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Ronaldo Cagiano

RONALDO CAGIANO

 

Ronaldo Cagiano é mineiro de Cataguases, viveu 28 anos em Brasília, onde graduou-se em Direito e reside em São Paulo desde 2007. Colabora em diversos jornais e revistas, publicou os livros: Palavra Engajada (Poesia, SP, 1989), Colheita Amarga & Outras Angústias (poesia, SP, 1990), Exílio (poesia, SP, 1990), Palavracesa (poesia, Brasília, 1994), O Prazer da Leitura, em parceria com Jacinto Guerra (contos juvenis, Brasília, 1997), Prismas – Literatura e Outros Temas (crítica literária, Brasília, 1997), Canção dentro da noite (poesia, Brasília, 1999), Espelho, espelho meu (infanto-juvenil, em parceria com Joilson Portocalvo,  Brasília, 2000), Dezembro indigesto (contos, 2001 – Prêmio Brasília de Produção Literária 2001), Concerto para arranha-céus (contos, LG, DF, 2005), Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, Rio, 2006), O sol nas feridas (poesia, Dobra Editorial, SP, 2011) e Moenda de silêncios, novela juvenil em parceria com  Whisner Fraga (Dobra Ideias, SP, 2012). Organizou as coletâneas Poetas Mineiros em Brasília (Varanda Edições, DF,  2002), Antologia do conto brasiliense (2003, Projecto Editorial, DF) e Todas as gerações – conto brasiliense contemporâneo  (LGE, Brasília, 2006).

 

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A palavra em movimento

por Leo Barbosa (*)

A inquietação de um escritor deve ter pelo menos duas origens, que não são necessariamente antagônicas: está centrada na sua inconformidade com o quanto que falta em si ou pela consciência que tem do quanto mundo o afeta. A palavra é uma tentativa de (re)construir a desordem mundana, ou quem sabe, provocá-la. É nesse movimento que Ronaldo Cagiano conduz Eles não moram mais aqui. Em ritmo ora clariceano, pela inventividade da linguagem, ora raduanssariano, pela subversão à pontuação.

Cagiano imprime uma atmosfera na qual os cenários das narrativas se unem na tentativa de percorrer os sentimentos e as emoções do narrador e das personagens. Por vezes há percursos que tocam o social, noutros o autor beira um lirismo próximo dos poetas românticos, simbolistas e modernistas. Dos românticos, o trágico, o drama e o apreço por temas mórbidos. Dos simbolistas, traz a consciência do quanto a vida é efêmera, de sua transitoriedade. Dos modernistas, a liberdade da forma, a inventividade, a ironia.

O autor também nos chama atenção por utilizar frequentemente epígrafes em seus contos. Tal qual Murilo Rubião, dialoga com outros autores a fim de ambientar suas narrativas com polifonias, múltiplas vozes que conferem aos textos constantes rupturas e suturas. Tais características são desenvolvidas através de símbolos que nos remetem aos temas como: incomunicabilidade, patriarcalismo, resgate da infância, entre outros. Ronaldo, não raramente, é explosivo, não dá margem à respiração, exigindo do leitor fôlego tal como a vida nos intimida.

O leitor se deparará com contos em que seus desfechos são verdadeiros “esboços para a (de)composição do naufrágio”, mas, em paralelo, haverá um sentimento de estarmos próximos a Pasárgada, daí não ter como se identificar como um ser singular, semelhante ao “José”, de Carlos Drummond de Andrade, ao “Severino”, de João Cabral de Melo Neto e ao “Fabiano”, de Graciliano Ramos. Todos estão em “busca” de um “veredito”, do “mar de dentro”, para que o “ser-estar” de cada um não fique “atrapalhando o trânsito”, porque a vida é movimento. Quem sabe, ao final da leitura, possamos dizer “eles não moram mais aqui”, porque deixaram “a marca” na trama na qual é a palavra o nosso maior (des)conforto.


(*) Escritor e professor de Literatura e Língua Portuguesa em João Pessoa, é colunista do Correio da Paraíba.

 

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Conheça 01 conto do livro Eles não moram mais aqui, de Ronaldo Cagiano:

 

SOMBRAS



Da morte, só sabia ele o que todos sabem:
que ela nos toma e nos atira no silêncio.

(Rainer Maria Rilke)


Agora eu sei que se chamava partida: as silhuetas que eu via nas águas do rio Pomba quando cruzei a ponte velha levando meu irmão ao seu último destino.

Era uma caminhada sem-sentido, o semblante grave das pessoas, o silêncio dizendo tudo, a solenidade nos gestos e olhares, e a gente ali (todos saturados de inconformidade) realizando um trajeto que nunca escolheu.

Eu não me esqueço de como badalava em mim o poema de João Cabral: “este rio/ está na memória/ como um cão vivo/ dentro de uma sala”. Uma sentença que me lembraria para sempre o dia mais longo de nossas vidas, que se confundiam com a que ali seguia, indefesa diante da implacável e indesejada das gentes. Mas, julho despedaçado (estranha conveniência: na minha família todos vão em julho) não houve saídas, elas vieram para raptá-lo.  As Parcas. Mais uma vez, deram as cartas e de forma alguma eu conseguia entender de que barro somos feitos.

Quanto de mim seguia junto com o solene acompanhamento. A fuzilaria de olhares, quantas dores iguais à minha?

A sensação de desconforto íntimo começou quando o caçula foi me buscar ao sopé do Morro do João Peixe e eu tive que interromper  o jogo da amarelinha e descer correndo os paralelepípedos da Granjaria, em meio à fita de cetim da sapatilha que, desamarrada, bailarinava ao vento, num balé confuso, tão perdida como eu no burburinho de pensamentos sinistros e difusos que me acompanhariam até em casa, aonde cheguei sem saber ao certo por que mãe me chamava nessa hora.

