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Leandro Rodrigues

LEANDRO RODRIGUES

 

Leandro Rodrigues (1976). Nasceu em Osasco –SP. É Poeta e Professor de Literatura. Lançou em 2016 o seu 1º livro: Aprendizagem Cinza pela Editora Patuá. Em 2017 participou do Jornal de Literatura O Casulo e do livro Hiperconexões 3, Ed. Patuá. Mantém seus escritos no blog: nauseaconcreta.blogspot.com.br. Já publicou poemas em vários sites e revistas de literatura do Brasil, Portugal, Espanha e E.U.A.

 

Contatos:

 

 


Conheça 4 poemas do livro Faz sol mas eu grito, de Leandro Rodrigues:

 

PRIMAVERA




Sangrar como a tarde
em remorso
......e suas convulsões
- Já não encontramos mais
nenhuma veia!

Em tudo o cheiro forte
de formol.

É tarde entre flores.

Setembro se aproxima.

Um ou outro pássaro pousa
nas pilastras térreas do necrotério.




***


FAZ SOL, MAS EU GRITO

..........................................Para Thiago de Mello




I






fartas horas inúteis
em que tragédias são recicladas
e se moldam por entre sombras e gestos desprezíveis
molduras da tarde disforme

ela diz:
“que tempo estranho...”

Estendo as mãos ao vento
algumas gotas ácidas corroem o meu desprezo

Reinvento uns versos esquecidos e ancoro tantas embarcações
em lugar nenhum
Enquanto a nova empresa americana ergue suas cercas

Modulo o tom de voz para não gritar
Mas antes pudesse gritar




II




ruas imóveis sangram
como essa lua vermelha
que escorre
entre os corpos desmedidos
estranhas estruturas de ossos
que sustentam ossos



aguda solidão
d’água cavando
o sólido chão


intacta simetria
de cada grito
moldado ao sol.          





III





quartos, cômodos
corredores em espirais
bocas automatizam
cruas faces/membranas
em cruzes
sombras esquálidas
de meninos esquecidos
nos porões
frios
sem vista para o mar.



***




POEMA DE CINZA CHUMBO





I




O pai ousou gritar nos dias cinzas de chumbo
A mãe rodava panfletos num velho mimeógrafo estéril
Nada entendíamos
Cantávamos tristes canções entre os ciprestes e as sombras.




II



Os mortos insepultos são partes da paisagem
Estão ali nas escadas
Emparedados naquele mar
Seus gritos tangem o fosso - precipícios
enferrujados elevadores do centro,
desvalidas memórias amputadas.




III




Na vala comum desses dias - ossos de um país moribundo
Rescaldos de versos enlameados
No chão que é de poucos
No mausoléu de granito o ditador com honras apodrece
Comunga avenidas e praças de desatada sangria






IV



O pai tecia longos poemas sobre a revolução
A mãe espreitava as frestas do fim do mundo
Nada entendíamos
Dormíamos entre as lápides quebradas da tarde.



***



PARTITURA




Traço retas/ rotas de fuga
voos imaginários
Aproximo o azul/ rente
nuvens são espelhos
a retina se desprende

chuva -

............fragmentos - 


....................................estilhaços





Em parte,
a fuga é traçada
com versos falhos de sangue
tétrica acidez na boca
costurada com arame farpado
das canções de infância.

 

 


 

 


Conheça 05 poemas do livro Aprendizagem cinza, de Leandro Rodrigues:

 

ASTRACÃ


I

É estrangeiro
o olhar
aqui ou em
qualquer lugar
E se perde sem
bússolas
por ruas estreitas
disformes
desprendidas teias
Naquele beco,
naquela conversão
à beira do nada
desvio
a decomposição
da palavra
E o corpo
- estrangeiro em essên-
cia -
traça suas tortas linhas
assimétricas
antirreflexo
estruturas desiguais.


II


É estrangeiro
o mover-se
a passos largos
vielas frias
filme barroco
experimental
agonia
semi-aparente
desprezo
ou poesia.

 

***

 

SÃO PAULO XXVIII

 

entre ruas mortas
tortas
sombras esquálidas
revestidas de fuligem

entre corpos entorpecidos
o cinza
estátuas que se movem
à beira de um esgoto
que toma toda cidade

o gosto de chumbo
está em tudo, em todos
em cada mórbida expressão
em cada palavra ausente
cáustico silêncio

e no lixo que se sobrepõe
horizonte enlameado
frutas podres que boiam
catadas por mãos
ainda mais cinzas vorazes.

 

***

 

EXPERIMENTOS


Experimento o gosto
amargo do poema
e ele traz todos os
mortos que atravessam
nosso tempo -
suas vísceras, misérias,
...................esta agonia,
seus resíduos, nosso ódio
liberdades, tragédias
- cadáveres expostos.

................................

E o pássaro com suas asas
para dentro
Voa cético por sobre
ondas de chumbo
...........e fuligens diversas

.................................

Este rio podre
é nossa alma corroída
à exaustão
Todas as chacinas, todos
os voos abortados
são nossos risos de sangue -

***

 

ESCOMBROS



Nos poucos versos que escrevo
há farpas, gritos, trincheiras
restos de um país
........................em escombros

......................................................

Cortantes sombras que se movem
sob viadutos obscuros, destroçados
Tortos semblantes gauches
- entre ratos e
quase nenhuma palavra.

 

***

 

1937




Sob uma incerta crueza, dorme-se ao relento,
escondem-se os espelhos cortados sob o
travesseiro de penas de galinha. Adornam-se
os ódios ressurgidos na ponta da língua, entre
grades de um ferro carcomido, enferrujado.
Presta-se continência às trágicas sombras
infiltradas que transpassam o vidro escuro-
estilhaçado-embaçado na ampla fuligem
imemorial que nos amortece.
Uma linda garota de olhos azuis bebe todo
o veneno para ratos.
Por um punhado de sobras, restos de janta
atirados no lixo, delata-se ao novo órgão
repressor.
Na chuva, os homens se mostram em suas
certezas, contraditórias asperezas vãs.
Demarcadas pegadas nas poças de lama.

 


 

 

Livro: Faz sol mas eu grito

Autor: Leandro Rodrigues

Gênero:
Poesia

Número de Páginas:
144

Formato:
14x21

Preço:
R$ 38,00 + frete

 

 

 

 


 

 

Livro: Aprendizagem cinza

Autor: Leandro Rodrigues

Gênero:
Poesia

Número de Páginas:
120

Formato:
14x21

Preço:
R$ 38,00 + frete

 

ESCOMBROS

 

 

 

 

 

 

Nos poucos versos que escrevo
há farpas, gritos, trincheiras
restos de um país
em escombros

......................................................

Cortantes sombras que se movem
sob viadutos obscuros, destroçados
Tortos semblantes gauches
- entre ratos e
quase nenhuma palavra.