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Romy Schinzare

ROMY SCHINZARE

 

 

Romy Schinzare nasceu em Guariba, interior de São Paulo, em 17 de junho de 1962. Cresceu num Sítio, em meio à mata, rios e animais. Trabalhou por trinta anos na Educação do Município de São Paulo atuando como Professora, Coordenadora Pedagógica, Supervisora Escolar e Diretora da DOT–EJA na Secretaria Municipal de Educação. É graduada em Pedagogia pela Universidade Paulista com especialização em Docência do Ensino Superior e possui Extensões Universitárias em Psicologia Social e Comunicação, Educação e Arte na Cultura Infanto-Juvenil pela Escola de Sociologia e Política. Atualmente ensina e aprende com as crianças da EMEI São Paulo e se dedica ao estudo da música. Ama ler, tocar um instrumento, cantar, conversar com amigos e alinhavar tudo isso com histórias que inventa.


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Conheça 2 contos do livro Mandrágora, de Romy Schinzare:




FALANDO COM ESTRELAS
“This is Major Tom to ground control
I'm stepping through the door
And I'm floating in the most peculiar way
And the stars look very different today”

(David Bowie, Space Oddity )

 

 

 

A chamada “rua de trás” ficava isolada, ao fundo da principal. Lá morava uma família cujos pais tiveram quatro filhos homens, diferença de idade de dois anos um do outro. Cresceram brincando na marcenaria do pai, que há muito mantinha a família com sua profissão. Pessoa simples criou os filhos como pode, conforme o serviço aparecia. Numa época em que as ruas da cidade ainda pertenciam à infância, cresceram juntos a outras crianças da vizinhança, jogando bola, dançando e ouvindo os sucessos jovens das rádios. Em geral, música americana empacotada e pronta para ser consumida através de pequenos discos compactos de vinil, que eram vendidos no centro da cidade. Havia também os LPs, feitos do mesmo material e um pouco mais caros que seus similares de tamanho menor.

Por volta dos anos setenta e oitenta, eram iguais a quaisquer outros jovens de bairros periféricos da megalópole, queriam ser felizes, ter amigos, ouvir boas músicas e se dar bem com as garotas.

A sala da casa, nos sábados à noite, se transformava em discoteca e as meninas da vila eram convidadas para a festa. Geralmente elas compareciam com suas melhores roupas para impressionar os presentes. Verdade seja dita, eram peças surradas, muitas vezes reutilizadas da irmã mais velha. Na periferia era assim, calças, blusas e sapatos tinham tamanho único. Como era costume se ouvir na localidade: “pé de pobre não tem número”.

A festa começava acanhada, as garotas sentadas num velho sofá e os rapazes em pé, fazendo tipo com um copo em uma das mãos, um cigarro na outra e uma jaqueta de couro, estilo rebelde. Todo mundo sabia quem paquerava quem, mas as relações eram veladas. Quando o baile avançava e a bebida encorajava, um ou outro rapaz tirava uma garota para dançar.
Este era o momento do prazer máximo a que se permitia o grupo. Que fazer além de paquerar num ambiente onde as perspectivas são tão limitadas? Na verdade, ninguém se preocupava com isto, viviam o momento e os bailinhos embalaram muitos sábados destes jovens órfãos do mundo.

A vida seguiu seu rumo para os garotos e as meninas. Uns se distanciaram, estudaram para além do colegial – fase em que a maioria parava por falta de dinheiro para pagar a faculdade. Outros, com muito sacrifício conseguiram cursar universidades públicas. Estes deixaram de comparecer à casa e, em pouco tempo, raramente eram vistos no bairro. Tomados pelo trabalho e estudo, sem perceber, se distanciaram dos colegas.

Os quatro rapazes, presos no labirinto caprichoso do destino, permaneceram por ali, enraizados no que acreditavam. Continuavam ouvindo música, bebendo, fumando cigarros cada vez mais fortes, sem perceber o tempo marcar suas faces com rugas precoces.

Sobreviviam da profissão do pai, dando continuidade à velha e empoeirada marcenaria ao fundo do quintal.
Nos finais de semana, corriam bares, subiam ruas nas madrugadas frias em zigue-zague, mal dando cabo de cruzar a esquina em direção à morada. A vitrola continuava embalando os sonhos daqueles mágicos rapazes que, precocemente, foram carregados desta vida, um a um, tal qual nasceram, a cada dois anos.

Como o bairro sentiu aquelas ausências! Perdeu ele a partitura escrita no ar que invadia cantos e esquinas esquecidas da periferia da megalópole.

As garotas e garotos que se formaram, arrumaram bons trabalhos ou constituíram família e, ao retornarem às raízes, percebiam o quanto mantinham de vivo na memória aqueles velhos e bons bailinhos. Momentos marcados pelos encantos da adolescência, regados a rock’n roll e baladas que atravessaram o oceano para desaguar em suas moradas, pelas mãos de uma nova juventude.

