learnex

Franck Santos

FRANCK SANTOS

 

Franck Santos é um homem comum, ilhado em São Luís, cidade esta que tem mar, porto, muitas histórias, sol e céu azul o ano inteiro, mas prefere dias nublados e chuvosos, uma casa no campo, vinho e blues.

Publicou os livros Fogo Fátuo (2011) e Quando o azul não desbotava (Editora Penalux, 2014), ambos de prosa poética. Agora, Poemas para dias de chuva, pela Editora Patuá.

 

Contatos:

 

 

 


 

 

Conheça 07 poemas do livro Poemas para dias de chuva, de Franck Santos:

 

Carrego na mochila o tsuru de papel que ela fez pra mim.
Um origami amuleto.
Lembrança.
Âncora.
A fragilidade oriental como proteção.

***


Te procuro
escalando escombros de uma cidade em ruínas.
Ontem as crianças corriam nesta praça
hoje as crianças brincam de soldado-ladrão
com suas armas.
Hoje as crianças brincam de jogar estrelas
de aço e fogo.


***

 


Às vezes

minha solidão queima

para acalmá-la invento geleiras.

Às vezes

para tentar afogá-la

invento fogueiras.

***

 

Sempre me apanho em devaneios largos
ou as coisas me apanham: um tropeção, o bom dia velho de todas as manhãs
ou mesmo um miserável anônimo.
Ontem foi um velho sem uma das pernas
esta manhã me presenteou com uma menina e um bebê que ela carregava
não vi seus olhos
(e eu sei, ela os tinha, quem não os tinha era eu);
rápido, tirei uma nota dobrada e entreguei a ela
que assentiu todos tão conformados, ela e eu, o devaneio e o bebê
olhando sem surpresa para a fila de carros
(que a ela deveria parecer interminável).
Pressinto: passarão os anos, eu por eles talvez mais que eles por mim
e enfim, o reverso virá: serei eu o anônimo no vaso comunicante das misérias.

***

 


Eram duas da manhã talvez
quando acordei e disse para mim: sou infeliz.
Nada de óbvio para uma madrugada
nada de óbvio para os meus quarenta e tantos anos
mas, ainda que eu não tenha dito isso em voz alta
veio a frase pronta à minha boca
como se sempre estivesse ali
brincando com minha própria ignorância.
Sou infeliz, eu disse,
não que isso me fizesse qualquer mal
que eu devesse me apiedar ou rezar uma oração.
A infelicidade era tão completa em seu silêncio
que no dia seguinte escrevi um poema.

***

 


Nos encontramos nos labirintos noturnos
quando tateávamos o nada
sem saber o que faríamos das esquinas
dos nossos corpos tão próximos.
Signo, arcano, nossos nomes
foram senhas
descobrimos ser da mesma tribo.
Nos fliperamas garotos não nos viam
nem os michês nas calçadas
ou as prostitutas nos bares
quem não se oferecia?
Nas vitrines das lojas manequins riam
todos parecíamos saídos da mesma máquina
mas não sabíamos a quem a noite pertencia.


***

 


No hemisfério sul é outono
estudante simpático de design que ouve canções francesas, desenha abstratos
me interessa, mas não sei se anima
como as tardes transformando quinquilharias em poemas visuais.
As tardes cinzentas na cidade do hemisfério sul
mereceria uma fotografia
como as telas do estudante simpático
porque sinto simpatia e desdém
por imagens de marinheiros, tatuagens, estrelas e mangás
mas também sinto alívio por ter alguém com quem conversar sobre poesias, crimes, limeriques
e a sensação de estar preso dentro da própria pele
como se os dois pudessem preencher buracos da alma, do outono, dos corações.
No hemisfério sul
estudante simpático de design me interessa
num outono
porque sou um escultor cego quebrando tudo.

 


 

 

Livro: Poemas para dias de chuva

Autor:
Franck Santos

Gênero: Poesia

Número de Páginas:
120

Formato:
14x21

Preço:
R$ 36,00 + frete