learnex

André Mellagi

ANDRÉ MELLAGI

 

 

André Mellagi veio ao mundo em 1973 na cidade de São Paulo, onde vive. Formado em Psicologia, possui título de mestre e doutor em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da USP. Além do atendimento clínico em hospital, dedica-se à leitura e escrita de ficção, envereda na mitologia e resgata instantes pela fotografia. Participou de coletâneas de contos, além de publicar em blogs de literatura. Bricabraque é seu primeiro livro publicado, uma coletânea de contos que recebeu Menção Honrosa no Programa Nascente da USP em 2014 e foi obra pré-selecionada ao Prêmio SESC de Literatura em 2016.

 

 

Contatos:


Conheça 3 contos do livro Bricabraque, de André Mellagi:

 

ENTRELINHAS

 

Entreolharam-se sem permitir que alguma admiração mútua aliviasse a gravidade dos pesares. Reuniram-se ao lado do veículo com formalidade nos trajes. O caçula estava especialmente chamativo com um terno feito sob medida, onde conseguiu encher os bolsos de bombons sem que ninguém percebesse.  A filha chegou por último e vinha digitando algo no telefone. Prevê o quanto seria desgastante convencer a namorada de que não iria encontrá-la à tarde, mas resolveu arriscar: meu avô morreu hoje.


A mãe exalava no pequeno espaço do carro uma fragrância cítrica. Vasculhou rapidamente na face do pai algum sinal pungente, mas o que obteve foi o silêncio da trégua. Passou a revistar a maquiagem no espelho do quebra-sol. A fragilidade do pai dera a ela uma vantagem no domínio de território, e assim a oportunidade de mandar a filha desligar o celular logo que escutou outro apito do aparelho. Deixe só eu falar quais os capítulos para a prova, tentou implorar uma última mensagem para a moça e a mãe consentiu numa expressão de tédio. A filha deixou no silencioso para não piorar a situação, pois desligar o celular iria provocar ainda mais a ira daquela amiga que a mãe desconfiava. Só tem ela para fazer trabalhos em duplas? A filha, porém, estava mais preocupada em não transparecer alguma desculpa para a namorada como da vez em que disse que estava com cólicas, mas foi flagrada por testemunhas da faculdade passeando numa galeria no centro da cidade. Mesmo agora que a verdade era sua aliada, dessa vez o ônus da prova cabia à reincidente.


Ao chegarem no velório, a avó os abraçou com olhos marejados e o pai enfim chora. A mãe aceita vitoriosa o abraço do pai e deixa escapar um sorriso nas costas dele. O caçula pergunta de Janjão, como ele vai ficar?, a avó pensou reconfortada que não era ela quem ficaria desamparada. Disse apenas que cuidaria de Janjão assim como o avô sempre fizera.


Os quatro aproximam-se do caixão onde repousava o avô num sono inerte e dolorido. A tia chega desfilando sapatos novos e perguntam do primo, ele foi a um treino de judô e não poderia faltar, em breve irá competir o interestadual. Foi em seguida apanhar um café e despistar qualquer evidência que pudesse acusar sua ansiedade em passar outro dia sem o primo em casa, que estava sob tratamento numa clínica psiquiátrica pela segunda vez este ano. O caçula limpa as lágrimas na manga do paletó e se afasta de todos, desembrulhando escondido um bombom.


Um homem olhava da entrada a cena do velório e se aproxima do caixão. Olhou para o defunto e logo saiu, dando a impressão que errara de sala. Mais uma mensagem, a namorada ameaça terminar tudo se não atender. A filha tira uma foto do rosto morto do avô e envia à namorada.


