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Isabella de Andrade

ISABELLA DE ANDRADE

 


Autora do livro Veracidade (Patuá, 2015), Isabella de Andrade é jornalista graduada pela Universidade de Brasília (UnB) e graduanda em Artes Cênicas no mesmo local. Trabalhou como arte-educadora e acredita firmemente no poder transformador e enriquecedor da arte na vida e no desenvolvimento de cada indivíduo. Estuda as possibilidades do jornalismo literário, da poesia, da dramaturgia e uma possível convivência harmônica entre eles. É autora do blog www.ociclorama.com e do projeto poético-musical homônimo. Brasiliense apaixonada pelo céu da capital e pelo modo como as palavras nos possibilitam viver várias vidas.

 

 

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Conheça 02 textos do livro Veracidade, de Isabella de Andrade:

 

Quando todo final é uma espécie de fome por recomeço, todo início já carrega algo que se encaminha para o fim e o silêncio dos olhos é o começo encerrado pela palavra.

 

Você de dia, Clarissa, seus olhos preguiçosos,
cheios de vontade de me provocar.
Você nas tardes, aquele riso cansado,
e sua pele que me abraça até sufocar.
Você de noite, Clarissa, aquele respiro calmo,
uns olhos mansos de quem carregou meu sossego
e nem se lembrou de me avisar.

A gente tenta preencher os corpos dessa fome de mundo, mas não existem fatos suficientes para cobrir a quantidade de espaços que se criam ao retirar de seu posto fixo uma profunda sensação. O espaço arde inicialmente, não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios. O vento quente da cidade bate por dentro e espalha os últimos pedaços de carne que restavam. E assim, o vento frio e desaforado a céu aberto pode, enfim, entrar e derrubar, sem nenhum princípio, toda e qualquer antiga certeza. Faz-se silêncio. Acompanhado do firme barulho alvoroçado por toda a gente ao redor. Retoma-se o espaço, não como ponto preenchido, mas como firme vazio, impenetrável por toda verdade controversa. Formam-se as primeiras palavras, trazidas pelo frescor das novas texturas e sensações. A palavra nova, assim como as primeiras sensações, tem um sabor tão forte que coloca as mais secas línguas a salivarem em cada pequeno pedaço de degustação. Entendido o vazio do espaço, formam-se raízes, mais firmes que qualquer velha e rasa sensação. O vento passa novamente, soprando por dentro, e enfim, há lugar para o suspiro assobiado. O tempo faz música a quem lhe reconhece.

Andaram a me perguntar de você, Clarissa. E digo, me perco um pouco quando tento te explicar. Eu te encontrei pela primeira vez dentro de casa, em um sábado absolutamente parado, estático. A noite era quente e fazia barulho lá fora, enquanto eu sentia saudade e um silêncio assustado por dentro. Saudade de tanta coisa, saudade até de quem eu era antes de saber tudo o que sei agora. E te encontrei como um ponto de fôlego, um momento de sossego, todo o meu sonho de sensação colocado em papel. Talvez por isso eu fale tanto em saudade quando falo a você, Clarissa. Era saudade o que eu sentia naquela primeira noite escrita. Era, principalmente, saudade de mim.

A verdade é que era desconhecido de prazeres até então. Não por não tê-los, mas por não saber que os tinha. Ou por saber que os tinha com tamanha intensidade que acostumei-me a substituí-los pelo medo. Tu não sabe, menina, mas a experiência de qualquer prazer apavora aqueles que andam carregados de culpas de si. Reconhecem-se como gente mansa por demais, e aqui me incluo, após longa análise e a partir desse reconhecimento, passam a se sentir culpados. Não sabe que a doçura em excesso vira fardo? Ela escorre pela pele, sem aviso prévio, e te faz grudar no próprio corpo. Corpos presos sentem-se culpados. E assim, esse tipo de gente – aqui me incluo, menina, não se esqueça – só consegue se desprender após conhecer gente que tenha os olhos cheios de mundo como os teus, que consegue libertar qualquer criatura, excessivamente doce, da culpa pelo prazer.

A culpa é uma espécie de fome constante por algum antigo sentimento que lhe foi tomado. A gente tenta preencher os corpos dessa fome de mundo, mas não existem fatos suficientes para cobrir a quantidade de espaços que se criam ao retirar de seu posto fixo uma profunda sensação. O espaço arde inicialmente, não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios. O vento quente da cidade bate por dentro e espalha os últimos pedaços de carne que restavam. E assim, o vento frio e desaforado a céu aberto pode, enfim, entrar e derrubar, sem nenhum princípio, toda e qualquer antiga certeza.

