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Roberto Menezes

ROBERTO MENEZES

 

 

Autor dos romances Palavras que devoram lágrimas (Patuá, 2017) e Julho é um bom mês pra morrer (Patuá, 2015), Roberto Menezes é paraibano. Nasceu em 1978. É professor da Universidade Federal da Paraíba. Faz parte do Clube do Conto da Paraíba. Tem quatro livros publicados Pirilampos Cegos (romance), O Gosto Amargo de Qualquer Coisa (romance), Despoemas (contos) e Palavras que devoram lágrimas (romance). Foi vencedor do Prêmio José Lins do Rego (2011). É um dos criadores da FLIPOBRE.

 

Contatos:

 

 

Conheça a orelha de apresentação do livro Palavras que devoram lágrimas, romance de Roberto Menezes:

 

“As palavras sempre são à vera. As palavras são sempre tiro de fuzil, fazem um furo quando entram e uma cratera na parte de trás. Quem leu e não entendeu, sentiu. O ato de ler, meu caro, é um furinho quando entra, o impacto das palavras é lá dentro, já que estão dentro, se entendeu ou não, já que estão lá dentro, é à vera, é granada rancorosa. Quer saber o que é sentir o poder da palavra? Tente segurar um arpão quando o arpão é gritado da besta. Tente segurar o focinho de um felino no cio. Tente segurar uma semente quando ela quer romper sua placenta. Tente parar uma frase inteira de uma paráfrase. Tente segurar a palavra, seu porra, que ela te devora, te rasga todo, assim como faz com essas tuas lágrimas. Tente parar o tempo pelo menos por um segundo. Tente segurar um tsunami com rochedos rodeados de cercas de arame. Tente calar um trovão depois do relampejo. Repito, tente segurar um arpão com os dentes. É à vera. ”



***


Conheça um trecho do livro Palavras que devoram lágrimas, romance de Roberto Menezes:



…eu não julgo.

Já faz tempo que encarei a vida como um filme expressionista com discursos bairristas sobre um mundo que eu quis ter pra mim de direito e não tive. Já não tento traduzir pro meu ar nordestino tangos taciturnos de gardel. Já não culpo o partido dos trabalhadores, nem os pastores da igreja universal, nem a gordura do queijo manteiga. Não ando mais com um cronômetro medindo os centésimos de segundos pra que a esperada bomba exploda na minha cara e os que me rodeiam me vejam e, principalmente, vejam a maneira como fui tratada por você nestes anos todos em que mendiguei na porta do seu grande pilar egocêntrico. Fui uma pedinte de coluna ereta demais pros patrões do cristianismo. Rezei terço, engoli as pedras e cansei de ansiar que de um dia pro outro virassem ouro, que um ou outro você viesse como um bom samaritano e desse pra mim uma dúzia de farelo de pão de sua rede de padarias, meu grande vereador, meu grande filho da mãe.

Os que rodeiam este fuzuê de quinta estão cagando e andando pro meu arregaço, pra mim ou pra você. Estão mais preocupados com a bolsa da tailândia, com a crise de identidade da áfrica branca, com a falta de criptografia no gmail ou simplesmente com eles próprios e suas próprias tragédias, que cobrem com zinco. Estão afoitos pra saber em crimes serão delatados em que lista negra serão expostos, preocupados, preocupados, preocupados.

Eu, maria, que nunca pequei a ponto de o diabo ou a polícia federal bater na minha porta, estou com um novo costume, enrolo minha tragédia, digo assim pra não abrir o saco de infinitas delas. Pego minha tragédia e enrolo com o lençol, e vou naquela de tentar sufocar a bichinha delicadamente com o travesseiro quando acordo, quando acordo de tangos taciturnos de gardenal. Pela manhã, a tv em mute testemunha e pode me denunciar em alguma futura acareação. Sou patética, e já me disseram que quando danço sou a deusa asteca da patetice, você me fez ser assim, patética sem sobrenome, tentando matar aos poucos esse zumbido que escuto mais alto que o rádio-relógio quando brota a manhã. A manhã é minha pista de dança. Sempre pela manhã, sem misericórdia, sou uma assassina covarde. Chego de mansinho, está lá, a quantidade ideal de sentimento que não sei expressar assim, quando você ou qualquer um me confronta: “na lata, falando, que sentimento é esse?”, não sei, realmente não sei, mas ela está lá, no último andar dos meus sonhos sem tomar vergonha pra ir embora.

Uma víbora encantada ou alma safada de algo que sonhei já ter um dia e você era o principal regente disso tudo. Agora está lá, como a merda de um papel celofane embrulhando minha tragédia. É, sempre começo a falar com você do mesmo jeito, você já se acostumou com essa minha introdução, não tem como ser diferente, maria retorna e fala com você sempre do mesmo jeito. A gente já se conhece demais pra começar assim, ó, oi, vereador, tudo em ordem, como vai, tudo bem, e o tempo nesses dias, será que vai chover, será que vai alagar a beira-rio. Não

Vamos falar de pedra. Hoje tomei um café da manhã reforçado, vou longe. Melhor, vamos.

Tudo bem, todos matam, todos nascem, todos compram em dez vezes no cartão de crédito livros que nunca vão ler, todos se fartam de criticar a bolsa família e se sufocam de comida chinesa, todos compartilham sites de notícia mesmo sabendo que é falsa, só pra ficar por cima da carne seca, todos são indelicados por esporte, otários só pra ver onde vai dar.  Acordos ilógicos é o que a todos fazem, e não se importam de procurar por ração. Estou nessa também, vivi nessa minha vida inteira, vivendo a vida entupida de outras vidas. Sapatos que nunca calcei me aporrinham o juízo, e o que faço? Jogo tudo nesse embrulho de casca brilhante, e jogo pra dentro. Rasga pra caralho, quando entra, quando sai ou simplesmente quando sinto existir.

Tudo bem, eu não sou a única que se sufoca tratando de estrangular esta espécie de sentimentos mal catalogados com o travesseiro. Sou um nada especial espécime da minha espécie. “Na lata, viva sua vida e esqueça suas penas”, você riria depois da segunda dose e, na lata, completaria, “deixa as penas pros travesseiros, pros avestruzes e pras almas”. Engraçado como eu via graça nas tuas piadas, zero humor. Você adorava, ainda adora?, bancar o comediante quando acorda de ressaca. E, venhamos e convenhamos, tolerar tua ressaca não é pra qualquer uma. Quando esta nova qualquer uma estiver do teu lado sorrindo do teu hálito de quinze dias de fossa, acredite, ela é fingidora profissional, finge tão na cara de pau que nem ela entende o que está fazendo. Quatrocentas e algumas outras vezes fingi vontades. E as verdadeiras vontades pus na fronha só por maldade, com elas e comigo. Sou má, você me disso isso quinze minutos antes de. Sou má com todos e com tudo que me rodeia. Meus peixes adotaram o canibalismo nesses dias. Meu cão, nem lembro o nome, arrastou seu projeto de costelas pra feira ou foi atropelado por uma das tuas secretárias executivas bilíngues. Já tive um cão?

 

[…]

 

 


 

SINOPSE do livro Julho é um bom mês pra morrer, romance de Roberto Menezes:

 

Julho é um bom mês para morrer conta a história de Laura, uma blogueira de trinta e cinco anos obrigada a sair do seu apartamento após uma sentença judicial irrecorrível. Ignorando os reiterados avisos de demolição, ela insiste em ficar e aceitar as consequências dessa decisão e, emparedada em seu quarto do pânico improvisado, decide escrever uma carta que nunca será entregue à mãe, uma figura enigmática que Laura não vê desde a infância, enquanto o mundo lá fora rui à sua volta.

Narrada de forma não-linear, a carta de despedida de Laura leva o leitor à virada do século, onde é apresentado à sua vida conturbada, seu relacionamento com a avó e a irmã, o contato com as drogas e a religião, suas inúmeras relações e decepções amorosas, além de um trágico evento do passado pelo qual ela busca redenção. Sem tempo a perder, Laura está disposta a dizer tudo o que precisa no pouco que lhe resta.

 

 


 

 

Livro: Palavras que devoram lágrimas

Autor: Roberto Menezes

Gênero: Romance

Número de Páginas: 120

Formato:
16x23

Preço:
R$ 38,00 + frete

 

 

 

 


 

Livro: Julho é um bom mês pra morrer

Autor:
Roberto Menezes

Gênero: Romance

Número de Páginas: 200

Formato:
16x23

Preço:
R$ 38,00 + frete