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Mariana Cavichioli Gomes Almeida

MARIANA CAVICHIOLI GOMES ALMEIDA

 

Mariana Cavichioli Gomes Almeida é Mestre em Direito pelo Mackenzie e graduanda em Filosofia na USP. Atua como advogada e professora universitária. Tem diabetes tipo 1 desde os 21 anos. É também autora de “O céu é a pergunta que fica” (Editora Patuá, 2016).

 

Contatos:

 

 

 

 

 

Conheça 5 poemas do livro Acontecida de ser feminina, de Mariana Cavichioli Gomes Almeida:

 

LOT

 

No inferno do meu sexo
no galpão de véus coloridos,
prisioneira do meu próprio estilo
sem poder olhar para trás,
se eu falasse das flores
ninguém teria me ouvido,
portanto, em versos ruídos,
eu falo sobre aquele que as traz.

Acalme-se, o gesto, as mãos.
E então no óleo mais tênue,
naquele que nunca se esgota,
desvendo, você descoberto
e todo céu que o suporta.
Se eu falasse das flores
ninguém teria me ouvido,
se eu falasse de amores
teria sido
incompleta,
direta sou e por isso
eu falo de quem as carrega.

E por mais que não sinta sabores,
algo permanece na língua
enquanto demora a ferida em cicatri-zar.
Acontecida de ser feminina
a explosão estética da vida,
o deleite maior do espírito
solta-se em um leito tranquilo,
no qual abro as mãos e ainda tenho
meu último punhado de ar.



***


ESSAS MARCAS EM MEUS DEDOS

 

essas marcas em meus dedos
ninguém apaga com desejos
embora incitem-me morta
a vida em linha agora torta
nunca espera o que suporta
e importa em tudo que se erra
o verso aqui não se anota
vazia carta, queima-da-borda
afora tudo que anseio
essas marcas em meus dedos
ninguém apaga com desejos
ninguém afaga com promessas



***



GALERIA

 

Tudo está descoberto.
Pra mim, insinua-se o mundo
repleto
do meu reflexo,
complexo
em meu refluxo.
A galeria estridece
de um refrão sem palavras,
embora tantos me digam
errada errada errada.
Três lados com três pontas,
agora que sejam só duas.
E tudo a que temos direito
enrola-se em uma lacuna.
Nada é tão bonito
pra soar como o destino,
nada é tão opaco
pra não passar um quê de acaso.
Translucido ou refletido
lúcido fui só no eu comigo.
E todas as criaturas
converto eu em figuras,
tecendo-as em longo tecido.



***




ALICERCE

 

E o tormento constrói seu alicerce.
O silêncio empurra o que não acontece.
No mundo imeditivamente cresce
um centro que ao entorno desce.

Não,
recuso que são só lembranças
recuso que são só palavras.
A trava no meu peito imposta
é latente diante da proposta errada.
E o mundo que é verdadeiro,
que impõe o não como saída,
nele eu penetro dentro
do que em mim é a pior ferida.
O tempo se desfazen-
do em sendo
o desacordo de palavras,
sílabas pronunciadas
pela metade.
A necessidade paira,
eis minha saída...
teço, meço e remeço
a camisa sob essa medida.
E o silêncio da destruição
do que em mim se faz como desejo,
mostra que é de todo vão
o que me mantém de joelhos.



***



A CENA

 

A você, meu tigre,
é hora de sair da jaula,
mostrar seus dentes e garras
que ferem o peito das presas frágeis.
A você, meu tigre
de pele alaranjada,
da vida toda de resposta errada,
restou a linha de sua verdade.
Entregue ao impulso que surgiu primeiro,
vida e morte do que se tem inteiro,
foge às garras o que era sua presa,
deixa o rastro e a vontade acesa.
Perseguindo o lastro que nos dá o mundo,
não nos esquecemos nem por um segundo,
ao sol que ilumina a tarde,
olhemos nós pra esse chão imundo:
não nos é dada verdade alguma.
No mundo,
nosso concreto
turva o fundo e o amanhã incerto.
Deito ao lado desse meu poema,
bruta a solidão que se parte
mais amena, a liberdade,
ter saudade...
sua vontade
que de mim lhe acena.
A você, meu tigre de
pele alaranjada,
é sua hora de sair da jaula.
É minha hora de
entrar em cena.

 


 


Conheça 5 poemas do livro O céu é a pergunta que fica, de Mariana Cavichioli Gomes Almeida:

 

FLORES DE BAUNILHA


Uma correnteza de gotas gordas

move preguiçosamente galhos e folhas

amarelas castanhas cor de uva.