Faz-se silêncio. Acompanhado do firme barulho alvoroçado por toda a gente ao redor. Retoma-se o espaço, não como ponto preenchido, mas como firme vazio, impenetrável por toda verdade controversa. Formam-se as primeiras palavras, trazidas pelo frescor das novas texturas e sensações. A palavra nova, assim como as primeiras sensações, tem um sabor tão forte que coloca as mais secas línguas a salivarem em cada pequeno pedaço de degustação. Entendido o vazio do espaço, formam-se raízes, mais firmes que qualquer velha e rasa sensação. O vento passa novamente, soprando por dentro, e enfim, há lugar para o suspiro assobiado. O tempo faz música a quem lhe reconhece e em seguida, a gente anda de mãos dadas, em silêncio, com a solidão. A pele dela é macia de um jeito que nem sei lhe dizer.

Lembro-me, e gostaria dizer que vagamente, mas me lembro com força e avidez, do tempo em que meu estômago se sentia corroído pelo silêncio. Como se estar só fosse uma espécie de quarto escuro e arredondado, de onde eu não fazia a mais remota ideia de como sair. Lembro de abrir as cortinas e olhar pela janela com os olhos fixos em algum ponto perdido da imensidão. O ar frio da noite alisava a minha pele, como uma porção de dedos macios e delicados. Chorei ruidosamente, tal qual uma criança birrenta que ao menor sinal de pedido negado, quer jogar-se ao chão. Queria amassar todos os cadernos e atirar bolas de papel em qualquer um que ousasse não ouvir o que eu tinha a dizer. É engraçado o tamanho da importância que podemos dar às nossas próprias palavras em tempos de nervos aguçados. Desculpei-me. Desamassei as folhas de papel. Talvez, solto entre o silêncio palpável das noites, eu ainda fosse a criatura mais acostumada às horas sós, dentre todas as criaturas. Talvez eu gostasse delas. E talvez, isso tudo fosse completamente agradável, há que se saber escutar o pulso firme e suave do silêncio.

Eu sempre cheguei um pouco atrasado, Clarissa. Por isso me acostumei a observar. Como se meus olhos pudessem entender tudo aquilo que eu deveria ter sentido. Mas são apenas olhos como outros quaisquer. Então eu apenas olhava e tentava imaginar de um jeito diferente tudo aquilo que eu tinha visto. A lembrança é uma tremenda armadilha que a gente constrói. Mas quando eu te olhava, eu via o que imaginava, Clarissa. Meus olhos mudaram completamente. A verdade, é que teu nome me é agora atemporal, Clarissa. Busquei teu cheiro no café forte e a textura da tua pele no meio do meu emaranhado de papéis. Nada. É como se eu tivesse te inventado para justificar quem já fui, frente aos olhos doces e ainda assim, vigilantes, de quem me tornei. Sem perceber, te fiz parte de meus próprios pedaços e te digo, não sei justificar meus pedaços, Clarissa. Cada um deles tornou-se um inteiro por si só e ainda assim, caminhamos e nos entendemos apenas todos juntos, quebrados e intactos, retalhados e inteiros. Teu nome deve andar por aí, preso a algum pedaço de saudade voraz a que matei de fome.

Não há sal na terra que me cubra de gosto como teu tempero intensamente destemperado, Clarissa. Era como sentir a origem do gosto, o começo da saliva, o início do degustar. A mesma sensação de inacreditável surpresa, que subia enroscada por todo e qualquer fio de cabelo que fosse tocado pelo teu sal. Sempre foi assim, o céu nos teus olhos e uma avalanche na tua pele. Eu fiquei tão doido de amor que esqueci como era amar, Clarissa. Fiquei, enfim, só doido mesmo. Quando me dei conta de ter fugido de mim no meio da loucura, busquei desesperado por todo e qualquer pedaço de sanidade. Pude me reconhecer novamente e dei sorte, a poesia me salvou de tornar-me totalmente são.

Você de dia, Clarissa, seus olhos preguiçosos,
cheios de vontade de me provocar.
Você nas tardes, aquele riso cansado,
e sua pele que me abraça até sufocar.
Você de noite, Clarissa, aquele respiro calmo,
uns olhos mansos de quem carregou meu sossego
e nem se lembrou de me avisar.

