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Claudinei Vieira

CLAUDINEI VIEIRA

 

Autor do livro de poemas Yūrei, Caberê, CLAUDINEI VIEIRA escreve, desconcerta e toma cerveja. Paulistano desde que nasceu, ama, despreza, odeia, se cansa, se fascina por São Paulo, centro, abismo, fonte e musa de sua literatura e filosofia. Há vários anos espalha textos pelas ondas internéticas (resenhas, contos, considerações, poemas, recriminações, pequenos ensaios, elucubrações, entrevistas) em blogs, sites, portais de literatura, cultura e arte. Organizador dos Desconcertos de Literatura / de Poesia, em vários pontos da cidade (como Casas das Rosas, Sebo do Bac, Praça Roosevelt, livrarias, esquinas e bares). Participou de antologias de contos, revistas literárias, jornais, fanzines e publicou o livro de contos Desconcerto, pela Demônio Negro, em 2008. O livro Yūrei, Caberê integra a Coleção Patuscada 2, projeto premiado pelo ProAC 2014.

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Conheça 05 poemas do livro Yūrei, Caberê, de Claudinei Vieira:

 

 

descongelar ruas




o frio envelhece as ruas de São Paulo,
já encarquilhadas de ventos gelados passados
incrustados nas torrentes de mendigos descobertos
por folhas de linho desbotadas.

falta poesia em São Paulo, talvez?
não
falta poesia em São Paulo
talvez

A meteorologia diz
neste ano, passamos pela tarde mais fria
A meteorologia não diz
que assim esteve congelada a poesia
e pessoas de rua.
Tecnicamente falando,
a meteorologia esqueceu das pessoas de rua,
ela sempre esquece.
Assim como São Paulo.

A poesia, porém, não aquece as avenidas e praças, sinto dizer.
Podemos, deveríamos, saltar por prédios.
Podemos, deveríamos, plantar montanhas.

Podemos, deveríamos, descongelar ruas.
Inclusive, o poeta.

 

***

 

poema urbano para aquecer chuva



Quero lhe dizer
não, Preciso lhe dizer
- cuidado, deixa o carro passar -,
não pretendo lhe atrasar mais,
porém, é muito importante
- cuidado, deixa a moto passar,
deixa o sinal abrir,
cuidado, deixa meu coração transbordar -,
o pingo da chuva gelada
não acalenta seu rosto:

Gostaria de lhe dedicar um poema urbano,
uma trilha de palavras paulistanas
que lhe ajudem a atravessar o dia,
a secar o pingo gelado na testa,
a pisar pelas listras molhadas da faixa de pedestre.

Quero que sinta este poema
como o primeiro gole do café da padaria,
como a primeira onda do cheiro da manteiga
do pãozinho na chapa,
como a primeira lembrança morna
de nossos corpos ávidos de calor noturno.

E lembre que o primeiro sorriso que lhe acordou
nesta madrugada aturdida de frio paulistano,
o sorriso de uma boca torta ainda sonolenta
já saudosa dos agasalhos insuficientes,
este sorriso que lhe aquecerá durante este dia inteiro
mais do que aqueles agasalhos insuficientes,
aquele meu sorriso, ainda que torto, ainda que meio-frio,
foi a primeira letra do primeiro verso
deste poema urbano que lhe dedico.

 

***

 

suspiro

 

Encostou-se ao meu ombro,
mais leve do que nunca tinha sido,
mais leve do que minha sombra,
encostou a boca (hálito de halls prata)
em um inesperado meio beijo,
sussurrou-me, quase inaudível:
- Tenho segredos.
Deu-me um sorriso simples,
virou-me as costas
e voltou para o céu.

 

***

 

melancolia

 

Existe um toque sensual na melancolia, um estado de tristeza lânguida, que transita (sem nunca tocar, chega perto, rodeia e se afasta) entre a euforia extrema, por um lado, e a depressão profunda, por outro. É um estado transitório e necessariamente de curto tempo, pois a sensualidade depende de um segundo de beleza, na transição do final de uma tarde preguiçosa, no minuto depois da transa, no gole de um café encorpado, na luz que penetra pela janela, no vento que brinca com suas pernas, ou na falta de vento que transpira na sua testa.

***

 

saberá da morte?


saberá o dia em que morra?
saberá o instante/zunido em que,
fumaça por fumaça concreta,
pesará por sobre almas
para sujar sua incontinência?
desejará o dia em que morra?
em que sangue por sangue, detrito por detrito,
aluviarão os corpos inconsistentes,
as consciências deformadas,
os párias acostumados?
suportará o dia das perguntas?
sufocará o enredo das desditas?
se enforcará com o tecido das mentiras?
desprezará a marca de ser humano,
a inconformidade de que, apesar de tudo, é ser humano,
a necessidade de, com tudo, menosprezar ser humano?
jogará com o revide?,
com a chuva ácida, com a luz demonha?
chorará, sim, chorará, pelo menos uma vez,
uma solitária vez?
acompanhará seu dever cumprido e dormirá
em seu travesseiro de pedra e metal?



 


 

 

Livro: Yūrei, Caberê

Autor:
Claudinei Vieira

Gênero:
Poesia

Coleção: Patuscada - ProAC - 2014

Número de Páginas:
96

Formato:
14x21

Preço:
R$ 35,00 + frete