learnex

Suelen Carvalho

SUELEN CARVALHO

 

Suelen Carvalho nasceu em Castanhal, no Pará, em 1982. É jornalista e roteirista. Publicou contos em revistas, antologias independentes e um e-book infantojuvenil. O passado é lugar estrangeiro é seu primeiro romance.

 

Contatos:

 


Conheça um trecho de O passado é lugar estrangeiro, romance de Suelen Carvalho:

 


Parte 1

Aproximação


Eu chego sem ser percebido, como um fruto que cai de uma árvore alta. Em segundos posso ferir ou alimentar. Foi dessa forma que entrei na vida dela.



Ainda estava escuro, mas ela se levantou sem acender as luzes. Qualquer clareza provinha dos poucos flashes dos carros que passavam na rua e movimentavam de sombras o teto. Começou a fazer as malas que não eram dela. Ela não iria embora, mas muitas coisas precisavam ganhar outro lugar. Tudo estava revirado ali. Enquanto dobrava camisas de botão e calças, chorava em silêncio. A respiração estava rápida. Uma decisão foi tomada. Um corte dilacerante de luto, de perda completa, de fim.

Cada peça de roupa, cada pequena coisa, era um momento gravado no tempo. Tentava arrumar tudo de olhos fechados. Abria-os de vez em quando, no tormento de pressentir que, mesmo escondendo os objetos, tirando-os da vista, a história da sua vida sempre os mostraria como fantasmas de um sonho falso.

A luz da manhã começou a entrar pela janela e as sombras dos móveis davam passos lentos, crescendo na direção dela. Diana fechou as cortinas para que continuasse no escuro completo. Mesmo assim, por pequenas picadas no blackout um pouco danificado, pontos de claridade faziam da cortina um pequeno céu estrelado na parede. Apesar de estar assombrada com os últimos acontecimentos e com as descobertas que fez, ela achou a imagem bonita e se admirou por um instante do quão dissolvente pode ser a luz.

Ela se movia na esperança de que a dor se perdesse no breu e a deixasse em paz. Repassava cada minuto dos dias vividos com ele. Tinha, no rosto, expressão de quem faz contas mentais. A cabeça não parava de recordar e o corpo de viver, de novo, tudo. A vida se repetia.

Houve uma pista no dia das bodas de prata dos pais dele. Começamos a namorar há dois meses. Ele sobe para o quarto, liga o computador e se tranca. Com a casa cheia, depois dos discursos, ninguém percebe a ausência dele. Eu, sim, estranho.
Bato na porta, chamo com carinho, pergunto o que está acontecendo. Ele diz que vai abrir. Quando entro, o computador mostra um último segundo de luz. O quarto escuro. Ele pega a minha mão e voltamos para a festa.

- O que tu estavas fazendo? - pergunto enquanto descemos as escadas.

- Tinha que responder uns e-mails. Tenho uma audiência importante segunda-feira - responde.

- Não dava para esperar a festa acabar? - desconfianças murmuram no meu ouvido. Prefiro não ouvir.

Ele não responde. Já estamos de novo entre os convidados.

Diana tinha olheiras profundas de sono ruim e muito cansaço. Ela se deitou um pouco na cama e de novo fechou os olhos. Em poucos minutos começou a se debater e pronunciar palavras indefinidas, grunhidos apenas. Virava para a esquerda, para a direita, ficava de bruços, sempre falando algo que não se entendia. Um grito e ela saiu do pesadelo. Sentada na cama, olhou para as malas por fazer. Tinha medo de abrir gavetas e acessar indícios que levassem a mais certezas desagradáveis.

Como conseguiria, naquela manhã, onde tentava de qualquer jeito se esconder da luz, separar as roupas de alguém que considerava parte de si mesma? Ela continuou a dobrar e encaixotar os pertences dele. Chegou o meio-dia e toda a bagagem ficou pronta.

Saiu do quarto com os olhos entreabertos e ligou a televisão. No telejornal, alguém avaliava o quanto é difícil, no Brasil, ser previdente com relação a queimadas durante a seca e a enchentes na estação das chuvas. Não é óbvio? Por que esperar tragédias previsíveis sem tomar providências? Ela colocou a mão no peito e se curvou, algo queria sair de dentro dela. Não era o coração, era vômito. Olhou para as imagens na TV e viu a própria devastação.

Eu não sabia que estava construindo a casa dos meus sonhos em um barranco. Não sabia que o terreno era tão frágil e inseguro. Tão perigoso. Eu não sabia que estava arriscando a própria vida.  Nenhuma Defesa Civil me alertou. Pelo contrário, todos que poderiam me defender do Marcos também foram enganados pelo mesmo solo traiçoeiro.

O vômito estava no chão da sala. Ela era como aquelas cidades atingidas por enchentes incontroláveis, deslizamentos de terra, sempre sazonais. A mágoa tomava conta dela. Ódio das circunstâncias, da vida e da morte, que deixou cada um de um lado. Como reconstruir? Era preciso tirar a lama, limpar o terreno, jogar os destroços fora, esperar a terra secar, enterrar os mortos. Não tinha forças para um novo começo. Deu passos em direção ao quarto, mas tinha que limpar aquela sujeira. Deixou a golfada para trás, ficou lá no chão, azedando, e voltou à cama. Quem sabe não conseguiria dormir por mais tempo. Ficou olhando para o teto.

- Fernando, não chuta a minha bola! É de vôlei, não de futebol! Vai estragar, vai ficar torta e empenada!

É domingo, meu pai está bêbado na taberna da esquina, e fica enfurecido com aquela implicância infantil com um vizinho. Pega uma faca no balcão e rasga a bola, corta tudo em pedacinhos. Grita comigo. De longe, aponta a faca para mim, mas a joga no chão e sai pela rua, dobra a esquina. Eu começo a desejar a morte e abraço minha mãe, que não faz nada. Quero puni-lo de algum jeito. Se eu morrer agora ele pode aprender o quanto isso machuca. Eu não quero que ele morra, eu quero que ele me veja morta e sofra o resto da vida por causa disso. O algoz deve sentir o eterno remorso. Isso deve ser pior que o inferno. Ele nunca me bate, não fisicamente. E eu nunca entendo o motivo.

Ouviu a campainha. Quem é? Por que não tocou o interfone? Abriu a porta e era a mãe dela. Diana não disse uma palavra, apenas se virou e voltou ao quarto. A mãe quis falar, mas viu o vômito no chão. Foi limpar.

 


 

 

 

Livro: O passado é lugar estrangeiro

Autor:
Suelen Carvalho

Gênero:
Romance

Número de Páginas:
208

Formato:
14x21

Preço:
R$ 38,00 + frete