E tudo se acentuou e ficou mais claro, quando a alguns metros da varanda eu a vi de costas, encoberta pelo caótico desespero de uma fala entrecortada de gritos, inútil tentativa de entender por que alguém saiu para não mais voltar: ele saiu daqui pra morrer tão longe.

O luto expresso em cada rosto, dos meus e dos  que traziam a parcela mínima, mas inesquecível, do adeus, fazia a coorte daquele momento em que um destino foi cortado ao meio, mas a faca incisiva habitava a nossa carne e antecipada um crepúsculo sem fim.

O leito lá embaixo, nossa atenção imersa nas linhas tênues dos corpos cravados na serpente líquida, que seguia seu destino imune à falta de sentido na vida e no seu fim, reflexos da transitoriedade de tudo. Passava apressado um rio-outro, como o ser que era conduzido, tão cedo fatigado de uma existência e seus anseios de fabulosa extensão.

E com constrangimento e dor, os que ficaram não entendiam ainda o sorriso interrompido, a felicidade interditada pela carreta assassina e seu feixe de madeiras destroçando a nuca. A ilha dentro de nós bloqueando os sonhos, a colher travada na boca, um filho que nunca soube além de um horizonte partido, porque engatinhava no absoluto da existência, buscando no entretempo de suas convicções todos os tempos de uma vida. “Uma vida que poderia ter sido e não foi”, como me confidenciou o poeta sobre as lições dos aeroportos, das estações de trem, dos terminais que decretam despedidas, a lógica de não ser visto, de ser o silêncio, o nada e a invisibilidade após a curva, tão compulsórios e injustos, porque maior equívoco não há que drenar um sonho mancebo na pista criminosa de uma Rio-Bahia recalcitrante, onde somos clandestina oferenda num destino qualquer.

Ali eu morri todas as mortes, e tantas vezes multiplicada a certeza de sua intangibilidade no séquito entre a capela e a necrópole. Mas os espectros que se escalonavam na água informavam de um entardecer maior em nossas histórias, véspera de uma noite que não saberíamos medir, mas que abrigaria suas traições antes mesmo de o galo cantar.

Essas sombras ainda estão me olhando, com a mesma contemplação de meu irmão quando semeou seus versos num saco de padaria, antevendo que o fermento sagrado de sua doida esperança não seria renovado a cada dia, como um alimento para os que ficaram, porque seu tempo não admitia disfarces, o café quedaria frio na xícara numa mesa qualquer da casa, o cão e seu olhar sem festa para a bicicleta hibernada no galinheiro inóspito, os jornais empilhados à espera da entrega, o pé de amora esquecido pela menina que fazia dele sua torre de marfim, a desonra do espanto na face de tantos que regressariam depois de solenizar o corpo a terra, amalgamada com o húmus de lágrimas conhecidas ou de prantos espontâneos, as pernas pânicas de minha mãe procurando apoio, a primeira derrota em nossa abundante história familiar, enquanto meu pai despachava seu olhar para um mundo distante, tentando compreender o deserto irrecorrível que habita todas as perdas.

Ele não precisava ir embora, muito menos num domingo de sol pálidoa v, esconsos mistérios e notícias tristes. O céu podia esperar, porque havia outras urgências a vencer, outros descaminhos a corrigir.
O olhar de meus irmãos precipita-se num imenso abismo em que se transformou aquele dia sem nome. O dia se despedindo junto com ele. Na retaguarda, a cidade continuava imune ao mistério da perda, com seu burburinho de automóveis e operários que chegavam ou saíam das fábricas de tecidos em sua procissão de bicicletas tecendo a próxima manhã.  Emergia dentro de nós, como de um pântano, a rigorosa e triste explicação da vida, enquanto a tarde era subvertida pelo chumbo das nuvens que vomitavam suas setas incandescentes na falda das colinas.

Aquelas sombras ainda vigoram em mim. E se me povoa a tragédia do mano que se foi há tanto tempo naquela tarde de um mês esgarçado em Cataguases, todos nós, feito árvores no outono, sem horizontes, pulsa-me na lembrança o dia em que escrutinava a beleza poética da morte com um amigo. Foi num agosto que os anos já varreram. À beira do Paranoá, Juliano, que também perdeu um irmão (vitimado pela tristeza das células linfáticas que penetraram a corrente sanguínea e o matou em dias), por não querer testemunhar o seu sepultamento, optando por guardar a última lembrança de Marcelo ao invés de entregá-lo ao Campo da Esperança (preferindo a curva da estrada, onde tudo desaparece sem deixar vestígio), confessou-me: “A vida é um bom lugar para morrer, meu caro". Um dia disse isso à minha namorada, nesse mesmo lugar, entre as ruínas e esqueletos desse hotel que afugenta nossos olhares na outra margem desse lago. Eu-ela, embasbacados pelo róseo pardacento de uma tarde que se de(s)compunha sobre o altiplano de Brasília, sentados numa pedreira e olhando para o horizonte em febre, ocorreu-me que ali também era um bom lugar para morrer. Se eu fosse sozinho àquele lugar e me jogasse pedreira abaixo, jamais alguém daria conta do meu corpo, a morte ideal e que a mim me ocorreria muito bem”.

Essa sombra maior dentro de mim. Agora eu sei que se chama saudade. E foi escrita com a caligrafia torta da vida.

 


 

Livro: Eles não moram mais aqui (Prêmio Jabuti 2016)

Autor: Ronaldo Cagiano

Gênero: Contos

Número de Páginas: 114

Formato: 16x21

Preço: R$ 38,00 + frete