***


Quando no vazio

 

Ao tempo de agora: perdi o nome.
Não um nome qualquer
mas o daquela sensação ingrata
do silêncio interno que me arranca as palavras.
Nos olhos do outro já não me desassossego
e me grito,
perturbada.
A falta de sensação é áspera
demais.
Que permaneça então assim, ao menos áspero,
ao menos algo.
Depois daquele tempo, aquele,
eu era corpo por demais.
Nunca soube o que fazer com tal textura,
tão presente, farta, sincera.
Perdi então o nome,
apenas por não saber como chamar um nome, outro,
depois da sensação.
Aquela.

E em algum dia, perdido no vento, eu me lembro perfeitamente, me perdi por completo de mim. Eu me lembro da sensação de olhar para o céu e não enxergar nada, o sol me queimava a vista e meu olho lacrimejava de dor. Eu pensei ser só, pensei ser vazio, pensei não ter valido de nada em qualquer instante. Eu pensei não sorrir, pensei não amar, pensei ter os pés completamente presos ao chão. E então, Clarissa, você veio. Sorriu de lado, displicente, como quem se sabia por inteiro. Eu me agarrei nessa tua certeza, naquela tua cara que sorria sem mostrar preocupar-se com a hora de parar. E eu queria não mais me preocupar também. E eu te vi e me achei meio gente, me achei meio certo, meio amado, meio conhecido, meio sorridente. E achei estranho me achar só meio. A gente não devia se achar inteiro no amor? Sem perceber, te entreguei a responsabilidade de me crer amado por inteiro. E eu vi, Clarissa, não se preocupe, eu vi. Não funciona assim. Não há amor para gente que anda por aí entregue às metades.

E você viu também. E então, nós não nos vimos mais. Saí por aí me entendendo como uma metade ainda mais vazia que antes, sem tato, sem vontade, sem ilusão. Corri no vento e deixei que me abrissem e ventassem todos os buracos. Dói. Como dói! Dói sentir o vazio, a gente não se prepara pra isso. A gente se prepara para passar os dias a procurar metades e tampas e coisas e pessoas que de alguma maneira nos façam sentir, ao menos um pouco, preenchidos. E quando dei por mim, não havia mais gente alguma. E então, verdadeiramente só, comecei a não mais me sentir sozinho. Entendi-me em cada pedaço solto e em cada parte intacta, entendi-me em cada silêncio e em cada ponto de barulho extremo, entendi-me na palavra, na lembrança, na pele, no afeto, na saudade, no vento e na minha certeza própria.

A passagem do tempo apaga a tinta de qualquer concreto, Clarissa. Eu me permiti apagar e quando me vi assim, cru, tive a certeza de ser quem eu era. E me veio outra vez um riso sereno, sem tempo, sem espera, sem angústia, sem hora. Reconheci a textura de cada pedaço que me constrói. O cheiro da hortelã, o calor da sensação imaginada, o vento frio que queima a pele quente, o silêncio dos esconderijos, o barulho das páginas e a textura do papel. Ali sim, havia gente, amor, contato. Tua passagem aguçou minha pele. Agora se quiser, se lembrar, se ainda me escuta, fica. Trago um café, trago meus olhos convictos e minha própria certeza intacta.

No vazio eu busco teu nome apenas para não me ver rodeado de incertezas, sem nome algum. Já percebeu o quanto a realidade se transforma nos momentos em que nos encontramos verdadeiramente sós? Como se o tempo tivesse outra relevância e seu descompasso rápido não fosse percebido com tanta facilidade. É como se o tempo caminhasse em um ritmo que não consigo nomear, Clarissa. Sabe a diferença entre nuvem, pó e fumaça? Pois então, nessas horas vazias de nomes o tempo se porta como fumaça. Denso. Visível. Palpável. Quase consigo tocar os minutos que passam e então me sinto alucinado dentro de minhas próprias invenções. Chamo teu nome para saber-me outra vez real, para entender-me outra vez como uma criatura, por mais perdida que seja, existente. Quando o vazio nos toca, é como se por alguns densos instantes, a gente deixasse de existir. Não esquecer essa bagunça toda foi um ato premeditado. Saber teu nome faz com que eu possa me saber real. Se não soubesse, te digo, me dissiparia excessivamente em invenção.
Falo contigo como se ainda existisse alguma espécie de fio condutor entre tantos instantes. Mas não existe. Não existimos mais, Clarissa, talvez nunca tenhamos existido. Tu sempre existiu, é certo. Com teus olhos que carregavam o mundo e uma voz de quem trazia em si todas as certezas, sem medo de arrebentar os pulmões. E eu, em minha já tão adaptada mania de levar-me ao vazio, corro para não perder teu nome, que tanto me reconecta a alguma possibilidade de permanecer com os pés bem fincados à terra. Se não me existisse essa impossibilidade de amor – que ainda me faz acreditar nos mais humanos sentidos – eu me permitiria desgrudar da própria pele. Somos ainda um pouco bichos e é necessário que não se perca essa pulsação. Eu ainda pulso, Clarissa, por lembrar teu nome. O amor é uma selvageria mutuamente desejada.

