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Camilla Feltrin

CAMILLA FELTRIN

 

Camilla Ramos Feltrin é jornalista, tem 25 anos e vive no ABC paulista. Atualmente se dedica a trabalhos freelancers. Já publicou em diversos veículos de comunicação, com destaque para CartaCapital, Vice e Noisey. Seu primeiro livro Vamos procurar satélites e outras histórias foi escrito no primeiro semestre de 2016 e reúne oito contos sobre amor.



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Conheça 2 contos do livro Vamos procurar satélites e outras histórias, de Camilla Feltrin:




Me encontre no Edifício Itália

Ainda no começo do expediente Tarsila recebeu um e-mail do colega barbudinho do outro setor. Era a proposta de um encontro naquele mesmo dia às 20h30 no alto do Edifício Itália – o mais chique da cidade.

As fofocas. Os livros trocados. As piadas em frente a máquina de café. Os almoços juntos. Os chocolates postos em cima do teclado do computador quase todos os dias. Havia muito mais interesse que uma simples amizade.
Era quase amor, só podia ser.

Tarsila chegou sozinha lá no alto do Edifício Itália depois do trabalho e antes de ter passado em casa e colocado uma roupa razoavelmente aprumada. Uma mulher com um longo vestido preto tocava piano. Os garçons, todos eles, inacreditavelmente solícitos. Ela, que recebia ordens o tempo todo no serviço e na vida, se sentiu glamourosa e se impressionou até com os elevadores. “Pode pedir qualquer drink, eu pago”, disse Dante, que já a esperava lá com um largo sorriso.

“Serei pedida em namoro aqui mesmo e terei uma história maravilhosa para contar pelo resto de minha vida”, ela pensou enquanto olhava, nervosa, para Dante. “Às vezes Deus acerta”.

Bebidas devidamente postas à mesa. Um brinde. Risadinhas. A informação. “Vou me casar mesmo”, confessou rapaz. Tarsila suspirou e os dois passaram os seguintes minutos olhando para o nada. Silêncio. Piano. Palmas. Mais silêncio. Outro suspiro. “Os homens só podem ser pedidos em casamento em anos bissextos. Dei azar, agora terei que me casar”, completou como se falasse de algo confidencial.

Tarsila quis um cigarro, mas preferiu continuar imóvel. Daria uma trabalheira achar o isqueiro, se despedir, fumar, chupar uma bala de hortelã e retomar o assunto do casamento. Continuou na mesa fingindo interesse no noivado. “Parabéns, que legal!”.  

As surpresas daquele dia continuavam. “Tenho uma proposta para você”, prosseguiu Dante, que passou um guardanapo dobrado. “Só abra em casa, não leia na minha frente”, falou ao arregalar os olhos. “Se você abrir agora, ficarei sem jeito”. Ela tomou o papel sem demonstrar muito entusiasmo e guardou na bolsa, mas por dentro tremia de ansiedade.

“Com licença”, pediu ao tentar encobrir a abertura precoce do recado com uma ida ao banheiro. Quem sabe não seria um convite formal para que virassem amantes? Tarsila já estudava a proposta no caminho entre a mesa e o toilet. O argumento de que “as amantes geralmente recebem muitos presentes” a animou por um segundo.

A mensagem escrita em letra de forma com uma caneta de tinta preta, no entanto, a tirou de rumo. Enquanto uma velha cheia de anéis assoava o nariz, ela leu o convite:

Quer ser minha madrinha de casamento?  

Tarsila desejou ser abduzida, levada para uma sala com luzes piscantes, ser submetida a testes, sofrer em desnecessárias cirurgias sem anestesia, ser exposta a radioatividade, ter as memórias apagadas, receber um implante de monitoramento, uma inseminação extraterrena ou uma lobotomia até os dentes trincarem e a língua ficar em carne viva.  

Era tudo mais suportável que levá-lo ao altar.


***


Um dia normal na CPTM

 

Desembarco do trem com os cabelos esvoaçantes e, com um lenço verde no pescoço, espero o amor da minha vida sob a neblina depois de um exaustivo dia de trabalho.  Abro os olhos e dou um sorriso triunfante: cheguei!

Sou imediatamente jogada para fora do vagão por milhares de pessoas que saem no mesmo destino que eu. Todas muito apressadas e correndo para outros cantos, ainda mais distantes.

Ao invés de névoa, a nuvem que me abraça vem da fumaça da churrasqueira improvisada num carrinho de supermercado misturada com o vapor do caldeirão cheio de espigas de milho num mix com fuligem do diesel dos caminhões e dos cigarros falsificados. Tudo isso impregna um cheiro horrível na minha roupa e em mim.

Um operário, pele suada e mãos grossas, desce a escada num piscar de olhos e some. Uma senhora de cabelos brancos compridos e meias de compressão bege se atrela ao corrimão e atrasa todos os demais transeuntes. Um rapaz com um televisor de tubo carregado nos ombros vai passando como um elefante na agulha entre a população. Um marreteiro corre com a sacola preta gigantesca.

E assim os colegas de trem vão se desanuviando.
Não tão rápido!

Um velho cai, machuca a cabeça na escada e quase é pisoteado por uma horda com a cabeça nas nuvens. Um menino de rua pula a catraca, e outro rouba uma embalagem de pastilha de menta vendida por míseros centavos que ele não tem. Um guarda corre atrás. Um cara vomita. Uma menina chora. Um homem ajeita o pinto de forma sutil e peço a outro que tire a mão da minha buceta. Obrigada.

E a carona que o meu amor havia prometido? Ele não vem, esqueci. Nunca mais virá, lembrei. Parei de responder às mensagens depois de daquele soco no meu estômago.
No ônibus, o motorista cumprimenta os passageiros enquanto o cobrador dá o grito mais temido pela classe trabalhadora. “Pessoal, dá um passinho para trás para caber todo mundo”. Vamos todos espremidos sem ar, brigando e maldizendo o governo.

E eu só, sem amor no meio de 11 milhões de pessoas.

 

 

 


 

 

 

Livro: Vamos procurar satélites e outras histórias

Autor:
Camilla Feltrin

Gênero:
Conto

Número de Páginas:
100

Formato:
14x21

ISBN:
978-85-8297-359-2

Preço:
R$ 38,00 + frete