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Ricardo Soares

RICARDO SOARES

 

Autor do romance Amor de mãe (Patuá, 2017), Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Publicou 7 livros desde o remoto Invenção da Supresa (poesia, 1982) ao infanto-juvenil (O Brasil é feito por nós?, na 20ºedição) ao romance Cinevertigem (Record, 2005). Foi um dos criadores do grupo Poetasia que no final dos anos 70 sacudiu o jovem cenário poético com chuvas de poemas, organização de antologias e recitais. Em quase quatro décadas de atuação na mídia exerceu funções muitas em rádios, televisões, jornais e revistas. Dirigiu 12 documentários para televisão e durante 8 temporadas escreveu, dirigiu e apresentou os programas Literatura e Mundo da Literatura. Foi um dos fundadores, primeiro apresentador e redator do programa Metropolis, da Tv Cultura-Sp. Autor de duas peças teatrais, também foi diretor de conteúdo e programação da EBC (Empresa Brasil de Comunicação) e repórter especial dos jornais O Estado de S.Paulo, Jornal do Brasil e Diário do Grande ABC.

 

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Leia o Posfácio do livro Amor de mãe, de Ricardo Soares:

por Manoel Herzog




O doutor vienense pintou a tela mais completa sobre o tema. À sua paleta recorreram de Almodóvar a Sófocles, passando por Camus. Apenas Sófocles é anterior ao pai da psicanálise; o cineasta espanhol nasceu dez anos após sua morte, e mesmo O Estrangeiro foi escrito três anos depois. O velho Sigmund, contudo, os antecipou de alguma forma.

Contemporânea à passagem de Freud pelo planeta foi a de Máximo Gorki, que tratou da maternidade a partir de um conceito marxista, social, coletivo. A mãe de sua monumental obra é a de todos os proletários, é a mãe da Revolução, ou a própria Revolução.

O catolicismo se apropria do mito através da Virgem, mãe que gerou sem conhecer pecado. Por curioso, seu antípoda cristão, o neopentecostalismo, execra a figura desta genitora, pregando uma teologia de prosperidade e supremacia masculina onde Maria é subvalorizada.

A esta miríade de matizes se vem somar o livro do Ricardo Soares, Amor de mãe. O mesmo coração que Vicente Celestino cantou, aquele que continua a clamar com amor pelo filho matricida, o ingrato que extirpou do peito materno a víscera pra satisfazer um capricho da amada. O narrador deste Amor de mãe, como o Joyce de Retrato do artista quando jovem vai mudando de linguagem (fala sucessivamente como presidiário, como bandido, aventureiro, proletário, jovem e criança) à medida de sua cronologia, que no caso é inversa, pois narra a partir do suposto velório materno, em retrospectiva, as fases de sua própria vida. Permeia toda a narrativa o choque da morte da genitora, a cujo enterro se encaminha para, num final surpreendente, chegar a outro destino, outra morte.

[...]




Conheça o trecho inicial do romance Amor de mãe, de Ricardo Soares:





1


Hoje minha mãe morreu. Muitos anos depois da mãe do estrangeiro Meursault ela morreu. Talvez tenha sido há uma semana, não sei bem e nem sei se importa já que não estarei presente à missa de sétimo dia que será rezada na cidade distante onde ela morava. Parece também que no momento em que se entoar um canto em intenção de sua alma eu acenderei uma vela gorda e redonda e um incenso de alecrim para me juntar aos que rezam por ela. Só que eu estarei a muitos quilômetros da igreja onde se dará a cerimônia.
Hoje minha mãe morreu às 18 horas e trinta minutos depois da segunda parada cardíaca do dia e no momento em que sua testa quente porejava suor gelado. Lá fora mormaço de outono levava sua alma enquanto os carros buzinavam e os canos de escape dos ônibus despejavam fumaça para dentro do hospital.


O centro de terapia intensiva onde ela morreu fica no segundo andar. Zonzo, tonto, sonado, chego muitas horas depois do falecimento. Seu corpo já não está no CTI. Desço então as escadas em direção ao necrotério que fica no primeiro subsolo e encontro o caminho obstruído por uma montanha de cadeiras e mesas velhas o que me obriga a sair pela portaria central e ganhar a rua para tentar uma entrada externa para chegar ao necrotério. No entanto, ao chegar na calçada, estanquei.


A rua na verdade era um enorme declive que dava para uma avenida barulhenta e feia, lotada àquela hora do rush de uma segunda-feira. Fiquei observando o movimento e olhei para meu relógio de pulso na mão direita sem ver as horas.  Na verdade, via moças de branco descendo a ladeira em algazarra rumo aos pontos de ônibus. Talvez fossem funcionárias do hospital. Enfermeiras, laboratoristas, médicas estagiárias, nutricionistas. Senti nelas uma estranha alegria que não combinava com a morte de minha mãe. Foi quando peguei o sentido oposto ao do necrotério. Na verdade, ao invés de virar à esquerda me distraí com as moças e resolvi ir para a direita seguindo um irresistível cheiro de pastel de carne.


