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Mauricio Duarte

MAURICIO DUARTE

 

Mauricio Duarte é jornalista, autor dos livros de poemas A arquitetura das constelações (Patuá, 2017), Balde de água suja (Patuá, 2015) e Rumor Nenhum (7Letras, 2007, coleção Guizos), e um dos autores de Haja Saco, o Livro (Multifoco, 2009), baseado em blog homônimo e já extinto. Vem publicando nas principais publicações literárias do país, como as revistas Cult, Lado7, Inimigo Rumor, mallarmagens, entre outras. Nasceu na capital paulista em 1981.

 

 

Contatos:

 

 

 

Conheça 5 poemas do livro A arquitetura das constelações, de Maurício Duarte:

 




0.


Uma constelação é um conjunto de estrelas e outros objetos celestes em uma determinada região do céu. Segundo a União Astronômica Internacional,  existem 88 delas correndo acima de nossas cabeças. Os astros se movem de modo tão veloz que se torna imperceptível a nossos olhos. Estrelas, nebulosas, galáxias em disparada. Ao longo do tempo buscamos moldar o desconhecido, dando-lhes os nomes de nossos mitos: Órion, Andrômeda, Cassiopéia. A imaginação humana é a arquitetura das constelações.



***


3.


os meteoros se desprendem
de uma constelação queimando
a 59 km por segundo e são
capazes de gerar uma carga elétrica
uma mini-nuvem de plasma
espalhando poeira cósmica
pelo sistema solar e simplesmente
não há nada que possamos
fazer a respeito

– a beleza é um rastro
luminoso impossível de reter


***


7.


a expansão do cosmos
em direção ao infinito
o insondável assombro
diante dos gases estelares
o rastro luminoso
do último meteoro
a música incessante
das esferas celestes
o alarido da dúvida rolando
na aridez do universo
a imaginação humana como
arquitetura das constelações



***


15.


como se fosse por acaso
uma indefinida tarde de junho
e a luz dos seus ossos atravessasse
a podridão o esquecimento
de sua carne e seus passos vibrassem
nas calçadas de uma cidade comum

como seus gestos fossem crianças
alucinadas saudando a loucura
sob um íntimo sol que carregasse
pendurado no pulso
e nos restasse a nós cães servos
buscar a migalha suprema
por trás dos dentes da língua do crânio
o pingente mais doído da alegria
seu sorriso: ignição de arrepios



***


23.


esgarçamos o tecido dos dias
à força de romper nosso tédio
depois do esforço despregamos
o pano de nosso estandarte
de modo silencioso, arcados
sob nossa espinha dilacerada
nenhuma bandeira em que se
escorar, de luz nenhum fiapo
roto, restolho, o que resta:
pouco mais que um trapo

 

 


 


Conheça 5 poemas do livro Balde de água suja, de Mauricio Duarte:

 

 

AUTOENGANO

 

um homem é capaz de
compreender que vai se decepcionar
segundos antes da decepção
ocorrer de fato

é um átimo, um atrito
na caixa craniana
quase uma bobagem
uma irrelevância

se você prestar atenção
se você ficar atento
vai perceber

o que deveríamos ter
(ou deveriam nos dar)
é mais tempo para
assimilar

a epiderme de nossa fraqueza
pede, implora por esse
mínimo tempo

uma mentira qualquer
serviria

 

***

OUVINDO UM POETA PORTUGUÊS

 

enquanto um velho disco de vinil
ofertado pelo acaso das coisas
arranha a voz do poeta que se
choca contra os muros da casa
estou profundamente  parado
meio atônito meio extasiado
“casa, leite, mãe” – é a voz que
viola o ouvido, meu entendimento
no espaço terrivelmente vazio
que há em torno minha gata
subitamente faz-se alerta
como se quisesse beber
a umidade dos meus olhos
sei que há rigor neste alerta
há rigor em seu pequeno corpo
entortado pelas palavras
“loucura, sangue, cantar” –
é a voz que encanta a cadeira,
esta caneta ,os objetos todos, a casa
de repente a sanidade é apenas
um capricho, uma sutileza
como a felicidade ou o terror
e minha gata me olha como quem
soubesse, como se a certeza lhe
subisse pela garganta, como se
mil formigas lhe subissem pela garganta,
como se mil formigas sonhassem
pela garganta afora
como se soubesse, como
se sempre houvesse sabido

que por vezes
tudo se ilumina

 

***

 

DECLARAÇÃO DE AMOR


nestes tempos o mais
importante é entendermos
que não há tempo a perder

precisamos queimar etapas
inventar geografias simples
para decorar antes do café

não pare para pensar
aceite minha proposta
antes mesmo de ouvir

vamos viver, eu e você
sob o signo da barbárie
sob a égide do desastre

***

 

CONSTATAÇÃO


um gesto, qualquer gesto
sempre nasce com atraso


somente ao pensamento
cabe o instante imediato


o pensar no ato vem sempre
antes do que é executado


e este é o momento real em
que o desejo é manifestado


toda tentativa é irrisória, pois
o pensado já está no passado


todo gesto nasce atrasado –
a não ser os impensados

 

***

 

CONDIÇÃO



o universo vive em
constante expansão
uma massa negra que
se alastra sem descanso

não importa em que
ponto você se situe
nesta encruzilhada
de gases cósmicos,
você está no passado

não importa em que
fratura do cosmos você
se esconda, ou tanto faz
em que névoas luminosas
nuvens de poeira, hélices
de sonho você se escore

as galáxias estão
incessantemente
se distanciando
de você e você delas


– existimos em
permanente
fuga

 


 

 

Livro: A arquitetura das constelações

Autor: Mauricio Duarte

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 100

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete

 





 

 

Livro: Balde de água suja

Autor: Mauricio Duarte

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 120

Formato: 14x21

Preço: R$ 37,00 + frete