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Sérgio Tavares Filho

SÉRGIO TAVARES FILHO

 

Autor do romance Capricórnia, Sérgio Tavares Filho (@neocronica) é natural de Maringá (PR), e estudou comunicação social na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 2008, mudou-se para Helsinki. Doutorando em cultura contemporânea, trabalha pesquisando e criando histórias em mídia digital.

 

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Conheça o primeiro capítulo do romance Capricórnia, de Sérgio Tavares Filho:

 

O homenzinho da fresta


Parece muito tarde, acordei desprendida do restante do mundo. Meu marido dorme, e dormem meus filhos, e meus amigos, meus irmãos, vizinhos, exceto eu – como se dentro de dez ou vinte quilômetros a única pessoa acordada fosse eu, e parece que se precisar, ninguém vai despertar – alguém para perguntar por que eu havia acordado tão cedo ou o que havia acontecido, ou para perguntar se é possível acordar deste estranho sonho azul. Que nudez perturbadora seria ser vista neste momento. Havia causa? Eu deveria ficar constrangida, ou é só o medo de nunca mais dormir, simplesmente? Precisaria andar alguns metros rua abaixo até encontrar as almas vivas, e aí veria as casas conhecidas e as lojas, os escritórios familiares ainda fechados – conheço suas histórias, os seus filhos; alguns conheço só de vista; é possível saber muito sobre alguém para quem só se diz bom dia, mais profundamente do que sei de algumas das minhas relações preenchidas por conversação. Não vou sair de casa, não posso. Confusa: devo apenas começar o dia? Buscar o jornal no corredor do prédio, fazer café, ou só me sentar na cozinha vendo o dia começar aos poucos, até que o estranhamento se dilua no horário das almas vivas? E quando meu marido se levantar, devo fingir que acabei de acordar?
Sentei-me na cozinha sem café nem jornal. Minha mão segurou o queixo enquanto eu via o sol caminhar como um relógio de parede, atrás do bosque de pinheiros. Lembrei de uma história antiga, e da minha filha – como é que podia ser? Será que era ele? A mesma pessoa? Não sei posso chamá-lo de pessoa. Ele teria aparecido só para nós? Também não sei, até hoje, se haviam outros com ele. Nunca havia perguntado se ele estava só. Mas me pergunto, hoje, se ele havia falado com meus vizinhos, ou com os seus filhos. Por um momento desejei que sim – quis que todas as mulheres nos corredores do nosso prédio também tivessem-no encontrado, ao menos uma vez, ao menos num verão, como eu. Pela mesma razão que não consigo explicar – infelizmente, há pouco ganho em usar a razão nesta altura – eu sabia que minha filha o havia visto, embora ela fosse jovem demais para entendê-lo.
Eu tinha quase nove anos quando o vi pela primeira vez. Era a casa velha, de madeira. O soalho de tábuas justapostas, algumas irregulares, resfolegava com passos duros. As casas naquela época ficavam meio metro do chão, onde o vento de junho encanava. Uma espécie de limbo para objetos caídos pelas frestas. E haviam frestas, e uma delas era um pouco maior, no corredor entre a sala de estar e os quartos térreos. Certa vez derrubei, ali, uma conta de vidro, presente de um colega da escola. Havia brincado com ela o dia todo. Quicava no chão esmaltado da cozinha, media a força com que voltava para o ar, tentava ver através do esbranquiçado da gema opaca o que havia no mistério daquela pequena galáxia. Ela rolou como que atraída por um ímã, e tentei alcançar com a mão, mas os ossos não passavam pela greta. Tentei com mais força, me arranhou um pouco, mas estava determinada a consegui-la de volta. E foi aí que o ouvi: uma voz calma, fraquinha, vinda da fresta. Havia sequer espaço para alguém estar ali? Para os ouvidos de uma criança, a voz era clara, e acendi as luzes para que pudesse alumiar a fresta. Ele sussurrou de novo, e senti de leve o calor da voz. Quando eu me aproximei, ali estava o homenzinho no chão.
O sorriso confuso, um espanto estimulante antes de me assustar; um mistério maior havia acabado de engolir a galáxia da conta de vidro. A luz do corredor era fraca, eram poucas janelas naquela parte da casa, porque os quartos geralmente ficavam fechados. De companhia, era só um relógio no fundo, que fazia os meus encontros cronometrados com o tic, tac. Com aquela luz tênue eu conseguia ver só alguns traços do rosto dele, e o corpo pequeno, ali, acostado no chão pedregoso e projetando como podia a voz à fresta. Tentei alcançar a conta de novo, e então consegui reavê-la. Esqueci do homenzinho por algum tempo.
Passados alguns dias, fiquei interessada em saber se ele continuava na fresta. Às vezes passava por lá e ainda o ouvia, e pensava que fosse imaginação – misturavam-se as histórias dos cafezais, as enciclopédias e o fim das superstições, as orações para caminhadas noturnas. À noite, às vezes, tinha de ir ao banheiro e passava pela fresta meio depressa, mas ele não me chamava nessas horas, provavelmente porque sabia que me assustaria.
Acabei por esquecer, também, da conta de vidro. Só quando a reencontrei – as crianças têm essa ideia de esquecer as coisas das quais gostam, talvez só para redescobri-las – e a conta acabou indo até a fresta novamente. Conforme me aproximei, tentei enxergar pelo buraco do chão. Ainda estaria lá? Estava. Podia ver o rosto magro e a barba, e as mãozinhas ossudas, fumando cachimbo – pensava que eu até poderia distingui-lo hoje, se o visse em algum lugar. Certa vez, já em outra cidade, acompanhava minha irmã mais nova, era seu primeiro dia de aula; e pensei tê-lo visto num assento de ônibus. Outra vez, numa ponte, tempo depois, já com meu marido, em um dia azul como hoje, eu também pensei tê-lo visto. Penso se no dia do ônibus o céu também estava assim. Não me lembro.
Com o tempo, deitada no corredor, eu podia ver o homenzinho quase por completo. Perguntou meu nome, quantos anos eu tinha. Uma série de coisas, e contei tudo a ele, até coisas que eu pensava comigo mesma naquela idade e que não as entendia, até que falasse-as em voz alta. Isso não acontecia muito em casa, com tanta gente entrando e saindo, e nem com primos ou tias. Passei a tomar o café da tarde às pressas, para escapar e falar com ele quando ninguém estava por perto. Frequentemente dividia com ele o que iria comer. Ele dizia que era necessário que ele ficasse ali, e que estava ali há muito tempo, e ficaria ali também por muito tempo.
Naquela altura, eu já conseguia vê-lo perfeitamente. Acho até que um dia sonhei com ele. E finalmente havíamos inventado uma maneira dele poder deixar a fresta: se escondia atrás da conta de vidro e brincávamos o dia todo pela cercania, até os primeiros cafezais. No fim do dia, fiquei com medo de perdê-lo. Voltei com a conta apertada entre os dedos, segurando firme. Ele voltou para a fresta quando já era de noite.
Minha mãe começou a se incomodar com o tempo que eu passava no corredor. Reclamava de como eu havia deixado de brincar sob o sol, que naquela idade já tinha olheiras. Às vezes só o que se ouvia era a sua reclamação, ainda que eu tentasse me concentrar na voz quebradiça que vinha do chão.
Fez-se de novo um dia como hoje, e ele me confiou um segredo: disse que estava lá, na fresta, porque guardava um tesouro. Fiquei surpresa, como as crianças ficam: um tesouro ou uma nova conta de vidro, não fazia muita diferença. Algo não podia deixar de ser guardado, e do lado de fora só eu sabia. Se quisesse vê-lo, ele disse, eu precisaria trocar de lugar com ele. Pensei se conseguiria deixar minha mãe e meu pai e meus amigos para viver lá. Não estava claro para mim, mas tive, então, pela primeira vez, a sensação da dúvida.
As visitas ao corredor ficaram rarefeitas depois da geada daquele ano. À noite ia ao banheiro apressada, tentando não acordá-lo, compassando os passos com o relógio no fim do corredor. Sentia vergonha por ter medo, e por ter desejado, sorrateiramente, numa noite fria, que a geada o tivesse levado. Fui até a fresta no dia seguinte e, para meu alívio, sabia que ele não havia deixado a casa. E quando havia outro medo, como alguém batendo à porta de noite, lembrava que eu era a única pessoa no mundo com quem ele dividiria o tesouro.
Depois do verão que passei na casa da minha tia, pensei que ele tivesse me esquecido. Evitava pensar nele, porque sabia que ele podia me ouvir chamando. Até hoje, e até aqui, em casa, às vezes me pego procurando no que pensar quando cruzo o corredor dos quartos.
Aos doze anos, minha mente mudou tanto, como a de toda criança, que a memória dele se dissipou quase que por completo. Até mesmo o tesouro, ou a conta de vidro. Em algum momento, lembrava de ter compreendido tudo, mas não sabia mais o que era.
Sempre que acordo cedo demais acabo me atrasando para tudo. Acabei de checar o quarto, e meus filhos dormem. Eu me pergunto se é porque, conforme crescem, eles já se esquecem da fresta no chão.

 

 


 

Livro: Capricórnia

Autor:
Sérgio Tavares Filho

Gênero:
Romance

Número de Páginas:
136

Formato:
14x21

Preço:
R$ 32,00 + frete