Despudorar-se das próprias mentiras e deixar que o tempo trate de lhe dizer suas verdades. As horas correm desesperadas enquanto o instante permanece. Pois deixe-o também, a memória é extremamente mais passageira que qualquer sensação. Tu nunca me existiu realmente, Clarissa, mas sustentei com afinco o sabor suave de minhas invenções. O que seria de nós se ninguém nos soubesse?

Ser producente, ser eficaz, ser condizente, ser útil, ser belo, ser eloquente, ser relembrado, ser fadado ao amor. Ser nada, Clarissa. Como posso ser mais do que memória imaginativa se nunca algo nem ao menos fui? Ser engolido pelo tempo. Sou levado pelo tempo. Fui engolido pelo tempo e nem ao menos percebi. Quando dei por mim já não mais me era. Somos sim, fadados aos pedaços esfarelados de massas possivelmente sorridentes que se espalham por um tempo que nos transforma sem cerimônia. Somos prensados, arrancados, desfibrilados, somos enfim, o menor pedaço que se possa retirar de fibra. Somos o que nos é possível ser, menina. Somos o não objeto, somos a estranha teoria do não-objeto, somos a pura aparência. Somos fadados ao desejo, reféns dos corpos, serviçais da pele. A carne nos pulsa enquanto o corpo nos arrasta ao ponto quente e quase estático das sensações. Tato. Não há como escapar. Tato. A pele desmancha toda tentativa, já gasta, de abrir os olhos e não mais ser. Feche os olhos, meninas, esqueça-se das degustações do tempo e sinta as ordens enfáticas da pele. E assim, somos. Não há maneiras de se contornar, escapamos temporariamente e logo somos encontrados pelo próprio corpo que pulsa. Estamos fadados a ser.

[Eu sempre me senti faminta. Pelo pão, pelo tempo, pelos dias, pelas horas, por um amor, por açúcar, por experiências, por entendimento, por razões, por caminhos, por papéis, por sentido, pelo céu, pelo vento, por palavras. Devorei, dia após dia, cada pequeno pedaço que se parecesse um pouco com o sonho, a verdade ou apenas a imaginação. Fugi do raso, do tempo curto, do barulho excessivo, da palavra dispersa e do afeto calculado e dispensável. Fiz da própria fuga um lugar cativo, o ponto conhecido, a respiração estável. Permiti que o silêncio me preenchesse em cada buraco, de maneira por vezes doce e por vezes imperdoável. Senti então, o aconchego de pertencer à própria pele. Esqueça essa falta que te faz pesar os ossos e te ocupa todo o espaço verdadeiro de qualquer outra sensação. Esqueça todos esses repetidos nomes e deixe que te levem embora esse antigo olhar assustado e absolutamente viciado por toda a recordação. Esqueça essa quantidade extravagante de conquistas, títulos e dias encarrilhados como uma enorme bola gloriosa de falta de tempo. Devora finalmente o vazio que se segue e sinta então, que se pertence em cada nova textura do que agora chama de seu].

(Clarissa)

 

 


 

 

Livro: Veracidade - capa rosa

Autor: Isabella de Andrade

Gênero:
Prosa-Poética

Número de Páginas: 120

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete

 



 


 

 

Livro: Veracidade - capa azul

Autor:
Isabella de Andrade

Gênero:
Prosa-Poética

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PROMOÇÃO - VERACIDADE, DE ISABELLA DE ANDRADE