Melancortaticamente tempestade.

Arrastam-se os limpadores de para-brisa.

Nenhum poeta de verdade,

pelo vagar sem rumo da música,

consegue naufragar pela metade.

Pelo derramar grosso da chuva,

a real causa nunca é a verdade.

Desestaticamente decerto,

deserta que está ilha essa,

ventanias vem me-mimosear

com água e flores de baunilha.

O branco transparece encharcado

as curvas do corpo cá desenhado.

Água, revele-nos então:

perfume de baunilha é sem sabor,

mas num tragar assim denso

doce vazio tão instigante,

sobrar só eu nesse momento

pode ser bom o bastante.

 

***

 

COSTURA

 

macramê em ponto de silêncio

atada minha fala à linha espessa

desembaraço no sentido da costura

voz-crochê com tonalidade ainda crua

a pele cede em-tom ao furo da agulha

no tecido azul urano, o rosa passa

transpassada eloquência à tontura

no desfazer de cada nó que a voz refaça

enlaçar do quê da linha ainda segura

abrigar nas mãos em colcha volta nua

pra que a falta que me reste seja sua

 

***

 

SETOR DE CARTAS MORTAS

 

Cruzados ao acaso angustiam

os sete tons de finda alegria.

Projetadas as cores e se apagam.

O vapor transborda esse galpão.

Na contramão girou o estupor,

velho motor movido a saudades.

Notei que estivemos em festa.

Pensei que existisse uma fresta

...

Já mesmo, antes da hora,

antes de esboçado meu próprio sorriso,

interrompido o nosso circuito.

Nas mãos, as delicadas cartas,

coroadas mágoas, borradas glórias,

conhecidas e tanto em todas as dobras.

Se o sopro da manhã apavora,

transita a imagem pelas forças que a entorta,

vontade que excita e me faz duvidar

de que estive realmente morta.

Deveria supor que iriam embora

levando selado o envelope

com todas as possíveis respostas.

O compasso que hoje me guia

imprime o espaço entre as pegadas

marcadas, marcadas e ninguém

para sentir as vertentes dessas palavras

molhadas de lágrimas

e de sêmen.

 

***

 

MIRANTE



Estende-se a beleza desse galho.

Arqueado e não sinto

a movência de seus passos.

Aceno das sombras,

nitidez no céu oceano,

turva e aproxima o outro plano.

Minha vontade acurada por mil anos.

Todo acaso que se inclina como engano.



O roxo intercala-se por mil panos,

distancia o azul do rol vermelho,

formas de esquecer todo conselho.

No desenho das escolhas,

um vento força

o natural do propenso descaso.

Poesia viva em folhas mortas,

tranquilas fitas e o poente entorta.

Por um curto minuto,

sem sol, sem lua,

tangente desfoco

da festa das luzes na rua.

Serenata dos sons de São Paulo.

E o sobressalto de olhar para trás...

Sentir aquilo que não era uma promessa.

 

***

 

DREAM IMAGES

 

Nunca pressenti

por tão fundo o corte,

as paredes do útero contorcem-se

no contorno de trilhos não concebidos.

O campo de visão é o espaço.

Negro o asfalto iluminado

explode sêmolas de chuva.

Mostras de cinema

passando na janela.

O uivo da noite é a rua

e tudo o que eu sinto dela.

Sinto a morte e é ela,

franqueza ao pé do ouvido

inclinando-se para olhar

o esquecido

que corre em linha reta

frente aos meus olhos.

Acesos ainda os escritórios,

aqui por baixo as folhas são colossais.

Mais um pouco acima: o céu

é a pergunta que fica,

penumbra de todo assombro

construção, gesto e estrondo

empilhados em fileiras de cinzas

e carregados por varas nos ombros.

E o seu riso, o seu canto

diluídos na gota do pranto

que irrompe da retina de deus.

Arranha a imago mais alto

para o acolhimento no nu asfalto.

O campo de visão é o espaço.

E universo inteiro é o céu.

 

 

 


 

 

Livro: Acontecida de ser feminina

Autor:
Mariana Cavichioli Gomes Almeida

Gênero:
Poesia

Número de Páginas:
120

Formato:
14x21

Preço:
R$ 38,00 + frete (Livro em pré-venda, entrega após o lançamento. Amigos e leitores de todo o país que realizarem a compra antes do lançamento receberão o exemplar autografado após o evento. Imperdível!)

 





 

 

Livro: O céu é a pergunta que fica

Autor:
Mariana Cavichioli Gomes Almeida

Gênero:
Poesia

Número de Páginas:
120

Formato:
14x21

Preço:
R$ 38,00 + frete