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Matheus Arcaro

MATHEUS ARCARO

 

Matheus Arcaro é mestrando em filosofia contemporânea pela UNICAMP. Pós-graduado em História da Arte. Graduado em Filosofia e também em Comunicação Social. É professor, palestrante, artista plástico e escritor, autor do romance O lado imóvel do tempo (Patuá, 2016) e do livro de contos Violeta velha e outras flores (Patuá, 2014).



 

Contatos:

Skook de Algarobas Urbanas

 

 

 


Conheça 4 contos do livro Amortalha, de Matheus Arcaro:

 


Salvação

E a morte não era o que pensávamos.
(Clarice Lispector)

 

 

Bete arrasta as sandálias como se precisasse desgrudar uma verdade da calçada. Verdade diferente daquela entranhada nos ensinamentos frescos de dona Elvira.

O sol penetra pelos cabelos ruivos da menina e, no avesso de sua cabeça, dilata as palavras da catequista. Deus não pode querer isso!

Passos pontiagudos, respiração ofegante, cenho vincado. Deus fala nos ouvidos de dona Elvira? Ela conhece as coisas da Bíblia, cita e recita de cor, Gênesis, capítulo oito, versículo sete, Mateus, capítulo quatorze, Paulo, João, Jeremias. Arremessa as palavras como se a Bíblia entrasse pelos dedos, corresse pelas veias e saltasse pela língua. Sua boca, uma metralhadora de Deus.

Não! A voz de Bete excita os músculos da perna, ela precisa encurtar os metros que a separam de casa, abraçar Bernardo, dizer que sempre o amará. Eu vou te encontrar, sim, não importa o que ela disse hoje. Os olhos, num duelo com os cabelos dançantes; as mãos, nas alças da mochila que trepida nas costas, como se esmagassem as injustiças do mundo. Um quarteirão de esperança. Um longo quarteirão. Mas quando vê, do outro lado da rua, o menino com o cachorro, as perninhas de onze anos não suportam o peso do desespero. Ela desaba na mureta, arranca a mochila e pega a Bíblia, onde está a passagem? Onde? Os dedos rebeldes às ordens do cérebro. As lágrimas embaralham as sílabas e, pela primeira vez, um palavrão vaza dos lábios salgados.

No peito, lateja a frase da catequista. Não, Elizabeth, os cachorros não vão pro céu; somente nós humanos, que somos imagem e semelhança de Deus, temos alma. Somente nós temos livre-arbítrio. Somente nós podemos escolher o caminho da salvação. Deus não era cheio de bondade? Mamãe sempre fala isso, dona Elvira, Dom Arnaldo, todos na igreja pedem e retribuem e entregam suas vidas pra Ele, eu rezo pai nosso, ave maria, creio em deus pai, canto os salmos, saio em procissão na páscoa, no natal desde o ano retrasado, não como carne na quaresma, não olho pros garotos muito menos pras garotas, não respondo pra mamãe não não não. O menino e o cachorro do outro lado da rua. Ela quer ser aquele menino. Precisa ser aquele menino.

Sara entrou na creche carregando um embrulho de pano. Filha, aqui está o que prometi. E revelou aquela bolinha de pelos brancos que sequer sabia abrir os olhos. Bete logo arrancou o cachorro do colo da mãe. Bernardo! Os irmãos têm nomes que começam com a mesma letra, não é? Sara, sem pronunciar palavra, disse que o cachorro estava batizado. Você já tem quatro anos, vai saber tomar conta do Bernardo. Tem que cuidar dele igual a mamãe cuida de você. Mas ele não é meu filho! Bete, há quase um ano, pedia por um irmão. Sara jamais se permitiria outro filho. Resolveu o problema com duas visitas ao pet shop.  
Bete atravessa a rua, quer abraçar o cão que abraça o menino. Como assim os cachorros não vão pro céu? Bernardo nunca fez mal a ninguém, nunca roubou a comida de outro cachorro, nunca fez cocô fora do jornal, nunca mordeu uma criança, nem mesmo a Carol, que puxa o rabo dele ou o Murilo, que joga água no focinho. Nunca!

A porta que separava a sala de espera e o ambulatório era de madeira, mas, para Bete, era a porta de um frigorífico. Seus olhos e a porta: ímãs opostos. A mãe segurava em sua mão, tentativa vã de transfusão de esperança. Mais de quarenta minutos, a porta se abriu e, dela, saiu o proprietário do seu futuro. Silêncio espesso. Dona Sara, podemos falar em particular? Não, doutor, pode falar na minha frente. Tenho onze anos, já sei como são as coisas da vida. E sou eu quem cuida do Bernardo. O veterinário tragou o vácuo deixado pelas palavras, olhou para a mãe, que mexeu suavemente a cabeça para cima e para baixo. Bernardo está muito doente. Por isso tem vomitado sangue nos últimos dias. Vai direto ao ponto, doutor! Tudo bem. Ele está com câncer no estômago. Não há muito o que fazer. Tem poucos meses de vida. Dois, no máximo três. Mas doutor, na internet sai notícia a toda hora sobre curas, a medicina está megaevoluída. Não existe um remédio pra salvar Bernardo? Operação, talvez!

Bete se aproxima do cachorro e do menino. Não, meu Bernardo não será salvo. Nem pelo médico, nem pela dona Elvira. Dona Elvira descumpriu a palavra de Deus. A Bíblia descumpriu a palavra de Deus. Deus descumpriu a palavra de Deus. Qual é o nome dele? O menino, com a voz mastigada pela timidez, diz que é Pudim. Posso passar a mão? Ela coloca a mochila na calçada e o cachorro responde deitando-se: a barriga a pedir afago. Naquele momento, Pudim é Bernardo. Bernardo, então, passeia pelas lembranças da menina. Desde o momento em que ela pegou a bolinha de pelo no colo, a vida começou a tecer os laços que a prenderiam ao cão. E quanto mais o tempo se estendia, mais grossos os laços ficavam. Cabos de aço. Bete era Bernardo. Voltava correndo da escola para brincar com ele, levava-o ao balé, jantavam ao mesmo tempo. Quando ela teve vontade de beijar Lucas, Bernardo foi o primeiro a saber. E escutou com a fidelidade peculiar que os milênios cunharam em seus genes. Bete e Bernardo eram espécies siamesas, seres que desprecisam de palavras para se comunicar.

A menina pensa em interpelar Deus novamente. Mas, enquanto acaricia os pelos de Pudim, fica confusamente claro que não há palavras que deem conta da ausência. Ela vislumbra que Deus não pode vencer o tempo e que a dor humana talvez seja divina demais para Ele. Percebe que suas lembranças nunca desaparecerão. Percebe que pode usar a memória para suplantar a falta de esperança de encontrar Bernardo no céu. E percebe que, lá do céu, velhinha, ela poderá lembrar do seu irmão. Bete, então, perdoa o veterinário. Perdoa dona Elvira. E perdoa os pecados de Deus.

 

***

 

Celebração

Quem se mata corre atrás de uma imagem que forjou
de si próprio: as pessoas matam-se sempre para existir.

(André Malraux)

 

 

No aniversário de vinte anos, mesmo sendo sábado, ele vai cedo para o quarto. Escova os dentes, penteia vagarosamente os cabelos, veste o terno inédito. Apaga o abajur e, abraçado ao retrato de Mário, deita-se sob o edredom. Minutos antes, porém, espalha gasolina pelos cômodos da casa, deixando um rastro até a calçada. Mora a alguns metros da danceteria mais movimentada da cidade. Está convicto de que, em pouco tempo, fumantes mal-educados passarão em frente ao seu portão.




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Maturidade

 

Quem me dera voltar à inocência
Das coisas brutas, sãs, inanimadas,
Despir o vão orgulho, a incoerência:
- Mantos rotos de estátuas mutiladas!

 

(Florbela Espanca)

 

Aos 6 anos e 4 meses
Era sua primeira viagem. Pouco depois que o avião começou a planar acima das nuvens, Carmen sussurrou:
– Mamãe, acho que Deus nunca vai precisar de guarda-chuva!


Aos 8 anos e 3 meses
No campeonato de natação da escola, da arquibancada, ela viu o amigo tossir assim que saiu da piscina.
– Vovó, o que a gente faz quando alguém engasga?
– Ah, tem que dar tapinhas nas costas. O que entrou errado sai pela boca.
Carmen pensou e soltou um longo suspiro.
– Quando o coração está engasgado tem que esperar a água sair pelos olhos?


Aos 10 anos e 2 meses
Ao abrir a porta, ele surpreendeu a filha com as vistas perdidas na janela. Perguntou, então:
– O que você pensa que é, Carmen?
– Sou um enquanto isso, pai.
O homem arrancou o livro de poesia da mão da menina, apressando-se em dizer que já era hora da lição de matemática.


Aos 17 anos
Primeiro dia de aula do terceiro ano, mais de cinquenta alunos na sala. Ela está na primeira carteira.
– Qual o nome dessa menina de olhos verdes e cabelos pretos?
– Carmen.
– E então, o que você vai prestar?
– Contabilidade.
– Algum motivo especial?
– Meu pai é contador, preciso trabalhar com ele. Continuidade dos negócios da família, sabe como é, professor...

 

***

 

Réveillon

Vivemos como sonhamos, sozinhos.
(Joseph Conrad)

 

É possível ser nada? Me responda, pelo amor de deus! Que deus as cervejas cultuam? Me responda. Só nos resta um ao outro. Só nós dois. Claro, quem estaria agora nesse boteco? Trinta e um de dezembro, dezoito horas e quarenta e dois minutos. O asfalto solta um bafo fervente. O sol que arrebenta meus olhos encharca a camisa de um cheiro amanhecido. A camisa grudada nas costas e no encosto da cadeira metálica. Por que a dona Elza não desce o toldo? Bermuda bege, chinelo de dedo com solas gastas. Boné vermelho. Você tem nome de deus hindu. Brahma, o criador do universo. Pra que me serve essa porra de informação? A serventia. A utilidade. Fui útil por muitos anos. Maurício Heitor de Freitas, subchefe do setor de produção da Brookfield Incorporações, carregava no peito o crachá a balançar feito o pêndulo da vida. Bom-dia, senhor Maurício. Diversas mudanças estão sendo implementadas na empresa. A partir de agora teremos um modo diferente de trabalhar, nova gestão, novo sistema de informação. Espero que compreenda. Eu sou a vingança de deus. Ou de quem veio antes dele. Não existe antes de deus, me corrige Agostinho. Tá bom, mamãe! É Santo Agostinho! Santo! Antes e depois são categorias temporais e o tempo foi criado por deus. Agostinho, você devia ter continuado na libertinagem, faria menos mal a si e ao mundo. Se não fosse você, provavelmente eu não sentiria a ausência arrancando meu fígado desde a semana passada. Você vestiu o natal de sacralidade. Vinte e quatro de dezembro: mesma cadeira, mesmo sol, mesmo bar. Mesmo gosto de lodo na língua. O gosto de sessenta e oito anos de podridão. Aquele canudo, que peguei em 1972, achei que viria recheado de sucesso, prosperidade, realização. Eu, Maurício Heitor de Freitas, orador da quinquagésima turma de Engenharia Civil, prometo honrar o diploma e exercer minha profissão, contribuindo para o bem-estar e a felicidade das pessoas. Felicidade?  Palavra inventada por marqueteiros. Não, não me venha requerer autoria, Aristóteles, escravocrata filho da puta! Maria Lúcia, aonde vai? Não aguento mais, Maurício. Essa loja não vai pra frente, os boletos não param de chegar. Você enfiado nesses livros de merda. Pra mim, já deu. Oito anos com você são mais que suficientes pra perceber que isso não é vida. Só me restaram os livros quando minha loja começou a falir. Depois que fui demitido da Brookfield, enviei currículos, pedi indicação, me cadastrei em sites. O senhor está com quarenta e nove, é isso? Duas entrevistas que morreram num telefonema. Abri minha loja, então. MHF materiais de construção, logomarca e slogan criados por agência de publicidade. Tudo indo bem, dois anos crescendo, até que a C&C inaugura uma megaloja a três quadras da minha. O que me salvou da navalha na aorta foi o sebo do Altair: Filosofia, Teologia, História. Pra que ser salvo, Brahma? O velho Altair gostava dos livros didáticos. Eles falam em uma página o que os outros precisam de dez. Quando não tinha clientes, Altair atravessava a rua, encostava o cotovelo na bancada da minha loja e, com a boina vermelha, se punha a lecionar: segunda guerra, filosofia medieval, existencialismo. Mas o assunto preferido era Revolução Russa. Já muitos tentaram explicar o mundo, senhor Maurício. Temos é que transformá-lo. Dona Elza, já é hora de fechar? Sim, quero tomar banho e preparar a ceia pros netos, senhor Maurício. Brahma, quem sabe que estamos aqui agora? Trinta e um de dezembro, dezenove horas e quatro minutos. As nuvens sabem. Aquela ali, por exemplo, está grávida. Não, ela parece um elefante. Bruno adorava elefantes, tinha dois de pelúcia e não trocava os bichinhos por nada, nem pipas nem bonecos de guerra. Deve estar se preparando pra ir à sogra. Três anos que não me vê. Tem vergonha do pai. Com a mesma força que tenho vergonha do meu?  Não vai ser igual seu pai, moleque! Te decepcionei, mãe! Eu sou o papai. Só não matei ninguém dirigindo bêbado, mas sou a sombra do senhor Marcos de Freitas. Eu teria vergonha de ser meu filho: um velho transpirando álcool e angústia. Ah, Sartre. Se seu livro pudesse diminuir minha angústia! O ser e o nada. Ser nada. Palavras sem raízes no mundo. Mentira: serviram pra você comer um tanto de mulheres. Amor livre! Amor: uma ideia sem carne. Igual essência, ser, alma. Dia desses li uma frase: só acredito em almas que têm desejos carnais. Faz sentido. Sentido? Que sentido faz trabalhar dezenove anos numa empresa pra ser descartado feito papel higiênico? Que sentido faz se dedicar mais ao próprio fantasma do que à mulher que ama?  Que sentido faz ser pai só biologicamente? Sentido! Maurício Henrique de Freitas, hoje o senhor é responsável pela ronda. Sim, capitão! A vida é uma ronda noturna pelo quartel: movimentos repetidos, arma em punho, pronta a atacar o inimigo. Inimigo que é você. Trinta e um de dezembro, dezenove horas e vinte minutos. Canta comigo, Brahma: Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender! Próstata dilatada? Infelizmente, senhor Maurício. Temos que fazer uma biópsia o quanto antes. Até o dia 22 porque, senão, só no ano que vem por causa do recesso. No primeiro réveillon juntos, Maria Lúcia me abraçou de um jeito que eu nunca tinha sentido. Abraço forte. Carinhoso. Terceiro ano consecutivo que passo o réveillon aqui. Eu e você abraçados, Brahma. Feliz ano novo!

 

 

 

 


 


SINOPSE: O LADO IMÓVEL DO TEMPO:

 

Em "O lado imóvel do tempo", há tudo o que um leitor arguto espera da literatura contemporânea: renúncia à linearidade artificial, flutuação entre vários tempos da ação, fluxo de consciência, diferentes vozes narradoras, nenhuma delas confiável, o sujeito em crise, incerto de sua existência real se não for delineada pelo olhar do outro, de muitos outros, de todos. E metáforas originais, surpreendentes, que, uma vez lidas, se revelam indispensáveis, sem jamais derrapar para a literatice e dando ao texto uma necessária pátina de humor.

(Maria Valéria Rezende)

 

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Matheus Arcaro conseguiu, com "O lado imóvel do tempo", a mesma intensidade e o mesmo envolvimento dos melhores contos de seu livro anterior, Violeta velha e outras flores. Na verdade, os capítulos curtos desta narrativa longa são quase contos de atmosfera. Uma atmosfera tensa, delineada por uma linguagem ora lírica ora reflexiva.

(Nelson de Oliveira)

 

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"O lado imóvel do tempo" é uma obra vigorosa, com personalidade, que reafirma o talento de Matheus Arcaro como ficcionista.

(João Carrascoza)

 

Conheça trecho do prefácio do escritor Menalton Braff para o livro Violeta velha e outras flores, de Matheus Arcaro:

 

O momento certo
por Menalton Braff


"Não pela idade, senão pela experiência intelectual, Matheus Arcaro lança este seu primeiro livro com maturidade inusitada, isto é, um autor que nasce maduro, seguro daquilo que quer como experiência literária. Seus contos são de uma intensidade surpreendente. E intensidade, aqui, não como palavra oca, de mero efeito retórico, mas como expressão das mais extraordinárias experiências de vida de suas personagens, todas elas densas, habitando o fio de seus limites.

Violeta velha e outras flores, entre suas virtudes, conta com a modernidade de seus contos sobretudo no que diz respeito ao emprego da linguagem, sua preocupação constante com a incorporação de recursos poéticos no discurso com que são construídos os contos. Ritmo, sonoridade e figuras de linguagem de grande poder sugestivo são elementos constantes na caracterização do autor."

 

Conheça um conto do livro Violeta velha e outras flores, de Matheus Arcaro:

 

 

Violeta velha


A mancha arroxeada que abraçava o olho esquerdo não foi suficientemente apelativa para que Timóteo continuasse o movimento. Desobediente, a mão manteve a faca enferrujada imóvel, encostada à pele do pescoço meticulosamente talhada pelo tempo. O espelho, estreito como seu espírito, uma vez mais testemunhou a covardia, silencioso. Com esforço, o suor que nascia farto nas fontes nuas vencia as valas do rosto e repousava salgado nas clavículas.

Olhou para o lado, olhos arredios, e notou os pelos brancos que começavam a se alastrar pelo rosto do menino deitado no sofá (seria sempre um menino para ele). “As crianças são naturalmente cruéis”. Lembrou-se da frase ouvida há quase setenta anos, numa tentativa inconsciente de dar sentido ao que sentia, de explicar aquelas coisas que não cabiam em seu mirrado peito. Os acontecimentos antigos pareciam esculpidos na memória; os recentes lhe escorriam pelas fendas da massa cinzenta. Mas a visão é uma grande aliada da lembrança senil: os hematomas raramente abandonavam seu corpo. E doíam. Doíam muito. Contudo, doíam menos que a ciência de que o autor deles era aquele menino.

O álcool exalado pelo corpo embutido no estofado inundava o minúsculo cômodo, metade da casa alugada. As paredes, com as intimidades à mostra, compartilhavam sua aspereza com o senhor de cabelos esbranquiçados. Errei, Senhor. Um vaso não sai torto se forem boas as mãos do oleiro! A parábola era perfeitamente plausível: Timóteo trabalhara quarenta anos na olaria da pequena cidade e orgulhava-se de nunca ter recebido uma reclamação sequer sobre os vasos e vasilhas que produzia.

Ficou maior o espelho e, de relance, ele reparou na mesa de madeira: as migalhas do pão seco que comera no almoço refletiam a luz do sol a entrar pela esquálida janela, acima do sofá. Aquele feixe de luz parecia suturado ao ambiente: a vitalidade dos pingos luminosos que tremeluziam sobre a madeira surrada oprimia o velho. Na verdade, evidenciavam que, por mais sórdida que seja a situação, sempre há pontos de luz. E ele não soube identificar isso no filho. Apertou veementemente o cabo da faca na esperança de esmagar a sua culpa. Precisava dissecá-la, mas era como um legista recém-formado; não encontrava o fio para conduzir sua regressão; a memória, uma colcha de retalhos com buracos. De súbito, veio à mente o nascimento do filho: sem clemência, a parteira enfiara um ferro na esposa, pra que um ferro desse tamanho, dona? Quanto sangue, meu Deus! Calma, meu bem. Nossa Senhora do Bom Parto há de olhar pela gente. Os dedos da mulher, que há instantes pareciam cravados à lateral da cama, agora tremulavam a poucos centímetros do chão. Era obsceno o contrastaste entre a boca roxa dela e os berros do menino que desocupara o ventre.

O velho sacudiu a cabeça. Com isso, reavivou a primeira prisão de Afonso. Ele não fez nada, seu guarda, aquele pacote não era dele! Os homens de cinza o atiraram no chão de barro batido feito um saco de cimento. Algemaram-no. As sirenes invadiram o quarteirão e, como ímãs, atraíram os vizinhos para fora de suas casas, espetáculo ao vivo, gratuito. Dois anos e oito meses no reformatório, até atingir a maioridade. Os olhos baços do espelho morderam-no novamente. A cabeça do filho tombou levemente e os cabelos sebosos misturaram-se ao suor da testa. Nem de longe lembravam os fios vivos da infância de Afonso. Penteie direito, senão o cabelo eriça em cima, menino. Tem que ficar bonito no retrato que vamos colocar na estante, perto do da sua mãe. Ela ficaria orgulhosa: nosso menino na primeira comunhão! Pela boca entreaberta do filho deitado escorria uma gosma esverdeada. Timóteo sentiu nojo de Afonso como no dia em que ele começou a roubar as coisas de casa. Preciso de um trocado, pai... Velho mentiroso, eu sei que você tem dinheiro. Cadê a grana da aposentadoria? Após destruir a pauladas os parcos objetos da sala, o jovem saiu carregando o ferro de passar roupa.

Tossiu violentamente o homem do sofá, mas não abriu os olhos. Estava ali fisiologicamente, emprestado à atmosfera. Do movimento de descida do peito desnudo nascia um ruído tão imundo quanto seus pés. Em tempos desbotados, o velho correria para acudir o menino, dando-lhe uns tapinhas nas costas, como lhe ensinaram as irmãs da igreja que frequentava religiosamente. Porém, os cabelos ralos não se moveram. Tampouco a barata que passeava sobre o porta-retratos foi capaz de suscitar-lhe alguma reação. O corpo de Timóteo estava suturado ao momento. A mente, por sua vez, parecia suspensa; como uma bailarina, abraçou a lembrança da festa que preparara para Afonso: o bolo custara-lhe duas semanas de trabalho. Os salgados, o refrigerante e as bexigas faziam-se presentes graças às economias que guardara debaixo do colchão de palha. O sacrifício valia a pena: a primeira década do filho carecia de uma celebração digna de fotografias. Para testemunhar o apagar das velas foram chamados quatro amiguinhos de Afonso e também André, fotógrafo amador. Depois do bolo cortado, a foto oficial da festa. Os convidados nem precisaram espremer-se para o enquadramento. Sorrisos e abraços... E gritos... Solta meu filho, seu filho da puta! Quem era aquele homem de aproximadamente quarenta anos que invadira a festa e espancava o menino? As crianças saíam correndo aos gritos enquanto o homem desferia socos e pontapés no protagonista da festa. Por que não acudi meu filho? Sangrava, sangrava e o pai soldado no chão, atirando palavras.

Um ruído, desta vez mais negro, e Timóteo voltou novamente a cabeça para o sofá. Era ele o agressor! Por que fez isso com você mesmo, Afonso? Timóteo teve ímpetos de arremessar a faca na cabeça que pendia do móvel despelado, mas não desceu da intenção. Pela primeira vez em anos experimentou o sal nascido nos olhos. E a ardência, que começara nas cicatrizes dos lábios, espessara-se e avançava boca adentro deixando rastros de azedume pela língua. O líquido desceu esfolando o esôfago, avalanche cáustica que arrastava a impotência de um pai negligente, bateu no estômago e voltou impregnado de bílis. Com o passado entre os dentes, Timóteo dessentiu os membros. Observou o olho esquerdo, gineceu de uma violeta velha, murcha e úmida, até o sol vestir a capa da noite.

 

 


 

Livro: Amortalha

Autor: Matheus Arcaro

Gênero: Contos

Número de Páginas: 120

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete

 

 

 


 

 

Livro: O lado imóvel do tempo

Autor: Matheus Arcaro

Gênero: romance

Número de Páginas: 192

Formato: 16x23

Preço: R$ 38,00 + frete

 

 

 

 

 


 

Livro: Violeta velha e outras flores

Autor: Matheus Arcaro

Gênero: Conto

Número de Páginas: 150

Formato: 14x21 - acabamento em capa dura

Preço: R$ 37,00 + frete