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Leonardo Antunes

LEONARDO ANTUNES

 


Leonardo Antunes, autor do livro João e Maria: Dúplice coroa de sonetos fúnebres (2017), é poeta, tradutor e professor de Língua e Literatura Grega na UFRGS. Nasceu em São Paulo, em 1983, e fez graduação, mestrado e doutorado na USP. Em 2012, publicou sua dissertação de mestrado, Ritmo e sonoridade na poesia grega antiga: uma tradução comentada de 23 poemas, em que traduziu uma coleção de poetas gregos antigos, como Safo, Anacreonte, Arquíloco e Píndaro. Atualmente trabalha em uma tradução rítmica e musicada para o Édipo Rei, de Sófocles, e na edição da poesia completa de Anacreonte e dos Hinos Homéricos.

 

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Prefácio


A coroa de sonetos é uma espécie de ciclo de sonetos, cujos poemas, além de tratarem de temas correlatos (ou de desenvolvimentos de um mesmo tema), observam ainda outras regras de composição entre si. A coroa parece ter sido criada durante o século XV, porém os textos dessa época não sobreviveram até nosso tempo. A primeira descrição formal do gênero se encontra no livro L’Istoria della volgar poesia, de Giovanni Mario Crescimbeni, publicado em Veneza em 1731.


Durante o Barroco, a coroa foi empregada, entre outros, por John Donne, em seus Holy Sonnets (escritos por volta de 1610), na abertura intitulada La Corona, em que sete sonetos são apresentados em sequência, cada um começando pelo último verso do anterior (e o primeiro soneto, pelo último verso do último soneto).

Em seguida, na Renascença, foi criada a forma pela qual a coroa é mais comumente empregada ainda hoje. Nela, quatorze poemas se sequenciam pela mesma lógica (cada um começando pelo verso com que o anterior terminara), adicionando-se ainda a necessidade de que esses quatorze versos, que iniciam cada um desses poemas, ao serem postos em ordem, formem um novo soneto (às vezes elencado como o primeiro, às vezes como o décimo quinto do ciclo). A esse tipo de coroa, dá-se o nome de coroa heroica. Por vezes, adorna-se o soneto-base (composto pelo primeiro verso de cada um dos quatorze sonetos) ainda com um acróstico.

Entre os que praticaram a forma em nossa língua, vale destacar a presença de Luiz Alberto Moniz Bandeira, Jaci Bezerra, Paulo Camelo, Geir Campos e Glauco Mattoso.




Conheça 2 poemas do livro João e Maria: Dúplice coroa de sonetos fúnebres, de Leonardo Antunes:





A coroa de João


Ninguém soube o motivo ou a razão
No dia em que João chegou cansado,
Depois de um turno duplo e um baseado,
Trazendo um trinta-e-oito em sua mão.

Não era o que esperassem de João,
Um moço sempre tão bem-comportado,
Avesso aos maus costumes e ao pecado,
Assim como se espera de um cristão.

Entrando em casa, foi de sala em sala
A fim de despedir-se dos parentes –
Da mãe, da avó e da irmã recém-nascida.

Então, depois dos beijos, veio a bala:
Cravou-a à própria testa, penitente,
João com seu revólver suicida.



***


A coroa de Maria

 

Maria trabalhava todo dia
Num açougue nos fundos do mercado,
Cortando bifes, embalando o gado,
Pondo em bandejas a mercadoria.

Depois, a noite toda então Maria,
Secretamente, dentro de um sobrado,
A fim de completar seu ordenado,
Vendia as carnes para a freguesia.

Chegando aquela vez do expediente,
Seu marido encontrou-a entrelaçada
Nos braços de outro sobre a cama, nua.

Quebrou-lhe três costelas e dois dentes
Antes que ele fugisse pela escada.
Depois linchou Maria em plena rua.

 

 


 

 

Livro: João e Maria: Dúplice coroa de sonetos fúnebres

Autor: Leonardo Antunes

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 80

Formato: 13x19

Preço: R$ 40,00 + frete