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Ricardo Rizzo

RICARDO RIZZO

 

Ricardo Rizzo (Juiz de Fora, MG, 3/8/1981) é autor de Cavalo marinho e outros poemas (Funalfa Edições, Juiz de Fora/Nankin Editorial, São Paulo, 2002), Conforme a música (poemas, plaquete, Espectro Editorial, 2005), País em branco (poemas, Ateliê Editorial, São Paulo, 2007) e Sobre rochedos movediços: deliberação e hierarquia no pensamento político de José de Alencar (Hucitec/Fapesp, São Paulo, 2012). Estado de Despejo foi publicado em versão eletrônica (e-book) pela editora e-galáxia, em 2014. Colaborou com poemas, ensaio e tradução nas revistas Cacto (n. 203, São Paulo, 2003), Rodapé (n. 3, Editora Nankin, São Paulo, 2004), Rattapallax (n. 10, Nova York/São Paulo, 2004) e Poesia Sempre (n. 22, Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 2006). Recebeu o prêmio “Cidade Belo Horizonte” de literatura, na categoria poesia, em 2004. Foi editor da revista de literatura Jandira (Funalfa Edições, Juiz de Fora, 2004-2005, números 1 e 2). Diplomata, é bacharel em direito pela Universidade Federal de Juiz de Fora, mestre em ciência política pela Universidade de São Paulo, e doutor em História Social também pela USP.

 

 

Contatos:


Conheça 05 poemas do livro Estado de despejo, de Ricardo Rizzo:


Sob o peso do escuro, sob...

 

Sob o peso do escuro, sob
o peso de si mesmo, de bruços
e sob o próprio esqueleto,
sob dobras de pele acima
do outro corpo e sob o leito
de um rio de ar corrente,
indigente inominado no claro
sol que expectorava luz,
no subsolo dos acontecimentos,
sob o peso da palavra, dos guindastes
que reconstruíam campos
e sob a faixa de pedestres
acima dos atores de teatro,
sob o fígado e sob a servidão
de passagem em terreno baldio
apenas afinal sob a luz láctea dos
próprios olhos e dos grilos
rastejou, cotovelos dobrados
entre vespas e sapos,
no seu túnel de três dias,
no seu desespero, como uma larva
em seu próprio crescimento.

 

***

 

Dos registros de moradores de rua


Dos registros de moradores de rua
seu nome não constava
nenhum henrique junto a nenhum
pequeno herói republicano
nenhum mesopotâmio
a invadir vilarejos
apenas o lodo de seu nome
longo, formado por pedaços
de vime, porque tinha família
fugiu dos registros
espalhou-se pelos túneis
sob o sol invertido das imundícies.

 

***

 

Era tanta a sede, e tão alto o canto


Era tanta a sede, e tão alto o canto
tão alto, tão alta a fuga
que pretendia, no fundo tão surdo
o que o chamava, e o que pedia,
tão miúdo era o que pedia
mergulhado no mercúrio
que varriam sob o entulho
tão frio o que varriam
migalhas de furos e tão escuros
os dias e tão mais puros
ainda os mistérios de que se valia
miúdo seu pulso, e a sede
ainda de mais percurso
a piorar a sede sem uso, tão alta
a fuga de seus pulsos
recolhidos em escusas
tão contritos, esmagados
e tão moídas as migalhas, tão brutas
as pedras reviradas que o chamavam
para abaixo das escadas
para dentro de parafusos
que não puderam seus inchaços
evitar tais chamados.

 

***

 

Quando o retiraram do esgoto


Quando o retiraram do esgoto
o homem pedia água e comida.
Tão simples o que pedia
com pequenas palavras
não sabia de onde vinha
atrás do que vagara.
Tivera sede, escondera-se.
Gostava de andar pelas ruas.
Tinha ainda mais sede
fora de seu corpo.
Fora de sua água e de sua comida
tubulações transportavam
outras águas, contidas, que queimavam
por dentro da cidade
em contato com vespas e larvas
vivas, irremovíveis.

 

***

Estudo para um soterramento

 

Metade da vida
está nesta caixa,


a outra, se há,
saiu, misturada ao entulho,


a dar na rua
entre calma e contrafeita.


Metade da morte,
abusiva colheita,


reservou-se o direito
de ficar a distância segura


do corredor, da parede,
à direita dos enfeites,

a espera de um muro
como aliás quem o pressente.

A outra metade
não é exato que exista

fria em seu prato
menos que abusiva, esquiva


em sua mania
de tirar a poeira

dos velhos móveis
e mover com silêncio

as velhas amarras
estacionadas à encosta

de ruas tortas
em cujas casas,

ruínas já antes
de arrasadas,

moravam moços
dados a nadas.

Metade do tempo
perdeu-se no caminhão

amontoado de itens
que faltava levar

a todos os lugares
sob o peso das semanas

e apesar dos pesares.
A outra metade


tentou furar os canos,
contaminar comidas

com fraturas expostas
e pedaços de queixos.

Como duas metades de
um sexo, um endereço

percorreu a manhã do brejo
ao mesmo tempo que

no outro hemisfério
vazio como o bocejo

a velha imagem
de um santo guerreiro

à venda, por alguns míseros
dinheiros, vendeu-se

a um casal de histéricos.

 


 

 

Livro: Estado de despejo

Autor:
Ricardo Rizzo

Gênero:
Poesia

Número de Páginas:
120

Formato:
16x23

Preço:
R$ 38,00 + frete