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André Balbo

ANDRÉ BALBO

 

Autor do livro Estórias autênticas - importunâncias do engenho alheio (Contos, Patuá, 2017), André Balbo nasceu em São Paulo em 1991, um dia antes da morte de Freddie Mercury — coincidência ou não, Queen é sua banda preferida. É conselheiro editorial e colunista da Lavoura. Graduando em Direito na USP (por acidente), já foi trainee da Folha de S.Paulo, colunista e editor-chefe do Arcadas, jornal da FDUSP. Tem dois vícios e uma virtude: Shakespeare, dicionários e mostarda.

 

 

Contatos:

 


Conheça o texto de orelha do livro Estórias autênticas - importunâncias do engenho alheio, de André Balbo:

 

Desocupado leitor, escrever a “orelha” de um autor estreante não é tarefa trivial. Não porque inerente a essa tarefa, como se pode pensar, o cuidado de gazofilar o interesse do leitor e, com isso, ser prestimoso ao autor em sua campanha de conquistar primeiros olhos. A tarefa não é trivial porque, pura e simplesmente, corre o risco, o “orelhador”, de emprestar seu nome e sua recomendação a um escritor de merda. Mesmo princípio que nos leva a hesitar quando um tipo que não estimamos nos oferece uma cerveja para se beber junto.
É esse tipo de risco que corro ao recomendar o primeiro livro de André Balbo. Agitado, como menino ainda-não-homem que é, vejo-o estender o copo de cerveja. Se, afinal, aceitei seu convite, é porque algum dote reconheci: feito eu, autor do Quixote, ousou o autor destas Estórias autênticas mergulhar no propósito assombroso de escrever, com suas palavras, sobre a verdade, cuja mãe é a história. E isso merece um brinde.

Pierre Menard

 

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Conheça 5 contos do livro Estórias autênticas - importunâncias do engenho alheio, de André Balbo:

 

especulação


Cassius observa a Brutus que há momentos em que todas as pessoas são donas de seus fados e que a culpa não é dos astros, mas delas próprias, se se submetem. Objeção não muito diversa levou Edmond Dantès a empreender sua fuga do Castelo de If, para então tornar-se o nobre conde e ir à desforra contra Villefort, Danglars e Mondego; assim como eu, também, não objetei de modo muito diverso naquele labirinto de espelhos.
O cenário do conto é o que segue: um espaço de dimensões incalculáveis, no qual não havia nada senão centenas de milhares de espelhos de todos os formatos e tipos — planos, convexos, côncavos, parabólicos, metabólicos e estrambólicos — dispostos desordenadamente, dando forma a uma entropia de caminhos possíveis e impossíveis; o piso de um branco tão límpido que fazia minhas infinitas imagens, fidedignas ou defectivas, projetarem-se também sob meus pés nus.
De início dei crédito a sonho, o que depois rejeitei, tão logo lembrei-me de que fazia anos que não dormia — insone contumaz, assim se a mim referia a psicanálise. Não soube portanto o que era aquele lugar ou o porquê de estar ali; era e estava, apenas. Numa consideração breve do ambiente, arguí que o velho ensinamento de sempre dobrar à esquerda para encontrar o átrio central de um labirinto não me favorec(er)ia; naquele dédalo de espelhos, esquerda e direita inexistiam. Tudo era desordem.
Vexado pelo incessante olhar dos meus inúmeros eu, arguí que nem mesmo Narciso erraria em meu lugar sem consternar-se, e é bem provável que tenha sido essa reflexão o que me fez inferir um importante axioma sobre labirintos (e penso que também sobre prisões, oceanos e alguns jogos de baralho): se o propósito dos labirintos é fazer perder-se, o dos cativos é fazer achar-se. Enrolar a bandeira em confissão íntima da supremacia labiríntica seria submeter-me, aviltar-me à categoria de instrumento. Imagine-se houvesse o Dantès cativo metido a espada na bainha: sua desgraça serviria apenas para encher barriga de corvo em prisão insulada, reduzindo drasticamente a prestigiosa empresa de Dumas e Masquet. Não, meu destino a mim competia. Era-me obstado desafio severo ou sem sentido, ou ambos, mas eu lho oporia o peito aberto, aberto não, escancarado, sim, escancarado parece bom.
Arguí então que a forma de exceder um obstáculo era transgredir-lhe a ordem, qual o alpinista, que faz dos cimos esplanada, ou a metáfora, que faz das tripas coração. No caso daquele labirinto, a ordem, que aos meus olhos se desenhava em autêntica desordem, consistia na multiplicação, e o ofício carrasco da multiplicação, não se precisava recorrer a Hermes para inferir, era a destruição. Não demorei: despi a camisa branca e a enrolei ao punho destro. À desforra fui.
Durante tempo para o qual não há cronologia ocupei-me em despedaçar meus duplos de vidro. Cada golpe bradava o triunfo da realidade sobre a impostura, e o rubro punho dava o tom da nova ordem infundida: a minha ordem.
Que são alguns talhos diante da revolução?
Entregue de carne e alma ao meu propósito, fiz ruir dezenas, centenas de espelhos, e logo não mais me importava encontrar saída no labirinto — algo como o jovem que se exercita a priori por saúde e lazer e, depois de esponsais com seu trapézio descendente, por mera sofreguidão ególatra. Como este hipotético ou real grotesco, fiz eu da disposição zelosa um vezo doentio: desbravando infinitos reflexos, numa forma de xadrez desvairado e irascível, tornei-me rei no país do espelho.
Numa de minhas campanhas arrasadoras, fui dar com um conjunto de espelhos ovais planos, idênticos entre si e praticamente da minha altura, dispostos de modo a formar um círculo perfeito, o que muito destoava da confusão ordinária. De olhos bem abertos, já menos pela novidade do Stonehenge laminado e mais pelo firme compromisso, desprezei a inútil casualidade e fui despedaçando-os, um a um, com golpes secos e premeditados, defrontando com a frieza dos céticos cada pseudo que ascendia à minha vista.
Exaltava então o vivo punho ao último deles quando deparei-me diante de algo insólito: naquele espelho, a imagem que se formava não era a da minha fronte, mas a das minhas costas. Cheguei a considerar ter virado o juízo; não que tivesse a ciência ótica em meu melhor favor, mas a impossibilidade do fenômeno pareceu-me todavia evidente. Incrédulo, escondi as mãos atrás das costas e empertiguei três dedos, como se faz em brincadeira de adivinhação, ou como em alguns esportes, de forma até ridícula, se sugere ao companheiro de equipe como efetuar um lance específico. Fui sentir alguma mareação típica de terra firme ao ver diante de mim a minha imagem ocultando os mesmos três dedos atrás das costas. Dois dedos, um dedo, cinco dedos, nenhum dedo; imitava-me imediata e rigorosamente. Levei a mão hesitante ao lume como a avaliar e, em seguida, confirmar que de fato estava ali um espelho.
Exasperei-me, como é de se inferir, mas, após fátua reflexão, obtive que, para o propósito do labirinto, era aquele um espelho como outro qualquer. Tanto melhor: era um espelho ainda mais frágil, débil, considere-se que meu impostor de vidro ali vivia de costas à realidade, e portanto não poderia com a candeia do corpo devassar-me, tal faziam os demais impostores. Ao cabo, seria apenas mais uma pancada depois de outras tantas (mesma ilação que se faz da sétima à oitava dose de uísque). À pancada fui, enfim. Cerrei o punho, a imagem imitou-me; vi meu golpe iminente ganhar movimento e dirigir-se contra a nuca de meu duplo.
Senti meu corpo rachar e no instante seguinte explodir em milhares de pedaços. O espelho oval, intacto, refletia um amontoado de fragmentos cristalinos inerte, sucumbente, algo não menos insignificante que a quintessência do pó.



