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Juliana Gelmini

JULIANA GELMINI

 

Juliana Gelmini nasceu em 1985, no Rio de Janeiro, onde mora. É quixotesca, não sabe ser degradê e sua maior paixão é a Arte. Sendo formada em Letras (licenciatura) e especialista em literatura para crianças e jovens, ambas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, atuou como professora do Colégio Pedro II. Atualmente, é mestranda em Literatura brasileira, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, e graduanda em Artes Plásticas, na UFRJ. Em 2015, participou da antologia poética Poesia Livre, do concurso nacional novos poetas. Insólito Sólido é seu livro de estreia.

 

Contatos:

 

retrato da autora: ARNALDO DE PÁDUA

(nanquim sobre papel)

 

 

 

"E esse belo Insólito Sólido comprova a vocação lírica e talentosa da escritora e artista plástica, do minimalismo de algumas peças à exuberante mescla de gêneros e estilos de muitas outras."

(Antônio Carlos Secchin)


Conheça 5 poemas do livro Insólito sólido, de Juliana Gelmini:

 

Amnésia

Minha alergia voltou. O coração da palavra trem é grande e silencioso. Cabe em qualquer lugar. O coração da libélula é parado e pequeno, não muda de cor quando se desespera. Fico pensando essas coisas que não me levam a nada. Não sei quando dormi ontem. Esqueci todas as luzes acesas sobre um nome que não consigo me lembrar. Quem é você? Esse rosto meio apagado no porta-retrato da memória. Parece que fez frio. De quem são essas palavras que sangram meu corpo?  Preciso tomar banho. Limpar palavras desconhecidas que pesam. Algumas agarradas no meu cabelo são histéricas. Sussurram coisas que nunca vivi. Que tatuagem é essa em minha pele? De quem são essas memórias que dormem em minha casa? Devo acordá-las? Que dia estranho. Eu não sei do que elas falam. Qual será o solvente das palavras que mentem? As garras das palavras abrem a antiga cicatriz. Quem são vocês? O que fazem aqui? Parece que esqueceram uma foto 3x4 ao meu lado.  Atrás, um número de telefone anotado. Faltei o trabalho hoje. O café esfriou. Pela janela, dentro da garrafa de vidro, os carros se empilham. Dentro da foto, a tatuagem de dragão acordou, incendeia o desconhecido rosto. Faíscas no baile de papel. Penduro minha pele para secar do amor. O incêndio dentro do retrato a incendiar meu quarto.  O coração da palavra osso é fundo e treme pouco, mesmo no frio.

 

***

 

Trança



Tranço o desejo de selvagens fios
Domo seus cascos e relinchos grossos
contra minhas mãos machucadas

Divido o desejo em três: olhos, garras, seixos
puxo-os estreitamente rente aos vermelhos
estico cheiros entre  xícaras e medos

Os olhos trançados sobre os seixos em sexo
As garras trançadas entre seus grasnidos
Orgia de orgasmos trançados e contidos

Na ponta da trança, a palavra "não" enlaça
teu nome como uma fivela de papel

Afundo a trança domada num aquário de pano retangular
Para quando encharcada, arisca e tonta
Possa colocá-la ao sol para da sede secar

 

***

 

23 de junho

 

Há um tigre sem listras a me espreitar, seus bigodes escrevem sonhos que não quero sonhar, passeiam pelo meu corpo devagar, como se soubessem que fujo de algum lugar, há um tigre sem listras a me espreitar e suas garras prendem meu pensar, às vezes, me rasgam, às vezes, arrepiam, depende da doçura ou do súbito desvario, há um tigre que uiva em minhas cordas um nome que não posso lembrar, mas ele me rodeia, um eco em festa por conseguir outra vez com o vento soprar, há um tigre sentado em meu coração e dorme mansamente como se não soubesse que pesa e desconcerta meus vermelhos, há um tigre sem listras que ronda meu corpo, há um tigre sem listras que ronda minha mente, há um tigre sem listras que repete teu nome, há um tigre sentado em meu coração, há um tigre que me arranha, sopra e morde, esse tigre que, aos poucos, em seu rondo silencioso para os outros anuncia a minha morte. Há um tigre que me toma em seus pelos e me ergue sem jeito para que eu possa ventar, selvagem, há um tigre que me deita no escuro, há um tigre que me deita no escuro sem que eu precise meus olhos fechar, há um tigre que me diz que as cores guardam segredos, há um tigre deitado em meu coração e dorme mansamente sem perceber que pesa e desconcerta meus vermelhos.

 

***

 

Rua sem saída



Na última casa do final da rua sem saída
[seria uma metáfora da minha vida?]
meu portão verde mais parece ironia

Da casa da frente, a roseira vermelha espia
um navio entra por engano na avenida
e ancora teu nome de frente para a utopia
[perto da minha janela]

A palavra ancorada pesa como um prédio
Balança a minha casa como num mar aberto
Estilhaça as vidraças com vista para o aperto

A falta derrete na boca como uma mesa

 

***

 

A louca dos giros


A Ilusão é uma andrógina rosa azul:
miraculosa, incólume aorta do eterno ainda
de olhinhos opacos de vidro sem brilhos e míopes,
andar inquietante, em círculos,
a girar no mesmo lugar da Espera,
no pátio dos afobados, todos os dias, de mãos suadas,
cigarro em fumaça a desenhar no ar um incompreensível
tarot.
Ela, tantas vezes cigana, estava vestida elegante
como se fosse a festa no hospício.
E um sonhador diz:
— Olha, outra vez, a ilusão em giros, sem ficar tonta, sem
envelhecer! — E corre para com ela se deitar.
A louca dá uma gargalhada alta, mas nada se mexe, então,
risca um fósforo verde e ateia fogo em si!
Ah, o súbito incêndio das vontades esquecidas arde em seu
corpo silenciado na fogueira ensandecida de Talvez.
E o sonhador se lança também no incêndio
como se fosse Ícaro, mas sempre é tarde demais.
Na cera derretida de suas asas,
a mesma mensagem da “louca dos giros” repara:
— Amanhã, meio-dia, no pátio dos afobados, como se fosse
festa no hospício novamente estarei. Você vem?

 


 

Livro: Insólito sólido

Autor:
Juliana Gemini

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 160

Formato: 14x21

Preço: R$ 40,00 + frete