Ninguém jamais saberá se a verdadeira magia destes instantes está na idade com sua forma bela e leve de ver a vida ou nas pessoas que crescem cúmplices, se alicerçando umas nas outras em lugares abandonados. Talvez em ambos. Fato é que no céu algumas estrelas anônimas piscam para mim, mas seu anonimato é para os outros; em mim, brilham cheias de significados.

 

***

 

MANDRÁGORA
“As mandrágoras exalam o seu perfume, e às nossas portas há todo o gênero de excelentes frutos, novos e velhos; ó amado meu, eu os guardei para ti.”
(Cântico dos Cânticos, 7:13)

 

E ela se plantou bem ali no cantinho do quintal numa madrugada fria. Chegou sorrateiramente, olhou de soslaio para a varanda da casa que adormecia e, não vendo ninguém, cavou sua cova nem funda, nem rasa. Fincou raízes naquele solo fértil e adormeceu acobertada pela terra morna e fofa.

Quando o sol despertou, a alegria tomou conta dos moradores da casa. Ocupavam eles o quintal, preparando a festa de São João. Como qualquer outra família do bairro, arrumavam cadeiras, estendiam bandeirolas de um canto a outro, montavam a fogueira. Na correria, ninguém notou o pedaço de terra remexida no canto do quintal, nem imaginaram que sob seus pés a planta humana estava a se espreguiçar e vagarosamente crescia, super feliz por aquele momento esperado há anos.

No mundo dos homens - seres que acreditavam dominar o planeta - era tida como um tipo exótico de planta, já no mundo das plantas, tratada como humano inconcluso. Não se incomodava com estas histórias, o importante era manter os dois mundos em total ignorância sobre sua real existência. Atitude prudente diante das possíveis represálias. Seriam capazes de exterminar sua espécie rapidamente para provarem-se superiores ou por simples instinto de sobrevivência.

Desde que fora concebida, aprendera ser híbrida (meio planta e meio homem), mas prudentemente carregava um pouco de medo e muito amor por esta condição. Ainda na primeira infância foi entregue ao seu destino, salvar o planeta da destruição completa. Teria que decidir como iria fazê-lo.

Seus ancestrais ensinaram que as Mandrágoras eram seres puros e os “homens” e as “plantas” uma anomalia genética de sua raça. Consistia, a referida anomalia, na presença de um gene dominante a mais que levava a espécie portadora ao esquecimento da outra. Atuava diretamente na memória e ocorria tanto em homens quanto em plantas, já no momento da criação.

A anomalia era a mesma, porém conduzia a atitudes distintas: Atingisse a raça humana, esta passava a ter uma relação destrutiva com o planeta, faziam queimadas, desmatavam grandes espaços geográficos... Atingisse o reino vegetal levava a aridez do solo porque as plantas se recusavam a brotar e em casos mais radicais, contribuíam para processos de destruição dos continentes e mortes de humanos como inundações, avalanches, erupções vulcânicas, etc..  A anomalia gerava um tremendo mal estar entre os dois mundos. O homem exterminava a natureza, se esquecendo de sua própria condição no sistema e vice versa. Tudo ficava meio sem lógica.

A cada cem anos, uma Mandrágora, ser uno, era enviada ao planeta com a missão de amenizar as divergências entre homens e plantas.  Sabia de seu papel e importância do que deveria fazer, até mesmo para a preservação da própria espécie.     Assim, naquela noite quando adormeceu e espalhou suas raízes pelo solo fértil, emitiu a Mandrágora um chamado aos ancestrais para que a auxiliassem naquela missão – depois de cada passagem de uma Mandrágora pela terra, após cumprir a missão a que fora destinada, (sempre eram distintas) ela aqui permanecia, adormecida no manto interno do planeta. Só acordavam diante do chamado de uma recém chegada.

Despertas, confabularam velhas e jovens plantas humanas até que o dia raiasse três vezes. Decidiram tomar o caminho das águas para atuar nos dois mundos. Usariam como fonte de sobrevivência o elixir do “amor”, sentimento que poderia, segundo acreditavam, superar qualquer mal ou desavença.  Assim, passaram dez anos despejando em nascentes, rios e mares o líquido de seus frutos afrodisíacos e espalhando pelo ar seu perfume inebriante.

Sem que se dessem conta, homens, mulheres e plantas estavam se amando, reproduzindo e produzindo frutos. Perfeito! Foram anos de muitas alegrias e nascimentos nos dois reinos. O planeta ficou mais verde, mais florido e havia mais crianças a correr pelos arredores.

Missão cumprida. Exaurida, a jovem planta humana foi conduzida para o reino do subsolo, adormecendo com as demais. Ali em silêncio profundo aguardariam até que uma nova Mandrágora retornasse para uma nova missão.

 

 

 


 

 

Livro: Mandrágora

Autor: Romy Schinzare

Gênero: Contos

Número de Páginas: 96

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete