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Carla Andrade

CARLA ANDRADE

 

Autora do livro de poemas Caligrafia das nuvens (Patuá, 2017), Carla Andrade é mineirinha de Belzonte. Tem três livros publicados: Conjugação de Pingos de Chuva (LGE), Artesanato de Perguntas (7Letras) e Voltagem (7letras). Participou de diversas antologias poéticas como na Escriptonita: pop-esia, mitologia-remix & super-heróis de gibi (Patuá), Fincapé, Contemporâneas (Vida Secreta), além de ter poemas publicados em várias revistas de poesia contemporânea: Mallarmargens, Germina, a portuguesa InComunidade, entre outras.

Está em Brasília desde 2000, e atua como jornalista e poeta. Inquieta e arteira, herdou um grande talento da tradicional família mineira: a arte de boiar e atravessar pinguelas.

 

 

Contatos:

 

 

Conheça 5 poemas do livro Caligrafia das nuvens, de Carla Andrade:

 

 

Moinho



Se amanhecer:
o prato esmaltado
e o sangue depenado
em cova rasa,
a galinha mais lenta.

As linguiças enforcadas
expostas por seus crimes
no estandarte da cozinha,
o porco mais gordo.

Lambança do chiqueiro,
a lavagem – cevada de
bicho de pé, berne, barbeiro,
sanguessuga.

A descontinuidade da vida
resolvida no erotismo do moinho,
no gozo exterminado do moedor.

A violência da roça.
É disso que preciso.


***

 

Tamborzinho


Depilação.
Ela cobrou mais barato porque
me machucou.
Calcinha vermelha para substituir a outra
vermelha furada. Foi barato.
Livro do Henry Miller que seu tio
me emprestou.
O sotaque da Karina Buhr.
A gente curtia.
Comprei o rapé da tribo indígena
que você disse. Dava onda.


Você não veio.

Eu desmilinguida.
Ainda sentada no cajón
que você pintou
e achou fera.

Não sei batucar.



***


Atentados


Tudo vai continuar igual:
a base da Dior não vai escorrer
a luz de natal vai piscar
você vai dividir seu post
o arame farpado vai cortar
ela vai fingir que gozou
ele vai recolher as roupas no varal
a expectativa vai borrar a ilusão
ela vai fazer sabão de gordura
seus ossos serão ossos
e meus olhos passarão.



***


Ontem

 

Cuidado com o pecado
de favos de gente feliz
em dias sombrios.

As reuniões
com música e dança
é como a venda do trono de Pedro
nesse dias sem brio.

Para muitos, poucos,
o afear epilético dos beijos
que ainda damos
é um insulto tísico.

Em tempo de pedregulhos
de tantos estupros
sorrir com dentes
é indulto bíblico.

Poucos
se transformando em muitos,
equilibrados nas antenas das tevês,
cobram as escamas de qualquer defunto.

As taças na mesa
a anestesiar a carne
é corte profundo.
Escafandro.

A romã coroada
cravejada de gotas de chuva
emoldurada pelo verde mais verde
deveria sentir vergonha da
andarilha que sangra
em luto.

Vozes de Mussolini ao fundo
auto falantes
preparam as falanges.

Vencer a imigração
não é mais pular o muro.
E torço para os náufragos na África
redescobrirem um novo mundo.

 

***

 

24 horas


Viajo duas encarnações:
invento outro signo
outro planeta
mais um elemento na tabela periódica
fabrico mais glacê
nossa colcha de retalhos
esqueço o conhecido
lanço perfume da ponte
e te vejo no fim do dia.
A ciência ainda existe?


 


 

 

Livro: Caligrafia das nuvens

Autor:
Carla Andrade

Gênero:
Poesia

Número de Páginas:
108

Formato:
14x21

Preço:
R$ 38,00 + frete


Está em Brasília desde 2000, e atua como jornalista e poeta. Inquieta e arteira, herdou um grande talento da tradicional família mineira: a arte de boiar e atravessar pinguelas.