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Mariana Cavichioli Gomes Almeida

MARIANA CAVICHIOLI GOMES ALMEIDA

 

Mariana Cavichioli Gomes Almeida, autora de O céu é a pergunta que fica (Editora Patuá, 2016) nasceu em São Paulo. Filha de um cordelista vindo do sertão baiano e de uma militante paulista corajosa, cresceu entre versos improvisados, muitos livros e acirradas discussões políticas. Fez Mestrado em Direito Político e Econômico no Mackenzie e, atualmente, é graduanda em Filosofia na Universidade de São Paulo. Atua como advogada e professora universitária. Ganhou o 1º lugar do Prêmio SESC Carlos Drummond de Andrade de Poesias (edição 2014). Tem diabetes tipo 1 desde os 21 anos e trava a luta diária contra a doença, como tantos outros que encontra mensalmente nas filas de insumos e medicamentos. Voltou a escrever poesia aos 25 anos e O céu é a pergunta que fica é o seu primeiro livro.

 

Contatos:

 

 

 

 


Conheça 05 poemas do livro O céu é a pergunta que fica, de Mariana Cavichioli Gomes Almeida:

 

FLORES DE BAUNILHA


Uma correnteza de gotas gordas

move preguiçosamente galhos e folhas

amarelas castanhas cor de uva.

Melancortaticamente tempestade.

Arrastam-se os limpadores de para-brisa.

Nenhum poeta de verdade,

pelo vagar sem rumo da música,

consegue naufragar pela metade.

Pelo derramar grosso da chuva,

a real causa nunca é a verdade.

Desestaticamente decerto,

deserta que está ilha essa,

ventanias vem me-mimosear

com água e flores de baunilha.

O branco transparece encharcado

as curvas do corpo cá desenhado.

Água, revele-nos então:

perfume de baunilha é sem sabor,

mas num tragar assim denso

doce vazio tão instigante,

sobrar só eu nesse momento

pode ser bom o bastante.

 

***

 

COSTURA

 

macramê em ponto de silêncio

atada minha fala à linha espessa

desembaraço no sentido da costura

voz-crochê com tonalidade ainda crua

a pele cede em-tom ao furo da agulha

no tecido azul urano, o rosa passa

transpassada eloquência à tontura

no desfazer de cada nó que a voz refaça

enlaçar do quê da linha ainda segura

abrigar nas mãos em colcha volta nua

pra que a falta que me reste seja sua

 

***

 

SETOR DE CARTAS MORTAS

 

Cruzados ao acaso angustiam

os sete tons de finda alegria.

Projetadas as cores e se apagam.

O vapor transborda esse galpão.

Na contramão girou o estupor,

velho motor movido a saudades.

Notei que estivemos em festa.

Pensei que existisse uma fresta

...

Já mesmo, antes da hora,

antes de esboçado meu próprio sorriso,

interrompido o nosso circuito.

Nas mãos, as delicadas cartas,

coroadas mágoas, borradas glórias,

conhecidas e tanto em todas as dobras.

Se o sopro da manhã apavora,

transita a imagem pelas forças que a entorta,

vontade que excita e me faz duvidar

de que estive realmente morta.

Deveria supor que iriam embora

levando selado o envelope

com todas as possíveis respostas.

O compasso que hoje me guia

imprime o espaço entre as pegadas

marcadas, marcadas e ninguém

para sentir as vertentes dessas palavras

molhadas de lágrimas

e de sêmen.

 

***

 

MIRANTE



Estende-se a beleza desse galho.

Arqueado e não sinto

a movência de seus passos.

Aceno das sombras,

nitidez no céu oceano,

turva e aproxima o outro plano.

Minha vontade acurada por mil anos.

Todo acaso que se inclina como engano.



O roxo intercala-se por mil panos,

distancia o azul do rol vermelho,

formas de esquecer todo conselho.

No desenho das escolhas,

um vento força

o natural do propenso descaso.

Poesia viva em folhas mortas,

tranquilas fitas e o poente entorta.

Por um curto minuto,

sem sol, sem lua,

tangente desfoco

da festa das luzes na rua.

Serenata dos sons de São Paulo.

E o sobressalto de olhar para trás...

Sentir aquilo que não era uma promessa.

 

***

 

DREAM IMAGES

 

Nunca pressenti

por tão fundo o corte,

as paredes do útero contorcem-se

no contorno de trilhos não concebidos.

O campo de visão é o espaço.

Negro o asfalto iluminado

explode sêmolas de chuva.

Mostras de cinema

passando na janela.

O uivo da noite é a rua

e tudo o que eu sinto dela.

Sinto a morte e é ela,

franqueza ao pé do ouvido

inclinando-se para olhar

o esquecido

que corre em linha reta

frente aos meus olhos.

Acesos ainda os escritórios,

aqui por baixo as folhas são colossais.

Mais um pouco acima: o céu

é a pergunta que fica,

penumbra de todo assombro

construção, gesto e estrondo

empilhados em fileiras de cinzas

e carregados por varas nos ombros.

E o seu riso, o seu canto

diluídos na gota do pranto

que irrompe da retina de deus.

Arranha a imago mais alto

para o acolhimento no nu asfalto.

O campo de visão é o espaço.

E universo inteiro é o céu.

 

 


 

 

Livro: O céu é a pergunta que fica

Autor:
Mariana Cavichioli Gomes Almeida

Gênero:
Poesia

Número de Páginas:
120

Formato:
14x21

Preço:
R$ 38,00 + frete