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Gabriel Morais Medeiros

GABRIEL MORAIS MEDEIROS

 

Autor do livro de poemas Andrômaca, quarenta semestres (Patuá, 2016), Gabriel Morais Medeiros nasceu em Campinas-SP, em 1988, e graduou-se em Letras pela Unicamp. Há quase vinte semestres exerce o violento ofício terrestre (como diria Rodolfo Walsh) de ser professor de Literatura, trabalhando com alunas e alunos que cursam o Ensino Médio. Esta é sua primeira publicação.  

 

 

 

Contatos:

 


Conheça 03 poemas do livro Andrômaca, quarenta semestres, de Gabriel Morais Medeiros:

 

TECLAVAM A FALÊNCIA DAS LASCAS
OU VÍDEO-LOCADORA SIMFEROPOL

 


Quatro da madrugada: geou sobre a cidade
e as nevascas pairavam
como se fossem relógios, infográficos, ou neblinas
perante estelas retroprojetadas,
e as neves, a se estenderem, eram
braçadeiras e colgaduras,
granizos esmaecedores
à altura dos telões sobre
tua varanda; o coração do teu cigarro


aos poucos afunilou-se
já sem pólvora, escombro-nebulizável,
e as presilhas em tua franja teclavam
a falência das lascas,


Andrômaca, nessa madrugada
as lombadas das ruas ao relento
eram consoles
de veículos blindados de transparência envidraçada,

 

e as cerrações, calhas contínuas
entre telhados contíguos,
de São Paulo até a Ucrânia,
de Hévea a Simferopol.

 

***

 

EMOLDURAÇÃO PRIMEIRA

 

Andrômaca, não-prostituta,
quase perdeu a clavícula esquerda ou
quase teve a nuca descolada
no quarteirão da Grêmio Flanqueadores
com a Alfeizeirão.


Está bem, pôde ficar umas semanas sem trabalhar,
e tudo; todavia,
a narrativa seria melhor
se tivesse, precisamente, deixado cair, com ou sem susto,
o poema (em papel-cartão branco-creme)
que anotara para mostrar
para aquele mocinho, ele mesmo, o das dissertações
...........................................................[e artigos,


à guisa de epígrafes,
sobre os Decadentismos:


“não faltes a tua festa
e deixa teu amigo.
Não estou só: estou rouco.
Não me sinto, e tampouco
me sinto só comigo.

 

Aceita o teu convite
que desconsiderei.
Estou tão incolor
que só se eu não for
acompanhar-te-ei.


Eu quero que esta noite
desate-nos os pulsos.
Me esquece, então, por isso:
que o palco é passadiço
e a tudo sou avulso.”


A violência tem
diminuído progressivamente.
O ruim daquela esquina, próxima à Orozimbo, é que
o Mercadão fica perto dali
e os facões, os canivetes
ou um facalhaz,
saem por dois, dois e cinqüenta.


E no bar arengávamos, rindo:
“fui assaltada com um espeto de churrasco”.
Contra a glote.

 

***

 

ALGO OU O CASULO DOS UMBIGOS

 

Algo
na cidade
é difusor
e retransmissor
de propagações de chumbo,
vendavais mornos e mormaços
agônicos,
sem radiação, porém.


Embora não afetem o corpo
nem o cérebro,
nem o casulo dos umbigos,


raspam, por dentro,
os radares rastreadores,
de que as íris e as pupilas sensoras
são azagaias ou poças-refratômetros.

 

Algo
estraga-os,
aos detectores,
como se lhes
subtraísse
as interiores
lentes duplas
ou quádruplas;


algum fator
desintegra-lhes
telinhas e programações,
e interfaces,


descartando-lhes até mesmo
os botões corrosíveis,
danificando-os, deixando-os
cavos como conchas ou trapézios-escápulas sem tutano,
cascas de alumínio, canos aéreos,


ou birutas-mangorras
de arranha-céus
autômatos
impulsionados
falsamente
por
urânios.

 

 



 

 

Livro: Andrômaca, quarenta semestres

Autor: Gabriel Morais Medeiros

Gênero:
Poesia

Número de Páginas:
128

Formato:
14x21

Preço:
R$ 38,00 + frete