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Luciana Saddi

LUCIANA SADDI


Autora do livro de contos Educação para a morte (Patuá, 2017), Luciana Saddi é psicanalista e escritora. Nasceu e mora em São Paulo. Autora dos livros: O amor leva a um liquidificador (ed. Casa do Psicólogo), Perpétuo Socorro (ed. Jaboticaba) e Alcoolismo – coleção o que fazer? (ed. Blucher). Membro efetivo e docente da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica – PUC/SP, publicou artigos em revistas e livros especializados.

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Conheça 2 contos do livro Educação para a morte, de Luciana Saddi:


Educação para a morte

 

Sabia que minha avó estava doente. Era uma doença sem cura. Tremia em pensar, mas pensava, na morte tenebrosa que a vovó teria – a paralisia das pernas subindo lentamente até o peito, e ela sufocada. A brutalidade da ideia de morrer sem conseguir respirar vinha acompanhada de um gesto, eu apertava meu pescoço e dava um grito curto, curto e forte. Depois pensava socorro! Será que ela sofreria? Coitada. Já sofria muito, deitada na cama, com as pernas esclerosadas e sem poder andar, a esclerose subindo até os pulmões e dominando o coração que bateria lento, cada vez mais lento, até parar. Mesmo doente, mudou de casa e foi morar num apartamento grande. Lamentei a mudança. A casa tinha galinha e coelho no jardim, e tinha parreira que não dava uva, que só servia para fazer charutinho. No mundo sempre teve parreira que dava folha de uva e parreira que dava uva.


Aprendi também com minha avó o significado da palavra corrupção. Ela me convenceu a aceitar a mudança de casa em troca de uma cadeira baixinha que seria só minha no novo apartamento. Criança se vende fácil, me vendi, mas não fiquei contente, pensei em desfazer o trato. Impossível, ela já estava no novo apartamento. Era melhor faturar a cadeira do que ficar de mãos vazias. Jurava para mim mesma que jamais faria outra troca besta como aquela. Ela também me comprou com sucrilhos. Para que fazer crianças aceitarem coisas que não dependem delas? Tanto fazia aceitar ou não o apartamento, ele já era realidade, e a casa, o jardim e a parreira, passados.


Minha avó – ela nunca soube disso – foi quem me deu a chance de fazer a primeira coisa adulta de minha vida: fritar quibes sozinha. Colocou a escumadeira em minha mão, morri de medo, segurei no cabo da frigideira, morri de medo, e aguardei uns minutos para virar os quibes, até que estivessem fritos por inteiro. Considero fritar quibes, até hoje, meu maior feito. Agradeço a ela esse grande momento de potência e, principalmente, de confiança – sim, ela confiara em mim, eu não iria decepcioná-la. Meus pais não confiavam em mim, jamais acreditaram que eu fosse capaz de fritar quibes, de aguardar o instante de virar sem machucar a camada de carne moída e trigo que fica do lado de fora – e esconde a carne com snobaar que mora sozinha dentro dele, sem me queimar. Naquela manhã umas gotinhas de óleo pelando pularam na minha mão, mas não contei a ninguém com medo de me proibirem, caso tivesse a chance de fritar quibes novamente.


Um pouco antes de irmos para a escola – estava no segundo ano do primário e adorava a professora, tia Cecilia – vi flores e mais flores brancas chegando em casa. Hoje sei que eram coroas de flores, na época eram flores brancas, muitas, dispostas em formatos diferentes. Minha mãe apareceu antes do almoço super bem vestida para um dia de escola, estranhei. Lembro de ter perguntado sobre a minha avó. Ela negou. Nada, não acontecia nada, nenhuma novidade, nenhuma morte. Fui ressabiada para a escola, mas acreditando em minha mãe. Que motivo teria ela para mentir?


Na classe tudo estava como antes, como sempre esteve. A minha casa estava diferente, muitas flores, mas não aconteceu nada, nada de novo, segundo minha mãe. Já me preparava para tirar da mala o estojo, quando uma colega de quem gostava bastante, Silvia, me perguntou em voz alta, e todos escutaram: “o que eu fazia na escola se a minha avó tinha morrido?” Fiquei atônita. Sim, minha avó tinha morrido, coitada dela. Fiquei furiosa com minha mãe: como teve coragem de mentir e de me enganar numa hora dessas? Mesmo eu perguntando sobre a morte da minha avó, mentiu na cara, com a cara mais dura do universo. Traíra. O tipo de pessoa que não dá para confiar. Caí num choro que vinha lá de não sei onde, um choro profundo, forte e longo; lágrimas pulavam dos meus olhos, rolavam na camisa da escola. Tia Cecília me colocou no colo, e por duas horas chorei sem palavras, chorei e chorei. A camisa estava molhada, a saia cinza de pregas também. Chorei de raiva, chorei de ódio, chorei de humilhação de saber que a amiga da escola sabia mais sobre mim do que eu. Sabia mais sobre minha família do que eu, a mãe dela era melhor que a minha, a mãe dela não teve medo de falar a verdade, a mãe dela confiou nela, confiou que ela poderia aguentar a morte. Chorei por minha avó morta e pelos quibes que eu nunca mais fritaria. Chorei de susto, chorei porque estava sozinha na hora de receber a notícia mais importante da minha vida. Minha avó estava morta, chorei, e talvez eu nunca recebesse a cadeira que ela havia me dado. Chorei.


Ao chegar em casa no fim do dia, não me lembro se ainda havia vestígios do velório na sala, perguntei pra minha mãe por que ela havia mentido. Contei que soube da pior forma possível. Ela acreditava mesmo que eu, aos oito anos, não sabia que a morte existia? Pois, ela que soubesse que todo mundo sabe, desde pequeno, muito pequeno, que a morte existe sim, uma verdade banal. Ninguém tinha o direito de esconder de mim a morte da minha avó! E que dali em diante ela não poderia mentir sobre a morte, nunca mais, porque eu já era capaz de fritar quibes sem me queimar!