A mãe antes de ir embora vai ao banheiro, verifica a maquiagem, retoca o batom. Levanta um pouco a estola que cobria o braço, olha vingativa para o hematoma. Aquela marca e aquela dor durariam o mesmo intervalo que o pai a solicitaria para se consolar, para pedir perdão, para se humilhar, para implorar pela sua presença. Isso não diminuiria seu desprezo por ele, mas daria uma sobrevida que lhe pouparia de personificar a mãe que todos esperavam que ela fosse, mãe do caçula, da filha e do pai. Agora era a vez do pai em desempenhar o papel que era aguardado naquele velório, ao se apoiar na mãe, abraçar os filhos, elevar o avô na categoria de exemplo. Passada a trégua, a mãe retomaria o tempo para desprezar si mesma, pois a obesidade do caçula, o aumento da conta do supermercado e o full hand que de nada prestou eram desdobramentos dela, e somente dela, de onde todos retiram as primícias e nela devolvem seus dejetos. Invisível aos olhos do pai, tatuava cortes ainda mais ousados no braço com um estilete. Pensou em desenhar uma flor.


Todos se despedem com condolências e amenidades. Um elogio ao terno do caçula, uma curiosidade sobre a faculdade da filha, um comentário sobre o sapato da tia, novidades sobre o trabalho do pai que iria muito bem, obrigado. Nessa hora o pai engole seco uma sociedade mal feita que custou a escola particular do caçula e uma mão de poker que adiou os planos de férias. Curiosamente, tinha o hábito de tecer associações de suas ações fracassadas às intenções inconscientes da mãe, que então sofria as sanções que ele lhe impunha: por ter sido tolerante e por não ter sido, por não cuidar de si e por só pensar nela mesma. Enfim a avó agradece a presença de todos e que por esta união o avô com certeza também estava agraciado, embora o hábito de reunir a família num almoço de domingo já estava esquecido pelos anos.


Ao retornar para casa, a avó revira a gaveta do criado-mudo do avô e encontra o mesmo maço de cigarros, que costumava ressuscitar diariamente e durante 23 anos seguidos, agora pela metade. Em sua carteira, a foto de um bastardo que insistia em ver o avô. Aquele homem que entrara no velório provocou um pavor silencioso na avó, que somente sentiu alívio quando ele partiu. Ao contemplar aquela foto guardada pelo avô, queimou-a finalmente num pires com a vela que acendeu a um santo.


A avó então olha para uma gaiola vazia. Maldito curió que deixou escapar, precisaria agora dizer ao caçula que Janjão morreu de desgosto pela falta do avô. O caçula, por sua vez, foi quem ficou de castigo aquela noite, depois do pai ter descoberto as embalagens vazias de bombons dentro do carro.



***


INTERFERÊNCIA

 

No meio de um semáforo faiscante, Sérgio atravessava a rua enquanto os olhos de Fábia lampejavam o farol que iluminou aquela boate onde se conheceram. Pedestres apressavam o passo em meio a estrídulos de celular e um copo de gin tônica pela metade, acrescido pela mecha úmida e ruiva que Fabia mastigava, fizeram com que Sergio perseguisse sua boca. Na calçada as mesas de uma lanchonete eram disputadas num entra e sai de pessoas, na monocórdia das vozes e de cadeiras arrastadas, enquanto que Sérgio tentava acompanhar o redemoinho de corpos dançantes até que a tempestade de música alta abalroasse seu corpo com o de Fábia. Arrefecida a tormenta, Sérgio encontrara o cheiro acre da nuca de Fábia e seu beijo suado, antes de chegar a uma banca de jornal virando a esquina. Sérgio leu a palavra “destempero” na manchete de uma revista e a foto do corpo de Fábia trajando apenas uma de suas botas, latas amassadas no chão e o interfone tocando a reclamação do vizinho pelo barulho. Sérgio se depara com um catador de papéis calmo por entre as motos que tiravam fina, carrega sua carroça com vira-latas e um vaso de plantas murchas, enquanto que Fábia explicava inutilmente a Sérgio que a rega nas orquídeas deveria ser feita somente se o substrato estava seco e só um pouquinho na base, assim. Adiante, num parque, crianças rangiam balanços e um garoto oferecia uma bola aos pés de outro que lhe devolvia, Sérgio tentava esmiuçar as faces de Fábia, que por sua vez já atravessava todas dele. Sérgio encontrou um casal de surdos-mudos num banco que gesticulava uma discussão exaltada, e se percebeu numa interferência de voracidades indomadas, disputas sem regras prévias, jogos sujos e lágrimas negras que derretiam o rímel de Fábia. Sérgio acenou para o ônibus que chegava e por mais distante o destino que o levasse, o contorno do seio de Fábia o fez esquecer das horas.




