learnex

Vanessa Maranha

VANESSA MARANHA

 

 

Vanessa Maranha é autora de Pássara (Editora Patuá, 2016). Participou de várias antologias de contos, entre elas +30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Record, 2007), organizada por Luiz Ruffato. Em 2001 foi finalista ao Prêmio Guimarães Rosa da Radio France Internationale; em 2004, venceu seleção de contos da Universidade Federal de São João Del-Rei (MG). Foi selecionada para as oficinas literárias da FLIP em 2010 (Jornalismo Literário), 2012 (Crítica Literária) e 2016 (Shakespeare; promovida pelo British Council). Em 2012 venceu o Prêmio Off Flip, no ano seguinte, o Prêmio UFES de Literatura (Universidade Federal do Espírito Santo) com o livro de contos Quando não somos mais (EDUFES, 2014) e também o Prêmio Barueri de Literatura 2013/2014 com Oitocentos e sete dias (Multifoco, 2012). Foi finalista ao Prêmio São Paulo de Literatura 2015 com o seu romance de estreia Contagem regressiva (Selo Off Flip, 2014).

 

Contatos:

 

 

 

 

Conheça 1 conto do livro Pássara, de Vanessa Maranha:

 

quando o mundo parou

 

Logo após o momento em que um blecaute atingiu o planeta, paralisando todo o sistema de energia elétrica administrado por computadores, Ilana submergiu.

Ela então nadava num aquário borbulhante com sofisticado sistema de propulsão e escoamento de água que à pane geral não manteve a drenagem prevista para automaticamente, à falta de energia, iniciar o gerador ou, ainda, a boia mecânica. Falharam ambos.

Seu terror à escuridão e elevação da água que em segundos a afogaria não foi maior do que a imediata remissão ao nome de seu filho Ian. E não foi no propósito de salvá-lo que seu pensamento se deu:

-Ele conseguiu.

Imagens entrecortadas da criança raquítica e branquicela; depois do rapaz desadaptado trancado noite e dia no quarto diante de um computador atravessaram-lhe a mente até o ardor subir insuportavelmente às narinas e a água doer-lhe como fogo estufando os pulmões, encharcando pesadamente cada milímetro de seu corpo impotente.

Ian não podia, do outro lado da cidade, dimensionar nem traduzir claramente o que sentiu quando encontrou a última pista que faltava para de modo sistêmico, em efeito dominó, invadir a geração e distribuição não-autônoma de energia em massa e lançar a parte adormecida do mundo ao breu da noite sem lua e a outra parte, em imobilismo e caos.

Ex machina, não divisava a extensão dos resultados do seu jogo: Paris, o congestionamento monstro com todos os semáforos desligados; na Espanha, quatro trens descarrilados – quinhentos e  trinta passageiros mortos. Na Venezuela, gasodutos enlouquecidos, então, um vazamento sem precedentes que intoxicara letalmente uma cidade inteira.    Nos hospitais de todos os rincões do mundo as máquinas cediam à ausência de sinal, geradores enferrujados que não respondiam, e, portanto, as chacinas silenciosas de seus humanos convalescidos.

Somente Ilana poderia saber. E se a consciência de que aquilo viera de sua carne duplicada, aquele filho, era porque violentamente em sua familiaridade sempre o estranhara: o seu silêncio, os olhos redondos e brilhantes como os de um roedor, a feição de velho que desde bebê trazia numa seriedade constrangedora.

Depois, a criança sem amigos, vitimizada entre os diferentes na escola, embora os elogios dos professores pelo desempenho nas provas. O mesmo que com a pele sempre gelada deslizava para debaixo dos lençóis da mamãe até a adolescência: de dia um carrancudo que tentava esconder em altivez o seu pânico, mas aquele outro que ao correr da madrugada não conseguia sustentar firmeza. Olhava a mãe se vestir e com curiosidade, esquadrinhava a sua silhueta, como que buscando aprender algo de seu próprio corpo no corpo do outro.

Era indefeso que ele se achegava mudo, vencido, para adormecer ao seu lado. O quarto, repleto de pôsteres de seus ídolos do rock, dos HQs e dos games.                Ilana percebeu quando as fugas do filho até o seu quarto cessaram. Entendeu que ele então se encantara pelo mundo da computação e se entretinha às madrugadas em chats, salas de jogo. O medo se fora.

Só não se deu conta a tempo de que o garoto andava frequentando com desenvoltura os domínios de hackers graduados, ele próprio se tornando um deles. Trocavam dados, espalhavam vírus, chantageavam empresas, invadiam sistemas, desviavam fundos, decifravam senhas.

Essa nova fase desconhecida da vida de Ian parecia ter-lhe dado vivacidade nunca demonstrada. Um propósito para existir que jamais suspeitara possível. Ilana comentava, nesse tempo, feliz, com os colegas de trabalho, de sua satisfação em ver o filho mais animado, até mesmo mais belo, conjeturando que estivesse apaixonado o garoto de escassas palavras, gestos robóticos e olhos de marsupial.

- Até um sorriso, um esboço, é verdade, vi ontem no rosto dele, comemorara, embora se visse forçada a reconhecer que, no todo, continuava o esquisitão de sempre – ‘corpo presente’, como costumava definir o filho.

Sua sisudez só não aplacava o ar ligeiramente tímido e de desprezo com que, em disfarçada altivez ele seguia subsistindo. Um dia, quando a mãe saía apressada do banho, ele a interpelou. E Ilana tinha clareza de que essa era a primeira pergunta que em dezessete anos ouvia dos lábios desse filho:

- E se de repente tudo nesse raio de planeta ficar parado?

Ela devolveu-lhe a pergunta:

- O que aconteceria?

Com dúvida que não dissimulou ele hesitou:

- Não sei.

- Por que a pergunta?

- Porque é exatamente o que eu gostaria de ser capaz de fazer.

- Provocar a imobilidade e a escuridão no mundo? Ora menino, que ideia!, desviou-se, dando um beijo seco em sua bochecha fria.

- Tenho que ir agora, meu filho. Deixei um lanche para você dentro do microondas. Vou para a hidroginástica. Não devo demorar.

 

 


 

 

Livro: Pássara

Autor: Vanessa Maranha

Gênero: Conto

Número de Páginas: 150

Formato: 14x21

ISBN: 978-85-8297-316-5

Preço: R$ 38,00 + frete