learnex

Teofilo Tostes Daniel

TEOFILO TOSTES DANIEL

 

Carioca radicado em São Paulo desde 2005, é autor do livro Trítonos – intervalos do delírio (Patuá, 2015). Publicou ainda Poemas para serem encenados (Casa do Novo Autor, 2008) e participou da coletânea de contos História Íntima da Leitura (Vagamundo, 2012). Mas antes foi assim: até os dez anos de idade, aprendeu o mundo de ouvido. Então dois pedaços de vidro inseriram em seus olhos o conceito de nitidez. Descobriu-se um pouco Miguilim, encantado com a forma das coisas e das letras. Porém, jamais deixou de apreender o mundo como se fosse música. Já com a nitidez no olhar, foi a leitura de uma crônica de Drummond, ainda na infância, que lhe abriu um vasto campo de possibilidades: descobriu que as palavras poderiam servir para coisas além do dizer; elas poderiam ser como ruído e delas era possível extrair o gozo. Escreve em http://teofilotostes.wordpress.com/.

 

Contatos:

 


APRESENTAÇÃO

 

Trítonos – intervalos do delírio desenha um mapa alucinatório, ponto por ponto, qual partitura, sobrepondo quaisquer linguagens aos ditames da experiência. Segue, ao longo de suas três histórias, um código denso e virulento, insólito e perigoso, expondo traços e máscaras do humano. A vilania incrustada nos despojos da civilização e em arraigados hábitos circunavega a inocência primordial da infância, os cumes da fantasia musical e dos labirintos da loucura, liberando a sordidez da dita normalidade, dos claustros de uma consciência socialmente martirizada. Sua escala chega ao trítono, som impossível porque persecutório, onde só é possível enfrentar a dissonância, e a cada leitor desnudar a obra “para descobri-la em seus próprios termos, sendo que nessa leitura final estará sozinho”. Após a tríade dessas geografias que se entretecem com meticulosidade de aranha, a solidão é uma instância-ritual. Referências se encontram escalavradas, rosários imiscuídos a tradições e povos margeados. A música tenta soar como silêncio ou como fogo? O que é ruído branco? Sendas de impossíveis transcendências de sangue e paisagens de sal. A palavra atenta à ira e à profecia, vacante e grávida de sentido. Levante de desejos plasmados por cheiros e volúpias indizíveis. Um livro dos desatinos, um lugar: corpo, palavra, prosódia. Num ritmo lento ou vertiginoso, sem jamais perder de vista a profundidade do rasgo da pele. Os nomes dos personagens são pistas, talvez falsas. A precisão das informações pode estar chagada pela invenção. A linguagem como o panteão do (im)possível.

 


por Roberta Tostes Daniel

 

 


Conheça trechos do livro Trítonos - intervalos do delírio, de Teofilo Tostes Daniel:

 

 

Prelúdio




Aquela rústica cabana, situada no meio dos silentes silvos da floresta, é acolhedora com todas as intenções da liana dos espíritos. O cheiro da cocção das plantas paira no ar, dança no vento. O braseiro da fogueira crepita. Além desse aroma geral, águas também olorizam o ambiente com florais perfumes de calmaria.

Eu olho para cada pessoa ali presente, todas vindas de um lugar distinto, e me interrogo sobre o que elas buscam. Lembro-me das pessoas me dizerem que o poder da planta responde a cada um no tempo que quer, e na medida de sua imperscrutável sabedoria. Anseio saber sobre o que será. Um frêmito inquieto me invade. Mas para a planta sagrada valem as sendas que me trouxeram e os segredos que ela possui para me sussurrar.

A xamã dá início ao ritual cantando um ícaro e acendendo gravetos de palo santo. Enquanto entoa seu murmúrio em língua ancestral, pega do centro da roda as pequenas cumbucas e leva aos presentes. Antes de ordenar a cada um que beba, de acordo com a sede da planta, ela purifica a pessoa com a fumaça do tabaco e um cântico.

Quando chega a minha vez, reparo: aquela mulher existe no topo de uma hierarquia formada na névoa imprecisa de remotos tempos pretéritos. A expressão de seu rosto é a de quem paira no limiar de outro mundo. Ela inteira parece condensação da fumaça do tabaco. Bebo o líquido denso e amargo que ela me oferece.

A sacerdotisa repete, então, os procedimentos com cada pessoa ali dentro. Quando bebo da segunda cumbuca, sinto um sabor mais escurecido, de um amargor um pouco acre. Tudo escorre por dentro de mim, deixando um inesperado rasto adocicado na língua. A xamã, por fim, se senta. Sem jamais deixar de cantar.

A suave melodia dos ícaros me embala. Deito enfim. O lusco-fusco me aquieta um pouco. Olho para o alto e reparo num pequeno vão no teto da cabana. Por ele, adentra a luz alaranjada do entardecer. Sorrateiramente, a planta toma controle de mim. Arrebata-me para o seu domínio. Formas se liquefazem diante de meus olhos. As luzes se intensificam.

Luz é lembrança do universo. Quando olhamos para o céu, enxergamos o passado. Vemos espectros, pois tudo que nos chega de lonjuras estelares, na linguagem luzente do pulsar de fótons, não mais existe da mesma forma. A luminosidade intensa fere minhas retinas. Fecho os olhos. Mas a luminância de todas as coisas ainda me acompanha dentro, na forma de cor.

Cores me invadem na escuridão das pálpebras. Cores jazendo sem nome no ventre do tempo ou dos céus se fundem, numa contínua dança. Cores desenham minhas paisagens mais íntimas e inesperáveis. Cores. Cores. Cores.

Sinto meus pés desejarem a experiência de raiz. Aperto a terra, tentando me fincar ao âmago do chão. A Madre Ayahuasca sugere que eu adentre esse segredo. Tenho medo. Será por isso que ela também é chamada de Pequena Morte? Temo entrar nessa que parece ser minha cova, a me esperar com palmos medida.

Minha angústia não nasceu quando me defrontei com minha própria finitude. Não emergiu da possibilidade concreta do instante da minha morte. É contra o arbítrio da violência que eu me insurjo. Contra qualquer gênero de violação.

No limiar daquilo que não olho diretamente, minha cova está aberta. Percebo ali dentro o movimento sinuoso de uma serpente. Tremente, eu me viro e nada vejo. Diviso apenas um amálgama de cores sem forma contra o vazio.

 

***



Segundo interlúdio




Eu brinco com a substância das cores. Quase posso tocá-las. Elas reagem às minhas mãos criando padrões ondulados. Enquanto isso, meu pensamento flui como água. É um caudaloso rio no qual não posso me banhar duas vezes. Nele, se fia o tecido do inesperado.

O silêncio que me rodeia ecoa como mil gritos surgidos no escuro de mil noites, arrastados por mil correntes sonantes. Silêncio impossível, de indeterminadas durações, existe apenas fora da vida. No entorno, o que há é o ruído branco, repleto de sons que, habitualmente, escuto como o silêncio.

O grasnido alto de um condor me enleva. O grunhido de um longínquo javali me chafurda na lama densa e profunda de minhas cimentadas certezas. O vento desfoca meus ouvidos. Nele, a voz verde da planta me chama. No entanto, eu tremo. Temo aceitar o inaceitável. Sumo no sorvedouro do medo.

Novamente sibila a serpente. Sua linguagem é loucura para os que se perdem. Vagarosa, ela se aproxima de mim. Toca meus pés, infundindo neles o terror gélido de sua pele. Sua voz feminina, fundida à da xamã, me fala que no precipício era o verbo. Não é possível conceber uma divindade-mãe, feita à imagem e semelhança da mulher e do homem, sem linguagem. Palavra é lucilação. Deuses criam o mundo ao dizerem: “Faça-se!”


 

 

Livro: Trítonos - Intervalos do delírio

Autor: Teofilo Tostes Daniel

Gênero: Contos

Número de Páginas: 120

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete