para o café da manhã, tão farto e variado que me provoca náuseas. Forço-me a beber pelo menos uma xícara de café com leite com uma fatia fina de bolo. As lágrimas teimam em cair, como se tivessem vida própria e não saíssem dos meus olhos, mas respiro fundo e não deixo. Aqui, não.


Sinto-me uma figura estranha, completamente estapafúrdia em meio aos grupos ruidosos de turistas jovens, que se servem repetidas vezes do que mais detesto no café da manhã: linguiça frita, enormes pedaços de bacon, ovos mexidos, salsichas, frituras aceboladas. O rapaz da mesa vizinha pede um suco de tomate, com bastante sal e pimenta. Para o meu paladar, alimentos salgados de manhã caem sempre mal, são excessivos, agressivos, intoleráveis. Não consigo dar conta. Meu café sempre foi frugal, desde menina. Sou a única pessoa sentada sozinha numa mesa dentro do enorme e cheio salão. O fato em si não me preocupa, apenas o constato, indiferente.


Tenho absoluta certeza de que sou a única também que acaba de atravessar o mar em busca de fatos que ocorreram há mais de quarenta anos. É a quinta vez que venho a Lisboa, conheço boa parte de seus museus e monumentos, mas a cidade sempre oferece algo novo para ser visto. Gosto muito da brancura de seus prédios, de suas praças e de suas belezas, sobretudo das mais recônditas. Lisboa não é misteriosa mas é recatada, não se expõe desnecessariamente, há que sorvê-la sem nenhuma pressa. Mas dessa vez meu interesse é outro, não estou aqui para fazer turismo. A cidade não me emociona como antes, movida que estou por outros anseios.


Subo para o quarto e, indecisa, começo a escolher a roupa que vestirei para o almoço. Daí a pouco ela me liga, dizendo que os planos mudaram. Seu marido não está se sentindo bem e o almoço será meio improvisado, no apartamento deles mesmo e não mais em um restaurante. Desliga logo, afobada.


Minha arrumação não rende, estou confusa, fico horas vestindo e trocando de roupa, nenhuma me parece adequada para a ocasião. Apesar do frio, estou acalorada e ligo de novo o meu eterno inimigo, o ar-condicionado. Pelejo para me concentrar na leitura, mas me sinto imprestável para qualquer atividade. Permaneço sentada, olhando o relógio a cada instante, até chegar a hora marcada. Desço e logo estou dentro de um táxi, com o papel onde anotei o endereço do casal. Mas ele se tornou desnecessário, pois já o decorei.

 

 

 


 

 

Livro: O indizível sentido do amor

Autor: Rosângela Vieira Rocha

Gênero: Romance

Número de Páginas: 200

Formato: 14x21

Preço: R$ 45,00 + frete