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Renan Nuernberger

RENAN NUERNBERGER

 

Renan Nuernberger nasceu em São Paulo, 1986. Autor de Mesmo poemas (Selo Sebastião Grifo, 2010), publicado com apoio do ProAC, e organizador da antologia Armando Freitas Filho (EdUERJ, 2011) da coleção Ciranda da Poesia, é mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP com a dissertação Inquietudo: uma poética possível no Brasil dos anos 1970. Atualmente, dedica-se uma tese de doutorado sobre o livro Museu de tudo, de João Cabral de Melo Neto, na mesma instituição.


Contatos:


Conheça 5 poemas do livro Luto, de Renan Nuernberger:

 

VOO


se um pássaro nascesse (súbito) no céu,
seu voo, então, seria
inédito? ou seria a ação mimética
de tudo quanto é asa
, apenas? nenhuma
mudança anatômica que gerasse,
em ciência, outra classe? um milagre?
ou uma réplica do que já existe
naquilo que chamamos pássaro?

e se uma asa, autônoma, desprendida do
corpo-pássaro,
formatasse em ato (músculo)
um voo de mecânica clara, com tudo
o que há de exato
e belo em sua dança sinuosa? seria uma
novidade? ou somente um protótipo,
cópia imperfeita, daquilo
que chamamos asa na natureza?

e se esse voo, sozinho, se fizesse
puro gesto
(módulo) de vento? seria, assim,
algo raro ou, em sua
invisível forma,
uma coisa qualquer, cotidiana?
um mistério transparente entre
nuvens ou, quem sabe, um vácuo,
tão óbvio, sob a luz do Sol?

e se o voo fosse seu avesso? um anti-
voo, parado em pleno
ar? seria, enfim, (nítido) um
assombro, confundido com um eclipse ou
com um ovni? negaria
as leis da física, ser concreto? ou
seria o que chamamos de helicóptero?

e se fosse, tão somente, a ideia voo –
sem (máquina) gesto algum, sonho
de ícaro? seria, agora,
matéria de poesia para o século XXI?
ou pastiche, frame
a frame, de uma imagem datada? que
atributo haveria nesse, se possível,
verso, preciso, que brotasse, original?

 

***

 

ELEGIA

 

dessa fome insaciável, desde antes
das privações concretas do existirmos,
não há na natureza um só desgosto
que justifique humanamente a chuva
da tarde carregada de sentidos
aéreos. (com suas nuvens cor-de-chumbo)

um coração pateta, o canto seco
no qual nos abrigamos
, ressentidos,
com o gesto que falhou no exato instante
da mais profunda dor ou da alegria
mais banal.
dessa fome insaciável que persiste
além do açúcar, que tanto fabricamos
(feito abelhas), por todos os volumes
que leremos ou em todos os amores
que negamos, não há na natureza
uma só cifra de comunhão rompida
– como a nossa.

em tudo que ressalta essa fome
encontro um traço ácido
de mágoa e eu
aqui parado já sabia
que nunca mais estreitaria o laço
tão frouxo do futuro do pretérito
– espécie de arremedo de poema –
cuja promessa alimentara os séculos
e o cão cérbero que os mantivera intactos
nas solas dos sapatos louboutin.
não há na natureza uma só máquina
que em si remeta a nós naturalmente
(o boi que expia a culpa, a carne, o couro
somos nós mesmos nus com outra máscara)

e a fome desta tarde, assim sabemos,
engana-se com dois ou três prozacs.

meu coração pateta e o canto seco
calados pela tempestade elétrica
que reverenciamos mas tememos
em sua vida eterna e mineral
neste universo, que prescinde da gente,
.....................insuportavelmente permanente.

 

***

 

ÚLTIMO ADEUS (TAKE 4)
pensando em Ana Cristina Cesar

 

não te reconheço, darling,
na lógica do chá
das cinco
já não constam
os detalhes biográficos
(jornalismo
a dois) do início

aqui não há mais cofres,
nem teus olhos, fundos
falsos – tudo é poro,
azulejos,
banho quente
(o meio é a mensagem)
e o vapor que embaça os vidros

sem espelhos, porém,
e provisório
meu corpo e o teu agora
são um mesmo
(exagero, eu sei,
na afetação) e cada
gesto é um signo do espanto

à nossa intimidade
assim forjada
compete uma linguagem
inexprimível
mas sinto que você
(esfinge, outra)
entende longamente

porque, parco enigma,
eu também, bem, tenho escrito




***


LUTO

para Carlos F. B. Martin


um dia o cultivo – secreto – de flores
/ do amor abstrato aos gestos concretos
(mãos imundas de terra, projetos, suores) /
romperá o asfalto de um modo insurrecto

e claro em seus livres mas caros valores,
luzindo com porte de coisas solares:
fraturas expostas na esteira dos séculos
avessas, em tudo, aos seres suaves.

pensando em matizes de cor tão vibrantes
, que nem poderia – que pena? – cantá-las,
resguardo-me apenas ao mero recolho

do exemplo, preciso, presente no ato
(a rose is a rose is a rose is a rose…)
de grande coragem que é ser generoso.



***


MÍNIMA CANTADA


com tanto amor
(assim mormente)
meu bem prescinde
de qualquer canto

 


 

 

Livro: Luto

Autor: Renan Nuernberger

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 160

Formato: 14x21

ISBN: 978-85-8297-366-0

Preço: R$ 38,00 + frete