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Ricardo Silvestrin

RICARDO SILVESTRIN

 

Ricardo Silvestrin estreou na poesia em 1985, com Viagem dos olhos, ano em que se formou em Letras pela UFRGS. Depois vieram Bashô um santo em mim, Quase eu, Palavra mágica (prêmio Açorianos de Literatura), ex,Peri,mental, O menos vendido (prêmio Açorianos de Literatura), Advogado do diabo, Metal (finalista Portugal Telecom e prêmio Brasília), Adversos e, agora, Typographo (Patuá, 2016). Na prosa, Play (contos) e O videogame do rei (romance), ambos pela editora Record. Na poesia para crianças, destacam-se Pequenas observações sobre a vida em outros planetas (prêmio Açorianos de Literatura) e É tudo invenção, que integra a biblioteca básica do estudante brasileiro da FNLIJ. Foi editado no Uruguai, com o infantil Los seres Trock, e nos Estados Unidos, na Antologia Mundial de Haicai, Frogpond. É músico e integra a banda os poETs. Site: www.ricardosilvestrin.com.br

 

 

Contatos:

 

Conheça a apresentação do escritor Ziraldo para o livro Typographo, de Ricardo Silvestrin:

 

Na época do Ivan Lessa, ou melhor, na época em que o Ivan Lessa fazia parte da turma do Pasquim, ele, com seu humor cortante, perguntava, com insistência: “É a poesia necessária?” Nesta pergunta o Ivan usava, no devido ponto, o seu estoque de ironias. E fazia isto para responder que não, a poesia não era mais necessária. Algum tempo depois, um outro dos nossos três grandes humoristas, a seu jeito, também entrou nessa. E, ao fazer pequenos poemas cheios de um humor – também cáustico – exclamava: “Poesia, numa hora dessas.”.

Pensando nos dois humoristas aqui mencionados – o Ivan e o Verissimo – concluí que, diante da deteriorização da alma humana nos últimos tempos, a dúvida dos dois faz sentido. Basta apenas ligar a televisão para lamentar como, acompanhando o destino da humanidade, nós assistimos – apenas como exemplo – à morte da música popular brasileira, à morte de nossa dramaturgia, à brutalização das nossas relações afetivas nesse mundo atual de absoluto consumismo e insensibilidade. Não há mais a mínima possibilidade de se criar um romance epistolar num mundo de e-mails e whatsapp. Será que o romance é necessário? Será que ainda dá para se dançar-de-rosto-colado ouvindo a “nossa canção”? Ainda existem canções de amor? Onde podemos colocar tudo o que chamamos de  poesia neste labirinto de sentimentos mortos? Será que estou dando uma de Jabor? Estou seguro de que nosso brilhante – e céptico – cronista responderia que, agora e daqui pra frente, não é nem será, nunca mais, hora de perpetuar poemas.

Acredito que o Jabor acrescentaria – com o que lhe sobrou de esperança – que sim, estamos precisando demais de bons poetas – de poetas que vejam aquela luz que musas emitem – para iluminar a atual enormidade de túneis escuros (esses sobre os quais, podemos criar metáforas).

Estou escrevendo isso tudo porque sei que parte de nós não foi assassinada até agora, porque nos resta a esperança de que ainda exista espaço – muito resumido, é claro – para haver por aí, uma pequena legião de verdadeiros poetas, excelentes poetas, sensíveis e valentes poetas que – entre outras dificuldades – precisam do já famoso crowdfunding para publicar seu primeiro livro. Como, aliás, Drummond precisou – para publicar o seu – de  uma vaquinha feita pelos amigos (o que era muito mais poético – e perdido no tempo). Não é o caso aqui presente. Este livro é uma publicação da Editora Patuá.

Esta longa peroração tem a missão de apresentar aos leitores o novo livro do Ricardo Silvestrin, um vero poeta e um guerrilheiro da resistência.

 

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Ziraldo

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Conheça 07 poemas do livro Typographo, de Ricardo Silvestrin:

 

CORO


Máscara do riso,
máscara do choro.
- A vida é improviso,
comenta o coro.

Máscara do choro,
máscara do riso.
- Com dente de ouro,
vale mais o sorriso?

Máscara do riso,
máscara do choro.
- Viver é só isso,
o nada é o tesouro.

Máscara do choro,
máscara do riso.
- Coroa de louro
na chuva de granizo.

 

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EQUILÍBRIO



Carrossel de estrelas
gira sobre nossa cabeça.
É impossível retê-las.

Pelo lado de dentro,
acompanha o pensamento,
feito do que se faz o infinito.

E, no entanto, um eu
tenta encontrar o equilíbrio,
andando no céu como um ébrio.

Nuvem se desfaz em fumaça,
roda o relógio na torre,
avisando que a vida passa,

que o tempo escorre.
E, no entanto, um eu
vive sóbrio de porre.

O que se vê está fora de foco,
é só a luz sobre as coisas,
consumidas na dança do fogo.

O oceano trama com a lua
a tormenta, a bonança, enquanto
um eu, com os pés no chão, flutua.

 

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PRODUÇÃO


Não deixe ninguém ver o morto
antes que esteja arrumado.
Nem de lado, nem de bruços,
na sua caixa nova
à prova de soluços.

Não o mostrem ainda,
enquanto se acostuma
com a morte que chega,
com a vida que finda
na moldura de flores.

Guarde pra depois todas dores,
condolências, pêsames
e expressões esquisitas.
O morto está se preparando
pra receber as visitas.

 

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METRO


Se o poeta conta sílabas,
o caos todo se ordena,
o dinheiro não acaba,
ou tudo é alheio, vento, vário,
e o poeta perde a conta,
perde o prazo, paga juros?

Se o coitado conta sílabas,
a incerteza se conforma,
as respostas andam em fila,
inconsciente se decifra
no meio da rua, dia claro?

Pois assim parecia ser
quando o poeta, quando o mundo
eram um número pequeno,
fácil de contar nos dedos.

 

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OVO


É fácil vender armas
a quem vive em guerra,
a um cérebro preguiçoso
vender a nova novela,

viciar um beija-flor
com água e açúcar,
a você e a mim mesmo
com a eterna desculpa.

É fácil ser o herói
que nunca entra na luta,
obrigar mais um filósofo
a ter que beber cicuta,

por em pé o ovo óbvio
a uma plateia obtusa.

 

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LABIRINTO


Felicitar a felicidade dos outros.
Hoje o sol vai brilhar para todos.
Mesmo quem vive só e no escuro
vai se aquecer e retomar a vida.

Está escrito com letra ilegível
que uma alegria invisível e teimosa
se oculta no labirinto da rosa.

Felicitar a felicidade alheia, remota,
quase uma ideia numa língua morta.

 

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VARIANTES



Não haverá mais rascunho
escrito de próprio punho.
Os erros e acertos somem
deletados em redemunho.

Jamais saberão as variantes.
O depois apagou o antes.
Pra sempre, até o infinito,
vale o que está escrito.

Estudiosos estudantes,
curiosos professores,
mestres e doutores,
bolsistas, doravante,

o texto é este e pronto.
Poema, romance, conto,
está feita a escritura.
Aberta continua a leitura.

 

 


 

Livro: Typographo

Autor: Ricardo Silvestrin

Gênero:
Poesia

Número de Páginas:
120

Formato:
14x21

Preço:
R$ 38,00 + frete