No balcão do boteco dois sujeitos bebiam cerveja sem espuma e conversavam animadamente sobre futebol. Um terceiro, barba por fazer, tomava um rabo de galo e olhava fixo para um ponto vago entre seu passado mais remoto e o futuro quase incerto. Me encostei quase ao lado desse infeliz e chamei imediatamente dois pastéis quentes de carne.  Pedi uma água com gás gelada e tive vontade de fumar o que já não fazia há dois anos. Quando os pastéis chegaram tentei ser agradável comentando após a primeira mordida que eles estavam muito bons.


- Porra, vocês estão longe de São Paulo, mas fazem um pastel igual ao de lá. Muito bom ...


Resposta nenhuma. Sequer um muxoxo de desdém. Fiquei calado e desapontado comendo meu pastel fumegante e saboroso que queimava a língua enquanto ouvia os dois sujeitos que tomavam cerveja, idiotas, discutindo futebol. Falavam da ausência de ponta –esquerdas, de cores de camisas, de juízes e bandeirinhas ladrões e de Zagalo, outro idiota.  Foi quando o sujeito do meu lado tossiu forte e deu um suspiro longo como se fosse falar.  Eu aguardei ansioso. Ele suspirou de novo como se pusesse narinas afora odores internos insuportáveis. E falou:


- Ela, sua mãe, estava no hospital há quinze dias.

- É, quinze dias...

- E você chegou só agora?

- Foi.

- Disseram para ela que você estava longe e que tinha compromissos que não podia adiar?

- Disseram e ela entendeu... eu fiquei meio dividido entre vir correndo e atrapalhar o meu segundo semestre ou terminar o que tinha que fazer e ver minha mãe com calma.

- E acabou optando pela segunda opção... terminou o serviço e veio.

- É isso aí... vim correndo assim que acabei.

- É, você não ia adivinhar que desta vez a coisa complicava mesmo.

- Lógico, nesses anos todos foram tantas as internações que mais uma vez eu achei que ela ia sair dessa...

- Pode crer... mas ainda deu tempo de você ver ela bem, não deu?

- Quer dizer, bem eu não vi não... da última vez que eu vim ela estava com muita dor, mas estava lúcida. Se queixou muito, estava com os braços todos roxos de tanta picada que levou.

- Sei.

- E aí conversamos uma meia hora, ela segurando a minha mão o tempo todo.

- Sei.

- Eu ali enxugando o suor gelado da testa quente dela.

- Sei, você quer um rabo de galo?

- Não, obrigado... tô na água com gás mesmo... se eu beber agora vai me dar vontade de fumar.

- Bom, então pelo menos deu para você conversar com ela um pouco da última vez...

- Deu um pouco... eu não esperava que ela fosse piorar tão rápido, que dessa vez não fosse recobrar a consciência... quando eu me despedi fiquei com aquela má impressão, mas não achei que ela ia...

- E ela se despediu...

- De uma certa forma sim... de outra forma não, porque chegou até a me pedir uns livros.

- Mesmo?

- Acho que ela imaginou que ia ficar melhor... que ia poder sair do CTI e ir para o quarto... ficou na esperança de que ia poder ler os livros.

- Pode ser... nunca se sabe.

- É, nunca se sabe. Só sei que ela pediu os livros e acabou tirando com força a aliança de casamento do dedo e entregou pra mim dizendo que para onde ela ia não seria necessária a aliança porque ia encontrar com meu pai e ali eles, juntos, buscariam uma outra aliança. Mais nova, mais grossa, mais reluzente. Uma aliança que os unisse pela eternidade. Minha mãe era dada a romantismos.

- Sei, sei.

- Minha mãe não amava mais meu pai quando ele morreu mas tenho certeza de que sentia muito a falta dele. Não disse isso, mas eu adivinhei, sabe?  Mas o que ela disse mesmo, e eu não esperava, é que não queria ir tão cedo e que na verdade devia ter aproveitado mais a vida porque no fundo, no fundo, ela nunca aprendeu a ser feliz.

- Ela disse isso?

- Disse, disse, assim mesmo... um troço impressionante, um troço que jamais pensei em ouvir de minha mãe...

- Escuta, aqui perto tem um barzinho bacana... servem uns tira-gostos sensacionais ... tem uma língua com pimentão ao molho que é dez! Tem jiló com fígado, tem canjiquinha... vamos lá?  A gente continua a prosa por lá... aqui tá meio abafado e só tem pastel e cerveja morna.

- E a cerveja lá é gelada?

- A mais gelada! E a língua é bem servida! A gente se serve de palitinho.

E então fomos sem culpa.  Depois de eu ter mentido para ele porque no último encontro com minha mãe não aconteceu aquilo que eu contei. Agora morreu sem que eu estivesse perto. E da vez anterior eu não segurei a mão dela e não conversamos sobre livros e nem sobre meu pai e nem lhe tirei a aliança do dedo. Não falamos sobre os filhos que eu não teria ou os planos que eu não faria. Eu não vi suor gelado na testa quente dela e nem seus braços brancos arroxeados das picadas. Não vi nada, não ouvi nada. Não senti o cheiro da morte de minha mãe mas ouvi dela sim que nunca havia aprendido a ser feliz. Mas isso havia sido em outra triste ocasião.

[...]

 

 


 

 

Livro: Amor de mãe

Autor: Ricardo Soares

Gênero: Romance

Número de Páginas: 150

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete