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Pádua Fernandes

PÁDUA FERNANDES

 

Pádua Fernandes (Rio de Janeiro, 1971) autor do livro de contos Cidadania da bomba (e-galáxia - digital - e Patuá - impresso -, 2015), é também autor dos livros de poesia O palco e o mundo (Lisboa: & etc, 2002), Cinco lugares da fúria (São Paulo: Hedra, 2008), Cálcio (Lisboa: Averno, 2012; São Paulo: Hedra, 2015), que foi traduzido para o espanhol por Anibal Cristobo e publicado na Argentina (Calcio, City Bell: De la Talita Dorada, 2013), e Código negro (Desterro: Cultura e Barbárie, 2013). Também escreveu o ensaio Para que servem os direitos humanos? (Coimbra: Angelus Novus, 2009). Organizou a antologia da poesia de Alberto Pimenta A encomenda do silêncio (São Paulo: Odradek, 2004). Mantém o blogue O palco e o mundo (opalcoeomundo.blogspot.com).

 

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APRESENTAÇÃO: Democracia desertada

por Ricardo Rizzo

 

 

“Ser Deus é que é um pecado mortal, porque tudo o que ele faz morre”, diz um policial. O homem que come vidro descobre que vivemos sobre os destroços dos espelhos do céu e do mar: “O mar e o céu já tinham quebrado e a gente senta e mora nos destroços. Ele ficou aliviado e descobriu que Deus existe, só alguém de muito poder conseguiria destruir tanta coisa”. Alguém reza: “bendito é o fruto do ventre de Jesus”.


A teologia deste livro é um misticismo do desabrigo, professado por agentes de um autointeresse hipertrofiado, que transitam esmagados entre a autoridade, a esmola, o emprego, a faculdade privada e os constantes movimentos de moagem do “circuito internacional”, o cosmopolitismo do contrabando. Esse circuito circunscreve todos os personagens que perambulam por ruas, delegacias, escolas, aeroportos, viadutos, em um movimento permanente de desterritorialização e confinamento. Tal movimento não cessa de produzir falas improváveis, desnorteantes, de uma artificialidade às vezes completamente chapada, que se impõe com a força exterior do mesmo regime biopolítico que as reduz a esse desterro constitutivo: o consumo, o estimulante, a sideração do valor de troca, as ossificações morais que a feroz competição por uma integração subalterna termina por gerar. Daí que os ossos corporifiquem resistência: a fratura exposta de uma travesti significava que “aquele corpo lutava contra a condição vertebrada, e os agentes da ordem, quando o encontraram, souberam com o cassetete aplicar a verdadeira lei, que expulsa estes estranhos eixos internos”.


Cidadania da bomba: cosmopolita e corpórea, internacional e óssea. Afinal, assim que se tornou possível imaginar a tecnologia do voo humano foi possível imaginar também o bombardeio aéreo. Lançada do alto das muralhas e torres, sempre de cima, e depois recheada de cacos de porcelana ou de fragmentos metálicos, a bomba foi na origem e na essência um dispositivo antipessoal: pensado para dilacerar o corpo humano, o “soft target”. No final do século XIX, a justificação do genocídio dos “selvagens” pela própria superioridade técnica do “ocidente” encontrou bem estabelecida a cidadania aérea, cosmopolita, moderna e corporal da bomba. Quando se tratou de exterminar os corpos “selvagens”, ela encontrou sua codificação no bellum romanum medieval, a guerra sem lei que era reservada a rebeldes, selvagens, bárbaros, estrangeiros, infiéis. A literatura chamou de “coração das trevas” a essa cidadania – política, social, ideológica, científica, moral. Pádua Fernandes remete, com a tagarelagem histriônica de seus personagens siderados, entre vilões e destituídos, a esse encontro. Já não da literatura com a realidade – porque não se trata de realismo – mas com a verdade: o bellum romanum internalizado, no pensamento, no direito, na sociedade: “os cidadãos devem levar consigo os seus próprios muros”.

Que ficção é possível escrever depois da verdade? Os processos que mastigam os personagens deste livro estão ancorados nela: o direito internacional das mercadorias, o muro como fundamento da liberdade, o bombardeio dos índios brasileiros com napalm durante a última ditadura militar. A contemporaneidade desses processos é figurada como o discurso de uma experiência histórica em pleno andamento em nossa democracia não tanto incompleta ou deficiente, mas antes desertada: o progressivo e disperso enraizamento social do coração das trevas, arrastando consigo, na velocidade acelerada dos “grandes eventos”, o estado de direito, a “cultura”, a própria forma, o deserto no qual o narrador contempla o seu descabimento. Não à toa, é a bordo de um avião, ao lado do adolescente fã de filmes-catástrofe, que ele nos diz: “Espanto-me. Recorda-se de vários. Realmente, também deste assunto eu não entendia nada”.

 

Ricardo Rizzo

 

 


 

 

Livro: Cidadania da bomba

Autor: Pádua Fernandes

Gênero: Contos

Número de Páginas: 128

Formato: 14x21

Preço: R$ 36,00 + frete