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entre sardinha e caviar


Em um shopping qualquer.
Advogado grita com funcionário.
— Comigo não é você, comigo é doutor!
— Doutor é a puta que pariu! — grito eu, narrador destas linhas, que, de todas as calamidades da vida, duas me provocam aversão: advogado que acha que é doutor e a moça que vestia colete do Greenpeace e camiseta da Zara e me puxou pelo ombro hoje de manhã perguntando se eu tinha um minuto para salvar a natureza.



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estória de horror



Fui acordado por Ester, minha filha de cinco anos, às três horas da madrugada de um sábado. Desfeita em lágrimas, disse que o homem do gorro vermelho não a deixava dormir em paz. Minha pequena não dava para medrosa ou inventiva. Obtive a pistola da gaveta da cômoda e ordenei a Ester que ficasse no meu quarto e trancasse a porta (Só pode abrir quando o papai chamar por aquele apelido que só o papai chama). Ganhei o corredor em direção ao seu quarto. Fui encontrado morto na manhã seguinte com um tiro na cabeça desferido pelas costas. Minha expiração foi capa do jornal: Milionário de 40 anos morre sem deixar herdeiros.

 

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estória de horror II


Não suportava mais as coisas estranhas que aconteciam naquela casa desde que me mudara para lá sozinho. Numa madrugada qualquer, vesti meu gorro vermelho e saí daquele lugar sem olhar para trás.

 

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estória de horror III


Ele me chamava de filha, mas não era meu pai. Certa vez, para me intimidar, mostrou-me sua coleção de armas. Que emoção indescritível foi ver sua cabeça explodir.

 

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estória de horror IV


Testamento:
Deixo à minha mulher, Ester, todos os meus pertences, menos meu gorro vermelho.






 

 

Livro: Estórias autênticas - importunâncias do engenho alheio

Autor: André Balbo

Gênero: Contos

Número de Páginas: 120

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete