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Vinicius Varela

VINICIUS VARELA

 

vinicius varela foi concebido no brasil, mas sua mãe passou a gravidez no uruguai e aos 6 meses teve um sonho de que seu filho queria ser brasileiro. aos 9 meses de gravidez sua mãe viajou de ônibus para o brasil e deu à luz à palavra vinicius, dia 31 de julho de 1993. aos 45 dias de nascido, contudo, vinicius viajou para o uruguai, sendo atravessado em uma bagagem de mão e, entre idas e vindas, só veio morar de vez no brasil aos 7 anos. recebeu o nome vinicius devido a paixão de sua mãe pelo poeta vinicius de moraes. foi criado no uruguai numa rua chamada rubén dario, poeta modernista da nicarágua. na rua onde passou a segunda infância, já no rio de janeiro, acompanhava de longe os passos do poeta ferreira gullar muito antes de saber o que era poesia. um senhor encurvado e silencioso que passava pela rua enquanto vinicius fazia companhia ao pai, no ponto de taxi. nasceu no brasil, mas suas primeiras palavras foram em espanhol. teve seu primeiro conto publicado em livro (“ubuntu”) na antologia “clube da leitura vol III” (Oito e Meio, 2015), ficou em segundo lugar no prêmio carlos drummond de andrade, com seu conto “fotogramas”, a antologia do prêmio foi recém publicada (Selb, 2016). há relatos de pessoas que juram tê-lo visto em palcos do rio de janeiro, imitando a vida no teatro. fazendo um elfo, um morto, um pirata, um personagem bíblico e um menino especial. aos 23 anos comprou sua primeira câmera fotográfica, segundo ele um brinquedo para capturar fantasmas, e escreveu são poucos os homens que ainda acreditam em baleias, seu primeiro livro de poemas. para escrevê-lo quase virou comida de peixe.

 

Contatos:

 


Conheça 5 poemas do livro São poucos os homens que ainda acreditam em baleias, de Vinicius Varela:

 

 

Só Exu expulsa o Malafaia das pessoas.

(fragmentos)


A aparência real da coisa é aquela que provoca encantamento, é o único modo de dizer a coisa, de lembrá-la. A maravilha é uma memória afetiva. Tornar as coisas ordinárias é a melhor forma de esquecê-las.

 

 

Afagar o impossível até que ele possa nos tratar com ternura.

 

 

Nossa mediunidade é saber chegar ao outro, precisamos ser capazes de nos incorporar uns nos outros. Hei de cantar o ponto que fará você baixar em mim. Hei de fazer a prece que fará você ser eu. A única oração: o poema.

 

 

Os poetas mortos são oráculos a ser consultados apenas. Não tenha medo de interpretar a mensagem. Os textos dos mortos devem ser profanados. Pelo saque aos túmulos.


A história da literatura é uma ata de eclipses.

 

 

Eliminar a superficialidade da forma, do amor, do discurso vazio, da palavra dita sem intenção, da falta de presença, até que só reste o milagre.

 

 

Já disseram que amor é tanta coisa que ele acabou sendo nada. Mal contemporâneo. Se tiver que dizer poesia, já não é. Se disser nosso nome, já não somos. Use todos os recursos necessários ao encantamento, para que a revelação aconteça.

 

 

Fomos alfabetizados pela lua cheia.



A epifania no poema frequentemente é anunciada por lágrimas. Ser poeta é apenas um instante. No resto do tempo só contagem de estrelas. Clamamos pelo instante, nosso lugar de existência. O efêmero é nosso guru. A lágrima: aplauso do coração. Nossa medida de recepção são esses aplausos cristalinos dos olhos. É por isso que escrevemos o poema não pelo poema, mas pelo silêncio depois dele.

 



Somos uma asa cortada: nossa literatura convence os anjos a que fiquem. É necessário escrever o poema que vai conquistar o coração de um anjo e fazê-lo se reproduzir na terra. Nossa literatura é pé no chão, mas a Terra está suspensa no mistério.

 

 

 

a primeira profissão do mundo é

de mergulhador



estar no mar é como

voltar à barriga da mãe.

no mar sempre se está

por nascer. o sonho vem

desde pequeno, não é de

grande que nasce. o mar

é de antes ainda. há

mistérios prendendo a

respiração apenas. não

subestime a capacidade

pulmonar daquilo que

você não entende. lição

da apneia: prender a

inspiração (poética) nos

pulmões. a baleia sabe

morrer por duas horas

antes de voltar à

superfície.

 

***

 

desdobramentos de um homem origami

 

sinto como se não pudessem

me fazer mal algum

estes seres manuscritos

abandonar Tsurus pela cidade

é minha oração

só eu sei o abre-te, sésamo

da garganta de papel

talvez se precise muito mais

que mil Tsurus

para ter um desejo realizado

pelos deuses

a felicidade se parece com

o desequilíbrio perfeito

de um kouchi gari

 

 

***


são poucos os homens que ainda

acreditam em baleias

 

a vida de súbito revela coisas como

baleias capazes de engolir os dias.

nada além de pensamentos

fosforece, a úvula no teto. dentro

da baleia o amor está distante de

possíveis ataques, seguro nunca.

trocar a lâmpada da garganta. o

canto das baleias é lindo porque o

amor é, uma promessa. não fosse

assim não me traria paz alguma.

são poucos os homens que

entendem cantos. menos ainda, os

que acreditam em baleias. pouquís-

simos. ser comida de peixe é

apenas o princípio. somos ar nos

pulmões da baleia. este sopro

subindo pelas narinas como um

gêiser. o mar dentro da concha

quando posta ao ouvido. somos um

segredo que a baleia guarda a sete

mares.

 

***

 

como pescar a luz



a força que um peixe faz para

voltar a águas profundas quando

morde o anzol versus a força

necessária para tirar um peixe

d’água não igualam o poder de

um nascimento. caçadores

primitivos acreditavam ser

grande honra comer o coração da

caça, mas ninguém pode com o

coração do mar. a baleia guarda a

memória do antesmundo. alguns

marinheiros nunca são pescados e

certos peixes jamais naufragam.

meu pai viu uma luz na garganta

da baleia e foi abocanhado pelo

mistério.

 

 


 

 

Livro: São poucos os homens que ainda acreditam em baleias

Autor:
Vinicius Varela

Gênero:
Poesia

Número de Páginas:
120

Formato:
14x21

Preço:
R$ 38,00 + frete