learnex

Nuno Rau

NUNO RAU

 

Nuno Rau é carioca, arquiteto e professor de história da arte, mestre e doutorando em história da arquitetura, e tem poemas publicados em revistas e sites como Cronópios, Germina, Sibila, Zunai, Mallarmargens, Diversos e Afins, RelevO, em diversos blogs e nas antologias Desvio para o vermelho (13 poetas brasileiros contemporâneos), pelo CCSP | Centro Cultural São Paulo, Escriptonita: pop/oesia, mitologia-remix & super-heróis de gibi, que co-organizou, e 29 de Abril: o verso da violência, ambas pela Editora Patuá. É editor da revista eletrônica mallarmargens.com, em conjunto com Alexandre Guarnieri e Mar Becker.

 

Contatos:

 

tutorial
não é um espelho o mundo, nem
moído, cerol
colado na meada
dos dias que se desenrolam com a goma
do espanto, isso
que arranha sua pele, arranca a pátina
dos gestos, fatia
o real em lâminas, películas
projetadas sobre um fundo áspero, árido,
turvo, se você
descreve lentamente ao longo de uma órbita
marginal palavras que não limpam
a barra do mundo, ele não é
um espelho, nem
moído, sua farofa
seca servida na ração
diária, não é mesmo qualquer coisa em que você
se reconheça, meu chapa, por isso
escreva num livro
o inventário de técnicas
para quebrar os espelhos, agredir
os espelhos violentamente, mesmo cortando
os punhos, os pulsos, erradicar
os artefatos
da ilusão.

 

***

 

firewall
você não passa
de um sintoma, é isso
o que as paredes mostram
nos rabiscos toscos escritos em volta
do seu desenho do mundo, parecido
com qualquer outra coisa, bares,
telescópio, fúrias, epitáfio,
vínculos, escada, girassóis, ângulo
reto, chispas de metal, farol, com tudo
menos com o mundo: o desejo é um objeto
quebrado e você amassa
os papéis contra o muro sempre em chamas
do real, mas não,
só os fantasmas atravessam o fogo
[por que este incêndio não incinera os selos
que encerram o lixo de cartas, arquivos,
tardes antigas, espelhos, fotografias,
lugares?
]

***

 

trilhas
cidade extrema ao mesmo tempo dura e amarga,
você parece precisar dela para existir, do fundo mais fundo
das ruas vem a sensação de estar em casa, as rachaduras
dos prédios testemunham uma nova ruga no seu rosto,
e estações depois de outras o assombro do mundo anda
aos saltos pelas janelas do trem, a cada subúrbio você sente
a cidade lhe dobrar um pouco mais como se tudo funcionasse
por uma química inacessível enquanto prende por um instante
a respiração querendo penetrar na correnteza em que fluem
pessoas, carros, esgoto, imagens, ferrugem suspensa
na água canalizada sob pressão como sangue transparente
nas veias e o vazio inacabado que você monta por dentro
a golpes de martelete nas estátuas da memória é o mesmo
que passa a 100 km/h na janela-retângulo da composição riscando
trilhos que dilaceram ruas em metades que nunca mais
vão se juntar, como se você cavalgasse a lâmina que corta
o tempo e nunca pudesse ver o fim que virá logo depois
de alguma curva abrupta do caminho, sem aviso e sem

 

***

 

por dentro, por fora
vivendo pela margem, neste exílio
de uma pátria que não existe, a não
ser na mais absurda alucinação,
nenhum dia me abre o seu sentido;
mas isso é por dentro: além do corpo,
mundo afora, as coisas seguem normais
em seu destino, superficiais
até o limite e assim é o mundo todo;
só que isto é por fora: sob estas coisas,
sob a pele das coisas arde um tal
incêndio, uma inconstância, um vago mal
estar sem ponto fixo, entre as doidas
vertigens da espiral que é pensar,
via inútil entre as muitas que há.

 

***

 

traições
que nome dar a essa aparição?
aparição? sereia? alumbramento?
Que deus nomeia as coisas no momento
exato em que emergem, vivas, do vão
de antes do tempo e dinamitam no ar
estopins de sentido? Desencontro
marcado, espelho de reflexo esconso,
campo minado em que vai tatuar
sua fúria este demiurgo, mestre
da injúria, da mentira e da traição,
os nomes e os seres, sempre em vão
encenam seu balé como um desastre
anunciado e eu – vendido - meço
lapsos no biscate incerto dos versos.

 

***

 

cinco ou seis maneiras de se perder na cidade
você tem cinco ou seis maneiras de se perder
na cidade Numa delas
o Livro dos Espíritos é um oráculo
tatuado em braile na pele
de meninas mestiças que dançam
nuas sobre lençóis grená
um cântico sufi enquanto
o sentido arde em suas vísceras e seus pés
escrevem um livro chamado
motel nosso lar Em outra
o labirinto de memórias detona
a dessublimação feroz
que você rasura no Breviáriopun
das Horas, estação
por estação, como se isso
criasse qualquer âncora
entre você e o mundo E ainda uma
que repete ao infinito a metamorfose
em que diante do abismo você
é um poema escrito numa língua
morta cujo último
verso esconde uma
chave As outras não
interessam

***

 

fragmentação
tenho escrito poemas
aos pedaços, espalhados
por e-mails, contra-
capas, guardanapos, mensagens
instantâneas, na verdade
qualquer pedaço de papel
que me olhe com sua interrogação
branca, seu jeito
de esfinge dando bandeira em cima
de um móvel, mata-
borrão de palavras fazendo
pose de papiro, tenho
escrito poemas
em pedaços que não quero
juntar, tenho pedido às canetas
que falhem, às teclas
que emperrem quando
envio cada fragmento
a um destino diferente, rasurando
os vínculos, perdendo
a linha como quem deleta
um telefone importante, tenho
esperado que os amigos
se distraiam entre as amenidades
com que disfarço o contrabando
das palavras, tenho lido
muitos poemas e sinto
tédio frente ao presente
que ainda pretende
chocar quando retiro
os andaimes e o impacto
não penetra além
da película, imagem. Então, pra ver tudo
melhor arranquei
meus olhos e joguei no fundo de um copo
sem fundo - é de lá que passei
a interrogar o abismo
dos céus como um burocrata afogado
em papéis velhos enquanto anjos
sem pedigree entoam salmos
punks de três acordes, distorção
amplificada e loop
frenético diante da parede
transparente onde rabisco
versos com uma tinta
tão negra que a grande noite
dos séculos não vai deixar
ninguém ler.


 

 

Livro: Mecânica aplicada

Autor: Nuno Rau

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 150

Formato: 16x23

ISBN: 978-85-8297-374-5

Preço: R$ 38,00 + frete