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Carlos Neves

CARLOS NEVES

 

Autor do romance Máscara da invisibilidade (Patuá, 2017), Carlos Neves é músico, fotógrafo e jornalista. Escreve desde os 13 anos — justamente quando ganhou sua primeira câmera fotográfica, uma charmosa Xereta, da Kodak.
Além de Máscara da invisibilidade, Neves tem uma série de contos e poemas — sendo editados para publicação — e um novo romance, em fase final de preparação. Participou de oficinas literárias, algumas delas dirigidas pelos escritores Marcelino Freire, João Silvério Trevisan, Fabrício Corsaletti, Michel Laub e Luiz Ruffato, entre outros — hoje faz parte do Coletivo Palavraria, um grupo de escritores, todos queridos camaradas.
Música é outro gosto. Começou a estudar menino, já tocou em bar, banda, cantou e ainda faz algumas coisa nos bastidores — como as canções que compôs recentemente para o romance Máscara da invisibilidade.


Contatos:


Conheça um trecho do romance Máscara da invisibilidade, de Carlos Neves:

 

Futuro oblíquo


Uma semana depois:


Quero deitar com você foi a última frase que ouvi ou lembro ter ouvido dela. Ainda ressoa, dói quero dizer, esse Quero deitar — e a cada momento que ouço, torno a vê-la dizer, quase cantar: Quero deitar com você. Depois não sei, nunca mais, até hoje nada, nem um pio, telefonema, carta, tudo silêncio, vazio, uma quietude de doer, de moer os ossos.

Duas semanas depois:


O apartamento fechado, telefone desligado, já bateram na porta, mas nada, não há o que atender, é como se eu não estivesse aqui. No teto nem ouço mais os passos de Selma, que também era uma boa companheira para as noites frias e perdidas. Por isso fica agora esse vazio incerto, talvez insano. Pensam se ainda estou aqui, se não estou, onde é que fui. Que pensem nisso, o que quiserem! Mas lembrem, as aparências não enganam — o que nos engana somos nós.

Hoje, um mês depois, talvez dois, tentando organizar alguma ideia do que aconteceu: escrevo.






Parte 1




1.
Ritos e condutas


Esse é. Parece, tem pinta, quase seria possível dizer que está escrito na cara. Quem souber ler, lerá. Basta um olhar atento, um bom dicionário, repertório e uma calculadora. É quase cem por cento de certeza. O problema todo fica apenas nesse Quase, essa espécie de Quê que derruba a confiança e as convicções mais genuínas, e põe por terra garantias, e dicionários, e contas — mesmo que represente, este quase, menos de zero vírgula um por cento da verdade. O que se pode fazer? As aparências se tornam punhais cristalizados na crença desguarnecida ou mal intencionada das pessoas. Pode virar notícia de tevê, jornal, dar processo e até condenação. Se um dia se provar que o tal zero vírgula um por centro for mesmo verdade, bem, a essa altura quem irá ligar para a verdade? O moço ali sentado (ele acaba de se sentar; parece alegre) não me engana, digo por sua aparência vistosa e eloquente, e nem menciono por ora o fato de que seus dois companheiros ali reforçam essa, digamos, impressão. Roberto e Glauco, ao lado dele, são do mesmo tipo, assim como a maioria dos amigos que esses dois sempre trazem para me ver. Logo, chances de erro quase zeradas — quase, novamente. Menciono ainda esse outro indício: tudo o que anda com eles, Glauco e Roberto, são da mesma classe, seja homem ou mulher, todos, praticamente, estão na mesma frequência. Não tenho motivo para pensar diferente, mesmo que enjeite as inevitáveis doses de preconceito — como não as teria? Especialmente a uma certa distância, quando não há compromisso, nada se sabe e pensa-se o que se quer, entre tantos quases. Certamente os fatos podem esclarecer alguma coisa, mas não tudo, pois os fatos, ainda que indiscutíveis, também mentem; não muito, é verdade, mas engendram verdades duvidosas, vamos dizer assim. Exceto por isto, as dúvidas quase sempre apodrecem. Portanto, esse é. É o que parece, à primeira vista. Ou quase.


O rapaz pouco se movimenta. Seus deslocamentos são lentos e algo vagos, uma mão no queixo, apreciação, mas tudo feito de um modo tão delicado e, não posso deixar de notar, charmoso — quase não seria possível imaginá-lo de outra forma. Mas não quero ser leviano. Valho-me do contexto, que não só descreve como, em tantos casos, explica muita coisa. Quando conheci Roberto, claro que sem os registros que tenho dele hoje, também achei a mesma coisa: claramente era, ainda que isso fosse irrelevante para aquelas circunstâncias. É que do meu ponto de vista, do banquinho que sento quase todas as noites, me acostumei a olhar as pessoas que entram, as que deixam os olhos por aqui, as que os fecham, e até mesmo as que sem olhos estão. Algumas delas precisam explicar-se, têm essa necessidade; e o fazem com os olhos — e usam os ombros, as mãos, um corpo que inventa romances ou tragédias, como complementos — para mostrar o que são e do que são capazes, para falar do que sentem, o que querem, o que esperam, tudo num minúsculo segundo. São leituras difíceis e arriscadas — algo perigosas, se me entendem. E por mais tempo de casa e banquinho, nem sempre é fácil adivinhar o que passa, o que se pensa que passa. Mas há casos em que isso é mais simples, os sinais são evidentes demais. Roberto é um bom exemplo. O modo como entra no bar, chama por Antônio, o garçom da casa, cumprimenta, pede mesa, algumas vezes dispondo-se até a esperar por aquela de cujo ponto de vista será o mais conveniente para me ver, enfim, tudo revela e prenuncia o que ele é. Assim que senta, Antônio lhe apresenta a carta de vinhos. Roberto sabe de antemão o que vai pedir, mas brinca com o tempo, protela, retarda as escolhas, se permite com a carta nas mãos a pensar na possibilidade de mudar alguma coisa no pedido habitual (o que nunca é feito), ou de olhar embevecido para o teto da casa enquanto se decide entre um Moscatel e um Cabernet, quem sabe tentando imprimir, como se a noite fosse uma etiqueta, uma particularidade qualquer, de requinte ou pretensão, que o distinguisse dos demais.


Mas isso não é tudo, e nem mais é preciso, e ainda que fosse não bastaria para uma leitura mais decisiva. É preciso paciência, cuidado, ponderação.


[...]

 


 

Livro: Máscara da invisibilidade

Autor: Carlos Neves

Gênero: Romance

Número de Páginas: 480

Formato: 14x21

Preço: R$ 45,00 + frete