***



FENOMENOLOGIA DA ESFINGE

 

- Você não entendeu nada.


Eu estava no banheiro quando a ouvi, pelo espelho não a encontrei, mas a voz paralisou minha lâmina que acabara de deslizar a primeira carícia sobre aquela barba de espuma. A torneira ainda jorrava.


O que eu tentava entender não era o objeto da frase, mas a epistemologia do verbo. Por um momento o entendimento já não era o conhecimento tácito vindo das rotinas matutinas do leite com café e o meu só com nescau, da maquiagem antes de dormir com sexo; nem era o ensinamento explícito de jamais pendurar qualquer peça de roupa na janela e do post-it com lista de feira grudada na geladeira. A questão era mais intrincada que parecia ser.


Meu passo atrás na tentativa de enxergar melhor o que queria compreender rebobinou uma retrospectiva que ia das minhas impressões do pudim que ela havia feito para o jantar de ontem, até o dia em que ela apareceu para mim naquele bar com uma camiseta do Sonic Youth. Nesse intervalo deveria ter algo essencial que me escapava da percepção e que se escondia na interpretação do riso ou do cenho; alguma senha ou chave mestra que revelasse aquela ligação era só para ouvir sua voz e o toque do telefone desligado antes que eu pudesse completar a frase.


Não havia um jogo com regras claras em que cada um soubesse até onde poderia mover suas peças. A minha vez de jogar mais se parecia com um pega-varetas, o mínimo descuido desmorona todo um castelo já em ruínas. Não havia uma sequência definida de cores a serem escolhidas, tinha diante de mim um novelo de fios emaranhados, se puxar o roxo poderia ganhar um leve aperto de bochecha, se puxar o rosa, a contagem regressiva acelera até a bomba explodir. E ela gostava de variar as cores.


Desliguei a torneira e percebi o som da televisão noticiando o fluxograma de algum esquema ilícito na câmara de vereadores de uma cidade qualquer, o qual ela não tinha o menor interesse em acompanhar. Sabia que ela me esperava no quarto para eu falhar naquele cubo mágico cuja solução nunca alcancei por completo, mas chegava no máximo a preencher duas faces que renderia uma trégua e ela mesma se cansaria de brincar, talvez satisfeita por só ela conhecer o truque ou resignada ao ceder à minha incapacidade em me importar com a semiótica dos gestos. Meus trunfos já foram descartados, o colar que lhe dei e notei na festa da prima, o SMS que lhe rendeu uma agradável ausência durante uma maçante reunião de trabalho. Mas ela aguardava, em silêncio, minha presença de etólogo diante das reações de um animal selvagem, procurando descobrir a melhor hora de me aproximar sem espantar ou levar uma mordida.


Soube que, na verdade, olhava para um espelho rachado. Ela conseguia refletir o que eu não enxergava em mim, quando tentava decifrar um olhar sem palavras, ela devolvia minha expressão atônita diante de uma imagem assimétrica. Via minha limitação em não perceber o infravermelho ao redor do modo como ela penteava o cabelo ou no meu compasso descalibrado que errava a medida de minhas palavras. A certeza é que por mais que tentasse descobrir a saída de um labirinto, era eu o minotauro que não saía dali, que de tempos em tempos recebia a visita dela que se oferecia em sacrifício, num sorriso de manhã ao vê-la escovando os dentes, num roupão fácil de desenlaçar.


Peguei as chaves e saí. Fui à padaria, tomei um leite com chocolate. A essa hora ela talvez pegou no sono, quebrou a televisão ou arrumou minha mala. Dei o último gole e fui pagar no caixa, a moça, coitada, não entendeu nada o que eu fazia lá com espuma de barbear no rosto. Com um pedaço da face escanhoada.

 

 


 

 

Livro: Bricabraque

Autor: André Mellagi

Gênero: Contos

Número de Páginas: 120

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete