learnex

Lucas Verzola

LUCAS VERZOLA

 

Lucas Verzola, paulistano da safra de 1988, é autor de São Paulo Depois de Horas, finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2013/2014. Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo, atualmente ocupa cargo de servidor público estadual, mas já foi assistente da ombudsman, redator, repórter e editor-assistente no Grupo Folha (Folha de S.Paulo e Publifolha). Com críticas, contos e poemas, colaborou com jornais e revistas literárias, e integrou antologias e coletâneas.

 

 

 

Contatos:

Skook de Algarobas Urbanas


Conheça 1 conto do livro São Paulo Depois de Horas, de Lucas Verzola:

 


Eu Faria Tudo Para Te Ter Comigo Esta Noite

 

Migalhas de bolo, grãos de açúcar, gotas de café. Era tarde demais para limpá-los. Amanhã a faxineira arrumaria tudo. Naquela hora, passar um pano em qualquer coisa que sujara pareceu inútil.
Arrependimento. Minha vida é feita de anos de compunções, das mais graves às mais leves; daquelas causadas por omissões àquelas que são consequências de excessos.
Lamentar-me por ter tido preguiça de recolher a sujeira da mesa da cozinha representa tão pouco. É só uma migalha, um grão, uma gota.
Há muito mais a me assustar todas as noites. Fantasmas da infância, da juventude e da maturidade que vêm me visitar na velhice.
A estante empoeirada repleta de livros que não li, o passaporte repleto de brancos dos lugares que não conheci, as melodias dos discos que não escutei. A família que não formei.
De todas as assombrações, incomodo-me mais com o espírito do meu filho. Ou melhor, do meu não-filho. Um não-ser cheio de mágoas que quer apenas ser. Um, afinal, objeto com desejos de ser alguém.
É a incorporação daquilo que nada foi graças à minha inércia. Não é um homem, não tem uma existência plena de liberdades para formar sua essência. É uma entidade que, inevitavelmente, surgiu devido à minha necessidade de encontrar um signo que simbolizasse minhas frustrações.
Contudo a cria tornou-se independente de seu criador. Se antes a figura do meu filho servia para concentrar o meu calvário, agora ela se vira contra mim e aparece para rir do meu desespero.
Logo menos, como todas as noites, ele aparecerá e debochará de mim, dos meus remorsos, do meu estado.
Eu, um velho esmorecido, impotente. Assustado no meio da madrugada.
Congelado na mesma posição há quase uma hora.
Não posso desistir e voltar à cama. Não consigo seguir a diante.
Se resignar, ficarei aflito. Cobrir-me-ei até o pescoço para tentar, em vão, defender-me das centenas de insetos ortópteros fuliginosos que subiriam pelos pés da cama, rastejar-se-iam pelo lençol e, pouco a pouco, aproximando-se de mim e acuando-me em meu leito.
Se prosseguir, correrei o risco de entrar em pânico ao ser atacado por esses artrópodes segmentados de cabeça opistognata e pernas peludas e nojentas.
Pânico, aflição. Ambos são inimigos menores que angústia do meio do caminho.
No fim do caminho desta vida medíocre, me vejo perdido numa cozinha escura, solitário, sem sol, sem saída.
Há, pelo menos, um fator que me inclina a ir em frente: a sede, única culpada por ter acordado.
Se não estivesse sedento, continuaria na cama em companhia dos meus fantasmas intangíveis, sem nem cogitar a existência de seres corpóreos a me perseguir.
No entanto levantei-me em busca de água e quase me ajoelho em contrição implorando pela remição dos meus pecados. Tive sede como Agar e Ismael. Minha mucosa estava seca; minhas papilas gustativas, eretas; meus lábios descascavam; e até meus olhos ardiam em vermelho. O rádio relógio ainda marcava quatro horas da madrugada. Pensei que viraria de lado, adormeceria em segundos para acordar com a faxineira tocando campainha já de manhã. É óbvio que você não morreria de sede, velho idiota. No máximo, sonharia com oásis inalcançáveis.
A pior ideia para um idoso solitário, com reflexos cada vez mais lentos e dificuldades para caminhar e permanecer ereto é esta de acordar no meio da noite e aventurar-se no escuro. O resultado não poderia ser outro senão o impasse que me perturba.
Nunca fui determinado e firme, porém não há mais tempo para incertezas. Titubeio pela então última vez, mas, enfim, decido: vou prosseguir e enfrentar o pavor.
Olho para o meu filtro de barro, que dista poucos metros, e confio que vou conseguir atingi-lo sem muitas dificuldades.
Todavia permaneço paralisado a encará-lo e odiá-lo. Detesto-o pela distância que nos separa, pelo pedestal no qual foi colocado para olhar-me com desprezo e, sobretudo, pelo ocre da sua cor que serve de camuflagem aos seres fuliginosos.
E se eu chegar mais perto e me deparar com um deles, qual será a minha reação?
Pergunta errada. Qual será a sua reação ao deparar-se comigo?
Poderia apresentar-se como Gregor Samsa e contar-me uma história absurda. Eu acreditaria em cada palavra e em cada confissão, contanto que não se encostasse no meu copo.
Como não havia pensado nisso antes? É óbvio que o bicho já passou pelo meu copo, por todos os meus copos, meus talheres, pratos, panos, pia.
Quando a faxineira chegar, vou pedir para que ela lave tudo com sabão, detergente, água sanitária, desinfetante, enfim, com todos os produtos de limpeza que encontrar. Melhor: vou pedir para que ela jogue tudo fora e eu comprarei tudo novo.
Meus cachimbos! Os bichos repugnantes devem ter passeado por todas as piteiras, entrado em cada fornilho e lambido suas paredes internas. Baratas têm línguas? Ah! Essas têm!
Não são baratas convencionais. São criaturas monstruosas, como aquela cuja sombra eu vi, ao passar do corredor para a cozinha.
Elas são inteligentes. Sabem que eu as percebi e produzem ruídos para me assustar.
São platônicas, idealizadas. Apenas essas têm o poder de me deixar paralisado.
Eu nunca tive medo de barata, entretanto estou cogitando jogar fora todos meus utensílios domésticos e a minha coleção de cachimbos de mais de quarenta anos, só por imaginar essa insólita festa. É meu báratro!
Sou um homem sensato, equilibrado e não costumo tomar atitudes drásticas. O que resta é esperar.
Quando amanhecer, vou me acalmar, lavar um copo e saciar minha sede. Aí duelarei com a barata.
Será no meu território: a cozinha como a conheço, iluminada pelo sol.
Não tenho a menor noção de quanto tempo passou desde que estou imóvel. Procuro o relógio de parede. Apesar da penumbra, meus olhos já se acostumaram com a falta da luminosidade e, com um pequeno esforço de semicerrá-los, enxergo o ponteiro grande no 2 e concluo que o pequeno deve estar em cima do 5 e que, assim, devo estar aqui há pouco mais de uma hora.
Ledo engano. O ponteiro menor ainda está no 4 e esta eternidade durou somente dez minutos.
Tenho, pelo menos, mais dez instantes como este até o nascer do sol. É bom estar armado.
Como eu queria um filho que matasse essa barata.


 

 

 


 

Livro: São Paulo Depois de Horas

Autor: Lucas Verzola

Gênero: Conto

Número de Páginas: 150

Formato: 14x21 - acabamento em capa dura

Preço: R$ 37,00 + frete