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José Arimatéia

JOSÉ ARIMATÉIA


José de Arimatéia Silva nasceu na cidade agreste pernambucana de São Caitano, distrito de Caruaru, em fevereiro de 1965. A família se tocou para São Paulo em 1969, e como quase todas as famílias que assim o fazem, nada trazia senão a esperança de dias melhores. Viveu a infância e a juventude em Santo André, no Grande ABC, tendo, depois, vindo morar e viver na cidade de São Paulo, cidade esta que abraçou como sua. Hoje, e desde 1988, é funcionário público no Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região. É casado com Dilsa Ferreira e tem dois filhos desse casamento, João e Fernanda. Acredita que “ir vivendo ajuda a viver” nesse mundo de “meu Deus”. Formado em Filosofia pela Universidade São Judas Tadeu (SP) aprofundou suas pesquisas em Estética, essa terra de ninguém.

 

 

Contatos:

 

 

 

 

 

Conheça 5 poemas do livro O cisne negro, o ornitorrinco e o relógio parado, de José Arimatéia:

 

 

O FANTASMA

 

Não é da morte que eu tenho medo,

essa sorrateira.

Nem do paulatino esquecimento

do que se foi fazendo tão cuidadosamente.

De certa forma, mesmo esta manhã

já semeou algum futuro incerto.

Não, nem da morte tenho medo,

mas desta fantasmagórica condição,

e deste horrível e vão sofrimento.

 

***

 

SONETILHO

 

Quando termina o amor, o que permanece?

A terra finda, o mar não principia.

Quando o amor termina alguém tece

Longo, longo bordado que desfia.

 

Cantilena da noite em noite fria

Sobre o tear da dor que enternece,

Alguém a morte vê que se anuncia,

Morte triste, o claro dia que envelhece.

 

Mas o amor era não muito mais,

Esse adiar o tempo de partir,

Esse esperar o sempre, o nunca mais.

 

Calar na carne o fim de tudo.

Calar a hora escura de urdir

a última trama na roca do absurdo.

 

***

 

APESAR DA TARDE AZULADA

(para Dilsa)

Há um tempo que nos espreita
à sombra deste abacateiro;
Um tempo e só.
Um temor de que tudo se dissipe
como a névoa que pela manhã cobre a mata
de um branco molhado.
No meio das copas verdes, 
o ipê como um sol de ontem,
amarelo ainda mais.
Toda a tarde, e apesar da tarde azulada,
toda a tarde, 
e apesar dos abraços e beijos,
eu pensei em você desesperadamente,
muito embora você estivesse ali comigo, 
tão junto,
como eu estaria quando caía a primeira chuva
que fertilizou esses vales.

 

***

 

POR NÃO SABIDO ARTERIAL MISTÉRIO

 

 

Faleceu na noite, por não sabido arterial

mistério

o homem comum.

 

Da vala comum soprou uma brisa mortal

de ausência.

 

Entretanto somos iguais, entre tantos,

na noite pelo caminho, sob a luz,

 

mundo de minério,

ciência.

 

Nenhuma porta de vidro pode nos guardar,

e canção nenhuma conter o que há de ânsia,

 

nem se pode relatar com absoluta franqueza

o que aqui se pretendeu.

 

***

 

MELANCOLIA

 

A carne é a mãe da carne e a alma não está em nós,

nem a procures, porque há as pedras e há as plantas.

 

O que são vísceras, o que são nitratos, os teus olhos

mais tarde acostumam-se à luz do sol, luz desse mundo.

O que são vértebras, o que são hormônios, os teus dedos

mais tarde tocarão a pele escamosa de um homem nu,

o que são lágrimas, o que são plasmas, os teus gritos

mais tarde ecoarão nos ouvidos de um homem chorando,

os teus gritos reverberarão na carne viva e fluida,

e percorrerão os nervos da morte, as escuras cavernas

do amado, onde o amor não há, senão sucos e fibras,

senão a matéria da escuridão e do silêncio, a alma

do que vier a se iluminar, quando, entre os teus estertores,

uma criança chorar pela mesma dor porque tu choraste.

 


 

 

Livro: O cisne negro, o ornitorrinco e o relógio parado

Autor: José Arimatéia

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 108

Formato: 14x21

ISBN: 978-85-8297-367-7

Preço: R$ 38,00 + frete