***



Pan-materialismo

 

Nasci materialista, ou quase isso. É certo que aos onze anos abandonei Deus e a igreja. Aprendi o valor das indulgências na aula de história. Venho de uma família de crentes, crentes em Deus, em poderes sobrenaturais, em santos e espíritos. Abandonei a crença nos espíritos logo depois de abandonar a crença em Deus. Deixei de acreditar neles quando percebi, no jogo do copo, que era eu quem guiava o copo. Vocês conhecem esse jogo? Dispõem-se em roda as letras do alfabeto e os números até 10, o copo é colocado no meio do círculo, invoca-se um espírito do bem para entrar dentro do copo e responder aos mortais suas perguntas que, em geral, versam sobre o amor e as faltas. Os participantes se sentam em volta da roda, colocam o dedo indicador no copo, um dedo por pessoa. Se um espírito do mal entrar no copo, é só virá-lo de cabeça para cima, assim é solto e o Universo continua como tem de continuar. O copo tomado passeia na roda, responde perguntas e de repente para, indicando que o espírito cansou de trabalhar. Meu dedo indicador agia – nem sequer era um espírito em mim, eu comandava o copo. Daí em diante nunca mais acreditei em mesa branca, preta, só em mesa de comida – materialismo é isso.


De vez em quando pensava nos mortos como se estivessem vivos em outra dimensão, imaginava sentar na mesa dos ilustres falecidos e com eles aprender tudo que aprenderam antes e depois do fatídico dia. Afinal, o convívio de ilustres pensadores depois da morte deveria trazer um ganho especial, pelo menos para eles, que incluíram na lista de saberes o mais inalcançável de todos, o saber sobre a morte. E então, quando eu morresse, eu me sentaria humildemente num banquinho baixo, ao lado da mesa e observaria a conversa entre eles, tiraria dúvidas e até arriscaria uns palpites. Ter os imortais vivos conversando comigo compensaria minha morte.
Vivi um período atormentada por vampiros e dráculas, e até pedi uma cruz de pendurar no pescoço para minha mãe, que se encheu de alegria pensando que a filha voltaria a acreditar em Deus. Que nada, a cruz era um mero instrumento de matar vampiro. Arma branca, defesa pessoal – puro materialismo.


Meu primeiro marido morreu, esperei que viesse conversar comigo, tínhamos um pacto para o pós-morte. (Aliás, fiz esse pacto com as pessoas mais significativas de minha vida e, garanto a vocês, nem minha irmã gêmea, unha e carne e genes comigo, nem ela voltou para me contar como era a morte. Portanto, ou tudo está muito bem por lá, ou Deus a fez prisioneira por alguma razão importante, ou nada há a se dizer.) Estranhamente, depois que esperei que ele retornasse da morte para me dar algumas explicações, notei em nosso cachorro uma transformação sutil. Zeus sempre gostou muito de mim, mas se tornou mais apegado, mais carinhoso e, se eu não fosse materialista, diria até um pouco libidinoso. Era só eu sentar no sofá que ele se jogava em meu colo e procurava me lamber no pescoço e na boca. E se eu me deitasse para assistir um filme na TV, ele jogava a cabecinha na minha bunda e se enganchava em minhas pernas –difícil dizer as próximas palavras – ele parecia o falecido; os mesmos hábitos e costumes, o mesmo apego, era tanto amor que cansava. Zeus se tornou, sutilmente, no decorrer de um ou dois anos, dependente de mim. Era a falta do pai humano que o transformara num cão capacho delicioso? Tinha pena de deixá-lo sozinho em casa, então, passamos a viajar juntos, a dormir na mesma cama, mesmo em dias de calor. De fato aceitava tudo que vinha dele, sem pestanejar, para com ele tinha a mesma inclinação amorosa que tive com meu adorado falecido. Será que era meu marido vindo do além compensar sua falta e evitar que eu tivesse um novo casamento, por puro ciúme? Materialismo à parte, diriam os mais céticos, só havia uma diferença entre Zeus e o primeiro marido: Zeus foi o amor mais manso de minha vida.


Mas as esquisitices da vida e da morte não param por aí. Zeus veio a falecer precocemente da mesma doença maligna que levou seu pai humano. Pode? Cuidamos dele da mesma forma inclusive. Confesso que meu materialismo ficou bem abalado e pensei nas coisas que se repetem e que fazem a gente duvidar da gente mesmo. Coisas que não têm explicação e por isso parecem totalmente explicadas. Zeus tentou me dizer alguma coisa, meu marido tentou dizer alguma coisa, Deus tentou me dizer alguma coisa? Mas, se queriam me dizer alguma coisa, por que não falaram logo? Por que não falaram de um jeito que a gente entende? Depois de muito pensar, deduzi que desgraça é uma merda que pode coincidir.


Alguns anos se passaram, conheci meu segundo marido e confesso: estava mais tranquila, mais longe da morte, da solidão e das doenças que se repetem misteriosamente, menos encanada com os recados dos mortos e... meu segundo marido adoece! Felizmente a doença era outra, mas pasmem: ele tinha um cachorro. Digo tinha porque infelizmente a doença era outra, mas o fim foi o mesmo. E não é que o cachorro tá a cara dele? Faz as mesmas estripulias, tem o mesmo jeito de andar e sorrir!

 


 

 

 

Livro: Educação para a morte

Autor: Luciana Saddi

Gênero: Contos

Número de Páginas: 120

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete