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Iara Rennó

IARA RENNÓ

 

Artista polivalente, Iara Rennó teve a felicidade de nascer numa família extremamente musical e original, o clã Espíndola. Como compositora, teve músicas gravadas por dois dos maiores intérpretes da música brasileira, Elza Soares e Ney Matogrosso – ponto máximo dentre outras tantas interpretações excelentes. Idealizou e realizou projetos grandiosos como o espetáculo multi-mídia Macunaíma Ópera Baile, no Teatro Oficina Uzina Uzona, em 2010, baseado em seu disco Macunaíma Ópera Tupi (selo SESC, 2008), e ORIKI in Corpore – Instalação Sonora no Museu Afro Brasil (2009). Participou de diversos festivais, ganhou alguns prêmios, já dividiu o palco com os mais incríveis cantores e músicos desta terra brasilis, tem muitos parceiros e parcerias musicais. No início dos anos 2000 formou a DonaZica, banda com a qual lançou dois discos. Em 2012, com o coletivo A.B.R.A. Pré-Ca lançou o disco homônimo, de marchinhas carnavalescas autorais contemporâneas, e, no fim de 2013 apresentou IARA (Jóia Moderna), álbum com produção de Moreno Veloso. Além de tocar, cantar, atuar, dançar, dirigir, inventar, cozinhar, fazer massagem e seresta, foi jubilada em Letras pela FFLCH – USP. Língua Brasa Carne Flor é sua primeira aventura literária publicada.

 

Contatos:

 

 

Conheça 10 poemas do livro Língua Brasa Carne Flor, de Iara Rennó:

 

noite clara depois da primeira noite


ainda sinto seu cheiro que me compele
suspiros e arrepios à flor da pele
pois ele veio em cheio lobo e homem
quando só com mais fome se mata a fome
porque olhos nos olhos penetrou-me
enquanto mordíamos ambos os lábios
carnudos doces úmidos e cálidos

entre as ancas beijou-me com calma
como se quisesse penetrar minh'alma
como quem reza se ajoelha e agradece
reverencia a lua cheia que desce
recebe a luz do novo dia que nasce


me deito só mas em sua companhia
em meio a bruma da memória viva
minha vulva pulsa e se regozija
excita-se e seus licores regurgita
toco meu seio esquerdo que se entumece
por onde andará quem já não aparece?
largo-me nos braços largos da lembrança
e caio em sono bendito feito criança

 

***

 

segundo dia mei' da tarde


mensagem na garrafa
beijo a distância
isso tem graça?
roubo sua iniciativa uma vez
fico refém da minha avidez
punida pelo seu silêncio
ardo sozinha no cio
sonho com o gosto do seu falo
engulo tudo o que sonho e não falo
me calo me calo me calo me calo

de tanto calar heis que na calada
da noite chega a resposta esperada
é culpa dos franceses só isso
são horas de compromisso

 

***

 

sábado solene

 


quero te duro
quero te dentro
esse momento
quero que dure

e cada dia será o primeiro
porque em ti morrerei
pra renascer todas as noites

***

 

cada palavra que te sai boca
é uma gota
a molhar-me

pura poesia, Mallarmé?
só putaria
a melar-me

 

***


sonha que me despe
e a festa acontece
sem roupa nem confete
só carne com a carne se veste
se isso te apetece
rasga essa fantasia
sacia essa sede
até dissolver-se em mim

me veste me desfila
me fia me confia
seu coração em chamas
me chama me acende
e ascende em mim

 

***

 

rainha soberana
a fome é quem manda
é o que move o homem
o lobo e o lobisomem
a fome rompe o hímen
verte o sêmen
a fome que só se mata com mais fome
devora-me
devora-te
a fome é a esfinge
que não se decifra
a cifra de uma canção monotônica
bomba atômica
o grito do corpo em chamas
que nos consome
enquanto a gente se come
e o mundo em volta até some

 

***

 

ritornello



[: poderia/ penetrar sua tarde vazia/ e só para o seu deleite/ toda minha poesia/ derramar feito leite/  ainda quente em sua boca/ lavar da sua face essa máscara/ barata/ cafajeste/ fantasia que te reveste/ mas peste/ sua cabeça oca/ louca/ é perversa/ não vale o dom de quem versa/ não há o q se mereça/ tá mais aqui não quem falou/ falhou/ passou/ das contas/ minhas pérolas/ vou guardar aos porcos/ engolir aos poucos/ todas elas/ atirar ao mar nadar `a revelia/ gritar pela janela/ alforria/ e chega dessa porcaria/ mas se fosse apenas questão de p(h)oder/ ah eu bem que :]

***

 


se eu peco
é na pimenta

agora aguenta

 

 

***

 


se é essa
pica dura
de amor
tua jura
eu juro
que acredito
me ajoelho
e rezo
o terço
no quarto
eu abdico
do mundo
e me dedico
ao ato
até deixar-te
farto
jorrar alto
no céu
sem cometas
palato mole
onde duro
tu vês estrelas
enquanto morres


***

 

pássaro que quero-quero
deslizar adentro seu falo
lambuzá-lo
falo que eu falo é mesmo o caralho
grosso e duro
no claro ou no escuro
eu encaro
descasco
te escalo
me esfolo
se você quiser
te cubro até
que estou para o que der e devir
que o que quero-quero é cantar
pra ver pau-pica subir

 


 

 

Livro: Língua brasa carne flor

Autor:
Iara Rennó

Ilustração de capa: Kiko Dinucci

Gênero: Poesia

Número de Páginas:
140

Formato:
15x21

Preço:
R$ 36,00 + frete